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Em busca do silêncio perdido



Aristides deixara a cidade em busca de repouso. Trabalhara o ano inteiro, em meio ao tumulto do centro urbano com suas buzinas, ambulantes, pedintes e assemelhados a lhe extorquir sempre alguma atenção. Volta e meia, compressores e marteletes rompiam o asfalto no lançamento de novas redes de água e telefonia. O barulho era ensurdecedor.

Benditas férias, pensava. Agora, poderia se dedicar a contemplar o mar, o céu sem nuvens, as beldades que circulavam  em biquínis sumários, sem maiores preocupações.

Neste momento, observava as montanhas ao longe e logo ali a praia e os edifícios perfilados. Estava em Balneário Camboriú, onde a natureza havia sido pródiga em paisagens. Defronte, uma ilha paradisíaca, logo adiante um teleférico de onde se vislumbrava a cidade e muitas mulheres lindas espalhadas pela areia.

Sentiu sede. Foi até o quiosque e pediu uma caipirinha de vodka. Com bastante gelo, enfatizou. Um grupo de jovens havia estacionado seu carro nas proximidades e aberto o porta-malas, de onde se sobressaiam pesados alto-falantes.

Sem maiores rodeios, o cd-player foi ligado e Zeca Pagodinho começou a animar a praia em volumosos decibéis. Aristides odiava pagode e, contrariado, ouvia tudo aquilo. Logo se formou um grupo e a dança teve inicio. Corpos rodopiando, munidos de copos de cerveja e muita energia , a festa prometia ser animada. Passaram-se minutos, eternos para Aristides,  novos Cds foram sendo colocados e ele, para não se incomodar, bateu em retirada.

Deslocou-se para um local mais distante. Estendeu sua esteira e fechou os olhos. Enfim paz, em meio ao vaivém suave das ondas, ao canto distante dos pássaros. Entretido estava em suas reflexões, quando escutou palavras em um idioma estrangeiro. Abriu seus olhos, lentamente, e vislumbrou um grupo de cerca de três famílias argentinas completas. Vinham todos: la abuelita, los niños y niñas, los señores y señoras.

De imediato, a balbúrdia se instalou. Crianças corriam e tropeçavam em sua esteira, homens bebiam uísque previamente trazido em uma caixa de  isopor, mulheres tagarelavam sem parar.

Logo, estavam todos bêbados e cantavam tangos e boleros, num coro desafinado e irritante. Aristides pensou em gritar, chamá-los de “hijos de la puta”. Porém, vendo o estado alterado da turma e a desvantagem numérica, pegou seus pertences e clamou por um táxi, sentindo seu corpo arder pela prolongada exposição solar.

Um carro reduziu a marcha e parou.  Ele, rapidamente, assumiu o banco traseiro. Disse ao motorista :
- Por favor, Hotel Central.
- O senhor já vai tão cedo da praia?
- Não agüento mais os argentinos. São barulhentos e inconvenientes.
- Meu senhor, eles são a fonte de sustento de Balneário Camboriú.
- Hijos de la puta, isso é o que são.

O condutor resolveu ficar calado. O passageiro sempre tinha  razão...
- Chegamos, meu senhor

Pagou ao taxista e, quase correndo, dirigiu-se ao quarto. Enfiou-se no banho, esperando se redimir de toda aquela algazarra, enquanto a água tépida percorria seu corpo. Tinha decidido: iria voltar à cidade, não agüentava mais tanto barulho. Pegaria sua mala, pagaria a conta do Hotel  e iria, imediatamente, à rodoviária.

Saiu do banho, enrolado em uma toalha. Deitou-se na cama. Logo, o sono veio lhe fazer companhia. Amanhã, faria isso. Adormeceu, nu e feliz. Finalmente o silêncio se instalara. Ao longe, podia-se notar o ruído de marteletes e compressores rompendo o asfalto.  Vou virar de lado, pensou, acredito que seja, apenas, um sonho...


Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 04/10/2006
Código do texto: T256290
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
1919 textos (29385 leituras)
1 e-livros (105 leituras)
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Ricardo Mainieri