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Lágrimas em um cárcere

_ Formigas... Formiguinhas que vão e vão... – era um sussurro que quebrava o silencio da cela. As palavras saiam daquela boca como a própria respiração, passavam pelos lábios entreabertos sem que fossem moldadas ou arquitetadas. Eram lapsos.

_ Formiguinhasss... As lágrimas não mais escorriam.

O corpo lânguido caído ao chão da cela já não se mexia como antes. Havia desistido de lutar contra a dor e a solidão. O corpo, ora extenuado e aparentemente sem vida, já fora a armadura de uma alma inquieta e rebelde.

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Quando o rapaz de aparência frágil fora trazido ao calabouço, ouviram-se risadas despachadas, assovios provocadores e palavras rudes dos homens corpulentos que lá se encontravam.

De início, o carcereiro sensível que cobria aquele turno, acomodou o jovem incauto em uma cela segregada às demais. Mas os turnos seguiram-se um após o outro e logo o carcereiro sensível não foi mais visto pelos lúgubres corredores de pedra.

No seu lugar os prisioneiros recepcionaram um homem feio, forte e mal cheiroso que puxava de uma das pernas e odiava o mundo por isso.

No primeiro dia em que assumiu o seu posto, o terrível vigilante decidiu inspecionar cela por cela, girando seu chicote, arrancando sangue e gritos. Quando se encontrava finalizando seu trabalho, satisfeito com os resultados por colocar a casa em ordem, deparou-se com um prisioneiro solitário em uma cela distanciada da maioria. O homem parou, coçou a cabeça. Pegou seu molho de chaves, destrancou o cadeado, firmou o chicote com a mão direita e empurrou o pesado portão com o pé, de maneira cautelosa.

Ouviu-se um rangido temeroso e pesados passos em seguida.
O carcereiro adentrou a cela que possuía o mesmo formato retangular das demais, porém em proporções bem menores, e olhou para o garoto encolhido que abraçava as próprias pernas, no canto do cubículo. O jovem levantou a cabeça, deixando que os fios de cabelo engordurados e embaraçados cobrissem parte de seu rosto e não disse uma palavra. O carcereiro o fitou, girando o chicote em pequenos círculos próximos ao chão, o bastante para levantar no ar a grossa camada de poeira que o cobria, e perguntou com a voz baixa e grave:

_ Por que está aqui?

_ Não sei, senhor. – O terror do rapaz era tão grande que as palavras lhe saiam trêmulas, quase como súplicas.

Quando terminou a frase, sentiu que lhe faltava o ar e seu coração palpitava em curtos intervalos, de forma desvairada, como seu próprio pensamento.

_ Então é inocente? – Um sorriso sarcástico levantou a cicatriz que cortava a face do carcereiro, dos lábios às têmporas do lado direito, sem deixar à vista os seus dentes. E de súbito, o homem agarrou os cabelos do garoto, sem que o mesmo tivesse chance de reagir, fazendo-o ficar em pé.

Era um rapaz de aproximadamente 15 anos, cabelos negros e pele alva.

Seu corpo franzino, suas roupas baratas e a aparente subserviência estampada em seu rosto lhe conferiam a identidade de alguém sem recursos, abandonado à própria sorte. Seu nome era Erick, mas isso somente o carcereiro sensível sabia.

O garoto levou as mãos à cabeça tentando deter o carcereiro, mas este logo percebeu que sua vítima era fraca comparada à força corporal que ele tanto se orgulhava em ter. Então jogou o rapaz contra a parede, segurando-o pelos braços posicionados acima da cabeça, de costas. Soltou um aterrorizante grito gutural e logo após, uma risada histérica e compassada que aumentava o ritmo e altura à medida que o jovem se debatia e chorava. Os homens encarcerados aplaudiram e comemoraram da mesma forma, transformando as catacumbas em um circo horrendo, de homens selvagens.

O carcereiro jogou seu corpo contra o do garoto de maneira que este estivesse imobilizado. Então desabotoou seu cinto deixando suas vestes inferiores caírem ao chão e em seguida fez o mesmo com as vestes do garoto.

Os gritos do jovem espalharam-se pelos corredores e fizeram com que até a alma mais profana dos que ali estavam presos sentisse ódio pelo que ocorria. A algazarra cessara, agora os homens olhavam-se e indignavam-se silenciosamente à medida que ouviam o carcereiro externar sua devassidão em detrimento do jovem que soluçava e gemia.

De início foi um murmúrio, mas em segundos estes já haviam se transformado em brados e xingamentos. Outros guardas vieram auxiliar o outro carcereiro que havia por ali, e resolveram abrir as celas para espancarem os homens a fim de terminar com o alvoroço.

Mas os homens estavam feridos em suas almas, não só pelo garoto, mas pelo que eles próprios haviam passado. Sua fúria era incontrolável, sua dor explodia em rompantes de violência irracional.

Os guardas foram mortos à pedradas e pontapés, suas armas tomadas e as algemas quebradas.

Quando o carcereiro manco ouviu a guarda descendo para conter os prisioneiros, jogou contra o chão o garoto confinado deixando-o soluçando e se contorcendo, e correu pelo portal lembrando-se de trancá-lo ao sair da cela.

Logo que chegou ao corredor principal percebeu que não era uma balburdia como as que já ocorrera, mas uma rebelião fora de controle e antes que completasse seu raciocínio sentiu uma forte pancada na cabeça. E não viu mais nada.

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Uma semana havia se passado desde a fuga dos prisioneiros e ninguém havia retornado ao local para averiguar o que havia ocorrido ou se havia sobreviventes.

O garoto havia passado os primeiros dias soluçando e lamentando a própria sorte, mas logo viu que não havia esperanças para si. Um dia ele sentou-se recostado à parede e lá permaneceu até que não suportasse mais aquela posição, então se deitou ali mesmo, de lado, olhando para o interior da cela.

Não havia água, nem comida. Apenas formigas. Formigas grandes, pequenas.... Somente formigas.

Ele fechou os olhos e sentiu-se livre e feliz.

Quando as grades do seu cárcere foram abertas, o garoto abriu sutilmente os olhos. Lágrimas escorreram pelo seu rosto, mas não eram as suas. Ele sorriu e antes de desfalecer ouviu sussurrar ao seu ouvido uma voz feminina que tanto conhecia:

_Perdão....
Alessandra Vasconcelos
Enviado por Alessandra Vasconcelos em 07/10/2006
Reeditado em 23/07/2008
Código do texto: T258730
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Sobre a autora
Alessandra Vasconcelos
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 36 anos
31 textos (1623 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 20:06)
Alessandra Vasconcelos