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MULHERES DE OLHOS VERDES

Estou de ressaca. Não aquela ressaca física que vem depois de um porre de vinho, um copo a mais de caipirinha ou ainda uma girada no sentido ante-horário com a boca cheia de tequila. Não, essa ressaca passa facilmente. Mesmo que seu corpo comece a rejeitar seu fígado como se ele fosse um parasita invasor ou todos os tambores da África toquem na sua cabeça, bem... Essa acaba em um ou dois dias. Passa.
Também não me refiro à ressaca moral. Sabe quando a gente faz uma besteira ou chuta o pau da barraca e quando a merda está feita, não se pode voltar atrás? Então, é dessa que eu falo. Sabe, o constrangimento, a sensação de que o mundo vai te apontar quando você colocar a cara pra fora de casa, como se todos os passantes soubessem da cagada que fez e quando saísse à rua todos olhassem pra você e dizendo: “que vacilão!”...
Bem; não me refiro a essa também. Estou falando não de uma ressaca qualquer, mas DA RESSACA, com letras maiúsculas. Estou falando da pior sensação que um ser vivente pode passar, algo que atinge a alma, dói por dentro e não há remédio que cure, nem o tempo. Essa, meu amigo, não passa nunca e machuca pra cacete.
E não pense que você nunca passou por ela, eu pelo menos passei por ela três vezes. Três momentos terríveis de angústia, falta de ar, uma sensação de que um céu de chumbo vai desabar sobre mim ou a terra vai abrir e me levar pra dentro dela pra nunca mais ver a luz do sol. Nesses momentos não sinto fome, sede, prazer, nada, eu fico completamente vazio.
Você deve estar se perguntando “que porra de ressaca é essa?” E eu lhe digo, é aquela causada por um coração partido. Não, não estou bêbado ou algo parecido, na verdade não fico assim há muitos anos, mas quando alguém parte seu coração, ou melhor, pisa, joga no triturador e espalha os grãos que sobraram pelo ar depois de esfregar em sal grosso com álcool, a sensação que fica é essa que já falei e o pior, permanece por um longo, longo tempo, na verdade uma eternidade. Ela te persegue, gruda em você igual carrapicho na calça, é horrível.
Essa ressaca é um tipo nobre, não passamos por ela toda a hora, não é uma coisa vulgar como um porre de cerveja vagabunda e quente, negativo. Por essa passamos poucas vezes, uma, duas, três no máximo e isso numa vida inteira. Basta amar alguém pra ser um forte candidato a viver sem sua alma por tempo indeterminado. Basta dar seu bem mais precioso, seu coração, aquele órgão pulsante que te leva a cometer desatinos e entrar em frias que, em sã consciência, não faria, aquele seu velho companheiro de guerra que você ignora e faz até troça dele e que só sente sua falta depois que algum ser vil o tira de você.
Pois bem, se estou nessa ressaca de coração partido é porque o entreguei mais uma vez e mais uma vez ele foi tratado igual brinquedo na mão de criança de um ano. Mais uma vez me doei e fui jogado na sarjeta. Só que você vai ver que eu tenho uma grande parcela de culpa por estar assim. Ora, se eu disse que é a terceira vez que fico assim é porque já cai do cavalo antes e o pior, dizem que errar é humano e repetir o erro burrice, e quando ainda assim não se aprende e repete o erro, é o que? Mas ouça minha história e me diz se sou um eterno apaixonado ou uma besta?
Eu sempre tive uma grande queda por mulheres de personalidade forte. Aquelas que nunca dão bola pra você, sabe. Pra dizer a verdade, no quesito conquista, eu sempre tive o rei na barriga, eu não me contentava com as meninas que me davam bola, que queriam sair com um punk esquisito e nem um pouco popular. Não meu amigo, eu queria aquela que nem sabia que eu existia, que se tropeçasse em mim ainda ia reclamar de eu estar em seu caminho. Era esse tipo de mulher que me atraia sempre: as inatingíveis.
Pois bem, com o passar dos anos, a adolescência foi indo embora e o cinismo e a cara-de-pau foram fazendo morada em mim. Com isso, passei a cortejar essas deusas de mármore de museu e, por incrível que pudesse parecer, conseguia algum chamego com algumas delas. Sei lá, vai ver elas estavam numa fase de sair com caras mais exóticos ou era promessa mesmo, não sei, a verdade é que comecei a ter algum sucesso com essas tão sonhadas mulheres difíceis.
Mas estou me antecipando. Ainda na adolescência, quando tinha dezessete anos conheci uma bela menina de olhos verdes. Ela era um pouco mais velha, tinha vinte, o que todo garoto da minha idade queria, uma “mina mais velha”. Ela foi a primeira a me deixar de ressaca.
Até então eu não havia namorado ninguém, tinha minhas paqueras, meus flertes aqui e ali, nada substancial, e surge essa moça em minha vida. Temperamento forte, decidida, sabia bem o que queria; aparentemente. Depois de algumas semanas nos encontrando ela propôs que namorássemos. Eu, no auge da minha imbecilidade púbere, aceitei com total indiferença, mal sabia eu, que ali tinha selado meu destino, ainda não fazia ideia que naquele momento, naquele “sim”, eu nunca mais teria paz, não tinha a noção que dali a três meses eu passaria pela minha primeira ressaca de coração partido.
Tudo corria bem, e eu, na minha empáfia adolescente, querendo impressionar e ao mesmo tempo dizer quem mandava na história fui logo dizendo: “se me trair em qualquer lugar, eu descubro e te ferro!”. Quanta coragem, quanta marra. Que babaca que eu fui. Pois bem, o que aconteceu é que ela me traiu. Realmente eu acabei sabendo. Não que tivesse informantes em todo lugar, na verdade, ela fez dentro do clube do bairro na frente de todos, aí meu camarada, não tinha como não saber. Tem sempre um espírito de porco que faz questão de te contar e ainda tenta te consolar dizendo que isso é besteira, que pra ser corno tem que antes ter mulher e que isso é o mais importante.
No afã de me vingar, tive a brilhante ideia de dar o troco fazendo a mesma coisa. Tudo tinha que ser bem pensado. Ela tinha que ficar sabendo e devia ser tão constrangedor quanto. Ora. E foi tudo como eu planejei. Mentira. Planejei nada. O acaso deu uma forcinha e na noite de Ano Novo, depois de um porre onde bebi todas as bebidas possíveis em escala industrial acabei transando com uma vizinha de prédio dela horrorosa na entrada do estacionamento e ainda fui flagrado por ela, o pai e mais alguns parentes.
Claro que na manhã seguinte eu não lembrava. Ela, com razão, pediu para terminar o namoro e eu, naquele momento, me senti um homem pela primeira vez. Não por ter tomado um fora, na minha altivez de garoto nem pensei nisso na hora, mas com o passar das horas eu experimentei as três ressacas que fazem de nós o que somos, todas de uma vez. Estava ressacado da cachaça, estava ressacado por ser motivo de escárnio dos amigos (alguns que ainda lembram a história volta e meia me chamam, ainda hoje, de Candidato a São Jorge) e passei pela RCP ou Ressaca de Coração Partido.
Está certo. Confesso que a ressaca etílica e a moral foram mais fortes. Naquela época ainda não tinha amado de forma tão intensa a ponto de ficar dilacerado, pelo contrário, eu não dava muita importância para o namoro, ainda tinha aquela arrogância que só os garotos de dezessete anos têm com relação às mulheres, acham que são irresistíveis e que terão tempo para conquistar todas as gostosas do mundo.
Pois bem, a verdade é que não tive muito tempo para amargar essa RCP (vamos chamar assim). Poucos dias depois que terminamos, ela me procurou pedindo para voltar. Claro que a mãe não ficou muito feliz com a notícia, o pai foi mais político ou mais cínico, não sei, só que dessa vez eu fui dono da situação: nada de compromisso, só sairíamos e poderíamos ficar com outras pessoas. Eu fiquei. Ela não. Passou mais alguns meses e terminamos novamente. Dessa vez não houve ressaca, dor, nada. Estava vazio. Curtindo. E passei ileso pela minha primeira Ressaca de Coração Partido. Mas minha hora estava por vir.
Véio, não sei se meu desabafo está te enchendo o saco. Deve ser horrível parar para beber um negócio depois do trabalho e ficar um chato afogando às mágoas, chorando pitangas ao invés de paquerar as mulheres da rua ou falar de futebol. Posso continuar? Sem problemas? Então vamos lá...
Dois anos se passaram até que eu conseguisse me relacionar seriamente com alguém. Não. Nenhum trauma com a primeira. É que eu queria curtir. Veja só: tinha vinte anos, solteiro, trabalhava, não precisava ajudar em casa e liberdade pra fazer o que eu quisesse. Você ia querer se amarrar com alguém numa fase dessa? Todo mundo quer mais é curtir e só parar a festa lá pelos trinta. Então foi o que eu fiz: me amarrei de novo.
É verdade, eu sou uma besta. Ao invés de curtir a vida arrumei outra namorada e essa, meu irmão, foi meu céu e meu inferno. Porque todo homem que ama de verdade conhece o céu e o inferno e vai de um para o outro na velocidade de uma montanha russa turbinada. E esse foi meu primeiro grande amor. E com ela tive minha segunda RCP, só que dessa vez, de verdade.
Éramos jovens, estudávamos juntos, eu, um punk bagunceiro que ia pro cursinho pra sacanear os colegas e passar o tempo, porque a última coisa que eu fazia era estudar. Ela, uma bela menina de olhos esverdeados com carinha de anjo e humor de demônio. Adorava ficar no meio da bagunça, mas não fazia nada, só ria e incentivava as merdas da galera Nos conhecemos lá. Tudo foi muito rápido. Nos vimos, ficamos amigos e começamos a namorar no espaço de um mês. Um mísero mês foi suficiente para mudar toda a minha vida.
Nos víamos todos os dias. Os beijos eram intensos, as carícias alucinantes. Dois adolescentes iniciando a vida adulta e com os hormônios fervilhando. O namoro engrenou e, resumo da ópera, nos casamos. Éramos o casal modelo dos nossos amigos. Nos amávamos, o sexo era maravilhoso, recebíamos em casa, íamos aos lugares, crescemos e curtimos juntos. Éramos inseparáveis. Porém, não mais que porém, um dia veio a conta da farra e a realidade caiu sobre nós como um deslizamento de favela em dia de chuva. Foi devastador.
A vida ficou difícil, as contas aumentavam a dureza impedia os nossos antigos luxos. Ficamos ambos desempregados, passamos por dificuldades e... Eu me prostrei. Fraquejei e com isso perdi meu primeiro grande amor. Ela foi cruel em dizer que não me queria mais. Que queria liberdade quando podia sair para onde quisesse e fazer o que quisesse. Foi cruel em dizer que eu era maravilhoso, mas que não queria continuar comigo. Quando todos os argumentos acabaram, eu fui embora. Saí de casa e voltei para a casa dos meu pais. Estava dilacerado. Não tinha forças. Não sabia o que fazer nem para onde ir. Só sentia a dor do fim. Fui ao fundo do poço, ou pelo menos achava que ali onde estava era o fundo do poço. Chorei feito uma criança.
Passei um mês feito um zumbi, fazia tudo automaticamente. Não pensava. Apenas sobrevivi. No meu peito havia um buraco que não se preenchia. Havia uma ferida que não fechava de tão grande que era. Eu tentava entender o que havia acontecido, mas só tinha como eco a resposta de que não havia motivo. Foi até aquele momento o pior mês da minha vida. Nada tinha sabor. O meu dia era cinza mesmo quando havia sol. Tocava com minha banda, trabalhava, mas nada me dava prazer. Eu só tentava descobrir porque estava passando por tudo aquilo, o que Deus pretendia com todo esse sofrimento. Eu me sentia derrotado, fragilizado e principalmente, me sentia fracassado. Eu não tivera a capacidade de sustentar meu casamento. Me sentia um bosta. E essa Ressaca foi avassaladora.
Confesso que passou rápido. Rápido pros padrões das RCPs. No final de um mês, estava conformado com a minha condição de solteiro e resolvi aproveitar meus trinta anos nessa condição. Fiquei com uma colega do trabalho, nada sério, só curtição e fui passar o carnaval na casa de uns parentes de um grande amigo meu que me dera uma força durante esse tempo. Lá, fiquei com a prima dele e ensaiamos um namoro à distância já que ela morava em outra cidade, mas próxima.
Voltei pra casa. Tudo ia bem. Até que dias depois da minha volta, minha ex-mulher me pediu pra voltar. Eu não acreditava. Como assim voltar? Bastou eu arranjar alguém e aceitar o fim que ela se sentiu ameaçada e me procurou? E como fica meu amor-próprio? Pro cacete com ele. Voltei pra ela e fomos felizes, mas só por mais um ano e meio.
Veio o fim definitivo. Muitas brigas, ofensas e acabou o amor. Dos dois. Nos separamos sem brigas. Na verdade elas vieram depois, porém naquele momento foi tudo amigável, dentro do possível. Não houve Ressaca. Já tinha passado por ela um ano e meio antes, e mesmo tendo sido apenas um mês foi intenso o suficiente para esgotá-la. Além disso, com o desgaste eu havia me envolvido com outra mulher, uma linda dama de olhos verde- mar.
Passei bem pelo fim do meu casamento e já tinha comido o pão que o diabo amassou com a RCP do ano anterior e ao invés de tomar juízo e me proteger, novamente me entreguei a esse sentimento louco tão cantado nas poesias, porém nunca entendido até que você chora por ele e tudo passa a ter nexo.
Como tudo que acontece de bom ou ruim na vida, veio de repente. Estava quieto no meu canto e vi aqueles lindos olhos verde-mar, aquela aparência de mansidão de beira de praia, calma e fresca. Era linda, doce, encantadora. Como um mar traiçoeiro foi me levando, me deixei mergulhar e quando vi estava perdidamente enlouquecido de amores por essa mulher. E como você sabe, o oceano e a mulher são duas coisas que não se pode esperar constância. Ela era meu porto, meu remanso e meu tsunami emocional.
Cheguei, meu camarada, ao limiar da minha sanidade. Cheguei às portas do inferno, só que pelo lado de dentro. Nossa história era como pegar um maremoto numa canoa, ou seja, segurança zero. Brigávamos constantemente devido à inconstância dela. Ela vinha de uma história difícil, eu tinha acabado de sair do meu casamento e precisava organizar minha vida. Quando chegamos a um momento em nossa existência que deveríamos apenas curtir e exorcizar nossos fantasmas começamos a criar outros monstros.
Tudo bem, eu sei que eu vacilei feio. Levei a vida como se tivesse num cruzeiro de férias, tinha levado uma porrada da vida, é verdade, mas realmente não justificavam minhas lamentações e justificativas, porém ela foi pérfida. Me jogou no meio de um mar bravio sem mastro pra me segurar, me deixou à deriva sem saber pra onde ir ou o que fazer. Eu a amava como nunca tinha amado antes. E bateu o desespero quando a perdi.
Cara, não recomendo a ninguém o que eu senti. Sabe o que é estar asfixiado ao ar livre. Sabe o que é sentir um desespero tão grande, uma dor tão pungente que é como se seu peito estivesse rasgado, como se alguém estivesse com a mão espremendo seu coração? Era uma dor física a que eu sentia. A ideia da falta dela na minha vida me prostrava. Eu me sentia como tivesse lutado dez rounds com um pugilista peso pesados. Bateu medo, angústia, eu não tinha fome, não tinha sono, sede, vontade de nada, tentava me convencer de que era melhor assim, que conseguiria viver sem ela, que com o tempo me acostumaria, mas na real, estava me iludindo, minha vida tinha perdido o sentido. Essa foi a pior de todas as Ressacas que tive. É ela que estou passando agora.
Engraçado que conforme fui aprendendo a amar e me envolvendo cada vez mais, ao invés de aprender a me proteger e não me entregar tanto, eu faço justamente o contrário. Parece que me viciei em amar, em me entregar pra alguém. É estranho. Simplesmente não consigo entrar num romance sem ser de cabeça. Eu pulo do penhasco na água sem me proteger, e no final sempre me arrebento nas pedras. Eu sei que isso é quase tentativa de suicídio, porém, a vida fica sem sabor, sem brilho, não tem cor, tá me entendendo? sem amar, é como se não tivesse sentido viver. Por mais que eu acabe comigo me entregando a essas mulheres e sofra, sem isso eu também não consigo ver razão para respirar.
Parece loucura, mas eu amo amar. Claro que a RCP é foda e acaba comigo por um bom tempo. Agora mesmo estou na merda. No fundo do poço rezando pra que algo mude e eu consiga reverter a situação. Eu quero novamente mergulhar naqueles olhos verde-mar. Quero experimentar aquele mar revolto que é o coração daquela mulher. Pode rir. Quando você amar de verdade e passar por essa Ressaca vai entender. Não tem cachaça ou bagulho que te dê uma viagem tão intensa. É subir aos píncaros e descer para sarjeta. É vertiginoso. E maravilhoso. Pois bem, vou nessa, valeu por me escutar. Ela está me ligando, acho que vamos nos entender. Até mais. Um abraço.
Kajotha Negreiros
Enviado por Kajotha Negreiros em 19/11/2010
Código do texto: T2624265

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Kajotha Negreiros
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