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Almas e sapatos na enxurrada

Chovia muito, como há dias não chovia naquela região.

Quando as primeiras gotas caíram no asfalto quente, podia-se ver uma tênue fumaça subir e desaparecer logo em seguida no ar, sob rodas de apressados veículos insensíveis à beleza daquele momento.

Em pouco tempo nada se via através da densa tempestade que despencava sobre a cidade, impondo sua própria vontade aos frenéticos motoristas e ansiosos pedestres que se encolhiam sob os toldos das lojas. A água invadia os estabelecimentos, carregada pelo vento que assoviava enquanto açoitava as vitrines e portas que se fechavam apressadamente, deixando do lado de fora mães encharcadas e crianças assustadas.

O céu tornou-se sombrio, trazendo inesperadamente a noite em plena tarde de verão. As árvores centenárias do centro da cidade chacoalhavam suas vistosas copas, tombadas pelo vento violento que lhes impunha sua força desmedida.

Ouviam-se sons de buzinas e gritos de mulheres que tinham suas belas saias coloridas levantadas pela ação da ventania. Ouviam-se estalidos da fiação elétrica rompendo-se nos postes e o borborejo dos esgotos transbordando, lançando toda a sujeira escondida, às ruas e calçadas.

Rapidamente o nível da água subiu até as canelas das pessoas em toda a região central. O pânico instalou-se, as autoridades foram chamadas à tomar providências, mas não tinham meios de impedir que o caos reinasse naquela situação. Foram enviados bombeiros, policiais e guardas de trânsito. Mas a chuva era de tamanha intensidade, que as viaturas ficaram imóveis nas ruas alagadas quando a água da enxurrada atingiu suas partes elétricas. Os pedestres estavam indefesos, agarrados aos postes, quase carregados pela água e pelo vento.

O prefeito já calculava os gastos que teria para a recuperação da parte destruída da cidade, seus reflexos na economia local e a ajuda aos que tudo perderam, quando depois de exatos 22 minutos do início, a chuva parou. Os ventos cessaram, deixando uma impressionante sensação de estagnação inesperada. Nada se mexia.

As pessoas olhavam-se assustadas, não sabiam como agir. Estavam sujas, feridas, molhadas e principalmente desprotegidas. As mães abraçavam seus filhos, agradecendo por algo pior não haver ocorrido, enquanto os lojistas abriam novamente as portas e janelas tentando desde já calcular o alcance do dano sofrido.

Alguns homens passaram a falar alto, exigindo providências do governo, enquanto ajeitavam seus paletós desalinhados. Outros, que não vestiam paletós, procuravam estragos nas suas bicicletas, carros, motos, sapatos. Mas todos concordavam que algo deveria ser feito. Uma mulher chorava desvairadamente enquanto sacudia uma frágil velhinha, caída de costas sobe a calçada imunda. A mulher olhava à sua volta, procurando um rosto solidário, acusando os donos dos estabelecimentos de negligenciarem os pedestres.

O homem que acusava o governo, logo percebeu o alvoroço, e partiu pra cima do barrigudo senhor de avental que olhava, sem ação, à cena que se desenrolava na calçada. Acusações foram trocadas, pessoas uniram-se ao balconista enquanto outras apoiavam o indignado cidadão. A mulher ainda chorava de joelhos na água barrenta, que naquele local, chegava a apenas três centímetros.

Ouviu-se um estilhaçar de vidros. Mais um. As janelas e vidraças estavam sendo quebradas perto dali, os objetos das lojas estavam sendo levados sem que os vendedores pudessem conter a multidão que havia se formado. Pedras voavam em todas as direções, pessoas caíam em meio aos dejetos expelidos pelas fossas rompidas e eram agredidas no chão com chutes e pontapés. Mais mulheres choravam e gritavam tentando abrigar-se nos cafés das calçadas, mas estes não ofereciam maior proteção do que a rua tomada.

Carros, motos, bicicletas e paletós foram roubados ou destruídos, conforme a propensão dos seus donos. Sapatos foram perdidos, crianças pisoteadas. As autoridades novamente foram acionadas para que dessem um basta àquele estado caótico que atingia o coração da cidade. Depois de duas reuniões à portas fechadas, foram requisitados o auxílio da tropa de choque e das forças armadas.

Depois de uma hora e meia de confusão irromperam pelas calçadas homens fardados carregando consigo pesados fuzis, protegidos por escudos translúcidos e capacetes decorados.

A tropa de choque entrou em ação primeiramente lançando granadas de gás contra o aglomerado de pessoas, que nesta hora havia triplicado de tamanho, e ostentava vez ou outra, bandeiras irreconhecíveis em seu meio. Mas as pessoas não se dispersaram: exigiam comida, escolas, reparos nos bens destruídos. E sapatos. Atiravam pedras, lixeiras e pessoas contra a tropa de choque. Que respondia na mesma medida com balas de borracha e cacetadas de couro que abriam talhos nas cabeças dos que eram atingidos.

Ouviram-se dois tiros vindos do meio da multidão. O horror tomou conta dos que se apertavam e se indignavam com o que estava ocorrendo, ou com o que achavam que deveriam indignar-se. Mas não havia para onde correr. À sua frente soldados com a bandeira do seu país estampada no peito portavam armas pesadas e estavam desgostosos com o que ocorria. Dos lados, bueiros destampados e quilômetros de congestionamento de veículos que, à esta hora, não possuíam mais calotas, pneus ou pára-brisas. Atrás, prédios comerciais que se erguiam majestosos, desafiando o próprio céu.

Mais dois tiros. Desespero. Gritos. E uma multidão que investia contra soldados armados, tentando escapar dos projéteis que zumbiam sobre suas cabeças.

Os gritos não foram ouvidos pelo restante da cidade, apenas as explosões de pólvora das armas sendo disparadas na direção da multidão.

No dia seguinte, os jornais veiculavam a notícia de um possível golpe de estado que havia paralisado aquele país tão pacífico. Inocentes mortos pelos rebeldes foram enterrados como verdadeiros mártires da revolução. As poucas baixas do exército pátrio enalteceram ainda mais a brilhante atuação do governo em um caso como este, de segurança nacional.

A principal heroína da história, porém, havia sido dona Marta. Uma simpática velhinha que, devido aos problemas de pressão, desmaiara durante a ocupação da milícia armada e conseguira sobreviver, escondendo-se sob o balcão de uma padaria que havia no local. Ela não se lembrava de nada, mas sorria sempre que lhe focalizavam o rosto, apesar da morte da filha haver sido confirmada há dois dias.

Ela havia se tornado a imagem viva da última guerra daquele século.
Alessandra Vasconcelos
Enviado por Alessandra Vasconcelos em 07/10/2006
Reeditado em 21/10/2014
Código do texto: T258762
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Alessandra Vasconcelos
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 36 anos
31 textos (1623 leituras)
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Alessandra Vasconcelos