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nem antes nem depois

"Não posso falar alto senão acordo a minha sombra", era a ideia que tinha na cabeça e não conseguia pensar noutra coisa. Isto até começar a escrever: até agora. Agora já consigo pensar outras palavras, procurá-las. Soltar as palavras é uma limpeza para o cérebro, mas ainda não me consegui livrar da situação traumática.
"Não posso falar alto senão acordo a minha sombra" continua a estar presente, como é que isso aconteceu? O que estava a pensar, quero dizer, o que estava a fazer antes de bloquear nesta ideia que ficou a bailar-'me' na cabeça até 'me' confundir e 'me' tornar dependente do desejo da escrita?
Há quase um mês que ando a pensar escrever um conto, fazer uma história curta capaz de prender a tua atenção e fazer-me bater mais forte o coração. Não se pode dizer que esse desejo tenha surgido por acaso, tão possível que é saber exactamente o dia, a hora, o minuto.
Depois de receber a tua carta sentei-me a lê-la, mesmo antes da acabar de ler tinha-me sentado à frente do PC digitando a data e hora através do comando próprio para activar essa função. Depois passei os versos que me enviaste, finalmente li-os muito devagar. Fechei os olhos e disse as palavras, até ficar a saber o poema.
As palavras tinham movimento, pensava-as como se as lê-se nos versos. O inicio, o fim. E assim, de verso para verso. Até já não fazer sentido dizer que sabia o poema, antes me transformava nas tuas palavras e a ideia começou a ser esta "Não posso falar alto senão acordo a minha sombra". Mas este, quando muito, seria o inicio da história.
Finalmente ontem fez quatro semanas, de novo se repetindo pela quarta vez o dia da semana em que li a tua carta. Tinha ido passar o fim-de-semana fora, sem voltar a casa na sexta-feira, só no Domingo à noite li. A tua mensagem era longa, uma bela carta manuscrita com a tua letra bonita.
O poema prendia a atenção, todo o desejo já existia prévio à sua leitura. A forma como dizias ter escrito o poema, já era um poema. A própria ideia de escrever já era uma poesia, embora ainda não o soubesse enquanto lia, transcrevia e decorava o poema. Depois veio ler a carta toda, até terminar nas suas últimas palavras.
Nunca mais me recompus, a obrigação de escrever esta história bloqueou-me. Hoje finalmente senti que ia enlouquecer e fiquei muito calmo, nem fui ver a data em que recebi a tua carta pois não é preciso. O que necessito é que tu saibas que fim dei às tuas palavras, onde verdadeiramente elas nos trouxeram.
Lentamente, quase voltando ao ritmo da memorização do poema, comecei a escrever o conto. Sabes finalmente como és importante para mim, como tentei domar o objecto, iluminá-lo e como agora projecto a sua sombra e a deixo ganhar a forma do texto pedido com a urgência dum mês: nem antes nem depois.
Claro que me pergunto se também tu mantiveste os teus versos vivos na tua imaginação, se ambos vivemos a experiência dum pensamento comum com a mesma ebulição. Tudo para mim se resume ao final da história, saber que ela podia acontecer em qualquer altura mas teria de terminar só nesta altura.
Veremos, quando receberes a minha carta e registares a hora, os minutos e os segundos, até que ponto nos aproximámos um do outro. A leitura do conto fica pois pendente da hora que escrevi, tanto como da hora que escreveres. Depois teremos de nos encontrar e, na mesma ocasião, nem antes nem depois: mostraremos...
Aguardo a conclusão do nosso conto no nosso próximo encontro, agora só espero que os Correios não se atrasem. Entretanto, mais que o abraço onde damos os beijos, até nos entregarmos num simultâneo orgasmo: vou escrever o poema que levarei comigo. Sim, agora já posso acordar a minha sombra!

{Vai para o Mural:
Recantuais colegas das Letras, hoje chegarei às 100.000 leituras na minha escrivaninha. Para esse facto irá contribuir a natural e saudável curiosidade que espero vos anime, como a mim me animou enquanto escrevia o conto nem antes nem depois com o qual pretendi celebrar a ocasião. Está feito o anúncio para que, embora previsível a previsão feita, nada falhe. Conto com a presença de todos que aparecerem, mesmo para os que se limitarem a ler este anúncio, recebam as minhas melhores Saudações Recantuais!!}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 10/10/2006
Código do texto: T260965
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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Francisco Coimbra