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Aos Olhos das Tartarugas



“A flecha, solta no ar, exclama cheia de alegria: ‘Por Allah! Sou livre! Sou livre!’
Engana-se! Já tem o seu destino traçado pela pontaria do atirador”

      Tagore,  poeta hindu


Agora tudo lembrava silêncio. A cama metodicamente arrumada pela última vez, vazia de vida, os pratos limpos, alguns lascados pelos anos de uso, retratando o seu dever cumprido, a toalha de banho exposta ao sol, saudosa do calor aconchegante dos corpos que não mais tornaria a enxugar. Agora tudo cheirava a passado. As orquídeas que desabrochavam virgens no jardim, distribuindo seu perfume a todos igualitariamente, lembravam passeios matinais dos domingos depois da missa, inesquecível aroma das moças após o banho, frescas e leves como a verdura da adolescência que carregavam nos olhos matizados de esperança. Tanta estrada palmilhada, tanta história acumulada na bagagem que as costas foram se arqueando. Lembrar que jogava fubeca com a meninada depois da chuva, que caçava jabuticabas no quintal de seu Ignácio Pereira (morreu de agonia o pobre) serve apenas para pôr mais lenha no braseiro das saudades. Destino?… Não me fale em destino. O demo atira flechas no escuro.
O velho Afonso observou a sacola pequena arrumada num canto, derradeiro patrimônio acumulado ao longo da vida e riu-se de suas virtudes franciscanas. Tinha nome de rei e todo seu império resumia-se num pijama novo dado pelo filho, num caderno de poesias e numa Bíblia encadernada em marroquim. Nem precisava de outros tesouros.  Daqui a pouco o filho adorado entraria por aquela porta pela última vez, pediria humildemente a “bença”, tomaria o velho pai pela mão enrugada, encapelada de veias grossas e o levaria para casa. Para uma casa de repouso, onde seu Afonso terminaria melancolicamente seus dias.
Deixemo-lo gozar os últimos instantes de vida entre seus tão queridos pertences. Sentado numa cadeira de couro curtido, seu Afonso indagava a si próprio o porquê das coisas acontecerem da forma como acontecem e não como gostaríamos que elas fossem. E pensava na existência do homem, este ser tão pequenininho perante as grandezas avassaladoras do cosmos, que os deuses achavam-se no direito de pisoteá-los feito formigas. Quis chorar, mas lembrou-se de que já fazia mais de uma semana que a mulher fora enterrada e sentiu vergonha das próprias lágrimas. Agora seria como nos contos de fadas, um velhinho bondoso, cansado da vida, ao qual restava apenas aguardar os anjos virem lhe buscar numa noite de natal. Tivesse pernas boas e fortes como noutros tempos, sairia mundo afora feito estes quixotes sonhadores que de quando em quando surgem no mundo e pregaria à boca graúda para quem ouvidos tivesse sobre a necessidade de se viver o momento, o carpe diem das poesias de Horácio. Que nunca vivera o que poderia ter vivido, que sempre norteara sua existência pelos padrões mais adequados aos olhos dos outros, que nunca tomara gelado, nem caminhara na chuva, nem falara palavrões, tudo isso somente vinha testemunhar que perdera muito da vida. E, recordava-se daquela frase que ouvira mocinho e que só agora penetrava-lhe o sentido: “Viver oitenta anos não significa durar oitenta anos. Feliz aquele que vive a sua vida e não apenas passa por ela”.
Mas a porta da cozinha bateu, lembrando seu Afonso que ele possuía tartarugas e precisava alimentá-las. Levantou-se com alguma dificuldade, apoiou-se na cômoda e caminhou até a área de serviço. Lá estavam elas, fiéis como filhos, três tartarugas de cascos engrossados pelo tempo, amarradas à paciência que o destino lhes dera. Era um singelo presente que ele tinha comprado à esposa em suas bodas de um ano de casados, tantos anos que nem fazia mais conta. Agora a esposa partira, mas as tartarugas continuavam ali, sonhando com a mão da dona que as alimentava. Seu Afonso estranhava o fato dos dias passarem mais vagarosamente para as tartarugas. No fundo, o tempo corria desigual para os homens e os bichos. A vida de um homem seria uma eternidade para as borboletas. Nem Santo Agostinho ousara lançar dúvidas sobre estes mistérios. As tartarugas é que não se incomodavam e iam vencendo os séculos indiferentes às filosofias dos homens. Quem dera corda nos relógios desse jeito, senão o demo?
Seu Afonso descascou uma banana já bem madura, sobre a qual voavam pequeninas moscas impertinentes e a deu para as tartarugas comerem. Para onde elas iriam, as tartarugas, as moscas? Não importava. Também não sabemos para onde vamos, nem por isso os séculos deixam de cavalgar sua irrefragável imperturbalidade. A campainha soou aguda na sala. O filho chegara trazendo sua sentença inapelável. Seu Afonso deu um breve adeus para as tartarugas, que responderam com os olhos inchados de lágrimas. Depois apagou a luz, saiu do apartamento e fechou a porta pela última vez, trancando sua vida lá dentro.

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José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 12/10/2006
Código do texto: T262618
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
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