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MATE EM TRÊS LANCES

Sirvo ao meu rei. Abro os olhos e me vejo sujo, empoeirado: Caí do cavalo. A poucos metros de mim está o rei, arfando no chão largando sangue pelo braço. O braço do rei. Meu cavalo não se mexe. Desgraçados. Ando uns poucos metros com o homem apoiado ao meu ombro e paro. -Espere, alteza, Digo-lhe. Baixo-me e com o ouvido ao chão sinto o ribombar cadenciado dos cavalos que não eram nossos. – Vossa alteza tem que descer o rio, ordenei. Ele resmunga algumas coisas como luta e até o fim e eu calei-o. – Lutei por vosso pai. Agora luto por vossa alteza. Ordeno que vá. E beijo-o na testa.

E ele foi. Desceu a encosta e sumiu da minha vista. Os cavaleiros avançam. Será um xeque-mate óbvio, de cavalos e torres. Pena que eles não têm uma Dama, e eu sou uma Dama.

Coloco a espada por entre os olhos cerrados e penso numa oração. Entretanto, perdoe Deus, a única coisa que me vem à mente é o sorriso da minha esposa. Era um sorriso angustiado, tenso, ao me ver partir afim de defender a honra de vossa alteza. Se não havia verdade naquela preocupação para comigo, não há mais verdade nessa terra desgastada.

Os cavalos trotam ao som da morte.

Vêm em formação de asa, pulando no meio da poeira. Ando na direção deles como se não existisse. Lanço a espada na goela de um cabeludo de barba. O impacto o arremessa defunto para trás do cavalo, que fica desnorteado. Esse servirá ao Rei. Espeto a pólvora na carabina e estouro a cabeça de um outro.

Que venham.

Saco minha segunda espada. O único que sabia manejar duas ao mesmo tempo. O general do Rei. Amado pelas mulheres, respeitado pelos homens. À mim eu sirvo.

Eles passam por mim querendo espetar-me e eu consigo rasgar um cavalo-homem numa diagonal alta. O animal morre. Que Deus o tenha. Foram-se. Só vossa Alteza interessa, mas este já cruzou o rio. O cavalo do cabeludo ainda bufa. Agarro no estribo e bato com os calcanhares.

Os condenados olham para trás. E me desdenham.

Puxo duas facas e me meto no meio de dois, rasgando seus intestinos, para que entrem em choque e morram. A lama suja minha armadura. Um inútil acorrenta meu braço. Puxo e espeto sua goela, observando a língua roxa e os olhos esbugalhados encarando seu algoz. Por todos os lados há espadas. Mas eu sou uma Dama. O sorriso da minha esposa.

Agarro uma lança e derrubo todos em meu redor. Vários outros me deixam. Meu braço sangra. Fui espetado. Caio. Atravesso a lança num condenado e o jogo contra outro,  e sinto um ferro frio nas costas. Viro. Não vou morrer hoje. Espeto sua virilha com um grito primitivo, dentes à mostra. Era uma fúria animalesca, com a pureza de quem lembrava só e apenas do sorriso de sua esposa.

Por que é a ela. E só.
Serennus
Enviado por Serennus em 06/10/2006
Código do texto: T258147
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Sobre o autor
Serennus
Parnamirim - Rio Grande do Norte - Brasil, 37 anos
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