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"Dona" Anna Paula

Anna Paula, ou melhor, dona Anna Paula, era uma mulher extremamente fechada, na verdade, às vezes, ela chegava a ser antipática. Falava com os vizinhos somente o necessário, como por exemplo, um “bom dia” ou então um “como vai?”, afinal não era má educada, mas era tudo entre os dentes. Morava aqui no bairro da Urca, na Rua Lauro Müller, nesse mesmo prédio, há pelo menos uns vinte anos, mas nunca soube que tenha feito amizade com nenhum morador. Vivia com seu marido, o senhor Afonso e com um casal de filhos, Bruno, com dezoito anos e Maiara, com dezesseis anos. O senhor Afonso era um sujeito tranqüilo, boa praça, tava sempre aqui na portaria batendo um papo sobre futebol, dizia não torcer por time nenhum, mas acho que ele era flamenguista enrustido. Aliás, todo mundo que diz não ter nenhum time de coração, pode crê que torce pro meu glorioso mengão. Mas deixe-me acabar de contar a história da dona Anna Paula. Ela trazia o marido e os filhos na rédea curta. Os meninos sempre tiveram uma criação severa, quase nunca podiam fazer alguma coisa fora do prédio, mesmo depois de adolescentes. O pobre do Bruno andava com um brinco de pressão na orelha, que tirava assim que chegava aqui na portaria. Pois bem, certo dia o garoto esqueceu de tirar o tal brinco e um vizinho que percebeu o detalhe na orelha do menino não deixou por menos, fez um comentário com Bruno sobre o tal apetrecho que ele usava outro dia, justamente na hora em que ele estava com a mãe. O garoto tomou um sabão, aqui mesmo na portaria: _ Você não tem vergonha seu moleque, por acaso foi essa a educação que eu te dei? Brinco é coisa de mulher e não de um jovem de família como você. O garoto ficou de castigo um mês. Com Maiara era ainda pior, pois, a moça não podia usar roupas curtas ou decotadas, maquiagem era só um batonzinho e olhe lá. A megera, quero dizer, dona Anna Paula, fazia questão de levar os filhos todo domingo na missa da tarde. Ela era diretora de uma empresa de exportação, chegava sempre muito tarde em casa, mas especialmente às quintas feiras, dia em que chegava ainda mais tarde. Dizia pro seu Afonso que toda semana, nesse mesmo dia, acontecia uma reunião de diretores. Porém, na semana passada, seu Afonso recebeu um pacote contendo uma fita k7 e um bilhete: _ Um dia, eu jurei pra sua esposa que ela iria se arrepender de toda humilhação que me fez passar na frente de meus colegas de trabalho, acusando-me de roubo na empresa. Nessa fita, tem a gravação da última “reunião” que a “pura” e “correta” dona Anna Paula participou. Repare senhor Afonso, no espírito de liderança que sua mulher possui. Pobre do homem, não merecia ter visto tudo aquilo. A gravação mostrava dona Anna Paula delirando de prazer enquanto assistia a um show de sexo explícito ao vivo, numa boate de segunda categoria no subúrbio carioca e, realmente ela liderava suas colegas de “trabalho” dizendo para o casal que posições deviam fazer, recolhendo dinheiro das amigas, atirando as notas no palco e pedindo ao garçom uma nova rodada de bebidas. A notícia da fita se espalhou rápido pelo prédio, ninguém mais respeitava dona Anna Paula, aliás, a família inteira, praticamente, não saia mais de dentro do apartamento. Mudaram-se nessa madrugada, tendo-me como única testemunha dessa fuga às escuras. Não se lembraram nem de pagar o condomínio do mês.
Elano Ribeiro
Enviado por Elano Ribeiro em 11/10/2006
Código do texto: T261773
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Sobre o autor
Elano Ribeiro
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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