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LIVIANA




  A boate estava a meia luz. Rob, só em uma mesa, ouvia a música que doloridamente lhe lembrava Liviana. Sorve uma pequena dose do seu uísque, ato contínuo acende um cigarro. O ato de beber e fumar nesses momentos eram procedimentos indispensáveis. A lembrança que lhe vem de Liviana é nítida. Como se ela estivesse ali naquele momento, frente a frente. Seus olhos direcionados aos esverdeados olhos dela, penetrando fortemente, como se por essas órbitas pudesse atingir o mais fundo do interior dessa bela mulher, na tentativa de descobrir todos os misteriosos segredos que ela pudesse ter.

  Liviana era uma elegante e brilhante executiva. Conseguira o que nenhuma outra, até então, conseguira: o total amor de Rob. Sim, ele a amava absolutamente. Amava as medidas certas que ela possuía. Amava seu gracioso andar, com passadas firmes e elegantes. O harmônico balanço de seus seios enquanto caminhava. Amava seu cheiro de mulher.
 Ciúmes doentios, imaturos, seccionaram as relações entre Rob e Liviana. Ela não suportou a desconfiança contínua dele.

  Há dois meses não a via. Hoje, voltou ao mesmo lugar onde estiveram pela primeira vez. Era a primeira noite que ele saía sozinho. Veio de táxi. Sabia correr o risco de abusar no álcool. Mesmo sofrendo, tal qual um masoquista, não queria desviar seus pensamentos focados em Liviana.

 Mais do que nunca sentiu que não poderia perder Liviana por nada neste mundo, principalmente para um camarada todo desengonçado e fanhoso como é o moto-boy da firma dela. Como é que ele pode duvidar assim tolamente de Liviana com seu humilde funcionário? Tinha que se desculpar com ela, de qualquer jeito.

  Ao som de Emoções de Roberto Carlos, ele viaja mentalmente. Agora é como se estivesse deslizando suavemente seus dedos sobre os longos e negros cabelos de Liviana. Parece sentir até o perfume daqueles sedosos cabelos. Revê as pontas dos dedos no belo queixo dela, deixa-o em posição para o demorado beijo.

  Os mornos lábios, o sabor morango de seu batom, o serpentear voluptuoso das  línguas  se tocando. Beijos infindáveis. Suspirou ao recordar do prazer de sentir o aveludado, o macio que sentia a cada toque naquele corpo admirável. Uma excitação permanente e singular.

  Liviana dava-lhe uma sensação de virilidade única, inigualável. Pediu o quinto uísque e acendeu mais um cigarro. Teve uma repentina sensação de vazio. Não podia perdê-la. Tinha de reatar o relacionamento. Ela haveria de perdoá-lo.

 “Duas horas da madrugada. Será que devo ligar para ela aqui da boate? Será que agora não será ela que vai ficar com ciúmes por eu estar na noite?... Que nada, vou ligar!”
 Rapidamente tira do bolso de seu paletó o celular.  Rob se delicia ao imaginar ela atendendo ao telefone. Queria pedir mil desculpas. Parece já estar ouvindo o sussurrar ofegante da voz quente de Liviana.
 
  Quando a conheceu e a ouviu pela primeira vez, brincou com a voz dela. “Se você fosse uma daquelas locutoras de aeroporto, ocorreria congestionamentos nos terminais. Haveria recusa dos viajantes em apanhar o avião, ficariam no aeroporto só para ouvir sua voz novamente.” Acho que com este galanteio a ganhei.

  Pela quinta vez, Rob ouve o som da chamada telefônica. Arrepia-se. “Agora ela vai atender.”
  Do outro lado da linha ouve-se uma voz masculina, sonolenta e fanhosa, atender ao telefone:
  — Ahô!... Ahô!...
  Rob transfigurado pelo ciúme desliga imediatamente o celular, e berra:
  — GARÇOMMM !!!



20/9/2006 19:14:37

Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 08/10/2006
Reeditado em 05/11/2006
Código do texto: T259558
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
92 textos (3257 leituras)
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Luiz Celso de Matos