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Purificação de AG

E não é que capotou? Foi um negócio hollyoodiano, como aqueles seriados dos anos 80, cheios de estardalhaços e explosões. Mas a vida real é mais rápida, mais áspera, mais mortal. A Verdade é sempre mais cruel. Pena que não dá pra ver em outros ângulos, nem em câmera lenta.

E não é que é o Arnoud Gardner? O mesmo filhinho-da-puta que me demitiu da escola em que eu lecionava?

Não que ele fosse o diretor ou coisa e tal, Não que ele fosse deputado ou presidente da república; o cara era só um aluno filho do dono da siderúrgica, a única fonte de emprego dessa cidade de merda. A única não, temos a de professor, dono de bar e esposa espancada. E prostituta.

Saí da faculdade louco para dar aulas e mudar o meu país. Quando lembro disso não sei se rio ou se me chicoteio. Enfim, sou logo contratado para lecionar na escola que ninguém lecionava. Na Do Céu não parava professores. Na Do Céu ou se saia louco ou num caixão. Na Do Céu ninguém lecionava. Mas eu queria mudar o meu país e cai de cara na 8ª F e de cara tive vontade de esquartejar o herdeiro da siderúrgica. O olhar do alto, a sala a seus pés, a arrogância ante as regras, as normas, os dogmas, os questionamentos, os constrangimentos, os, os. 1, 82 m de ocidente, de império, de sistema.

E eu era a utopia. U t o p i a d a.

Uma vez, depois de ter feito todos os testes comigo e escancarado a minha mediocridade e insegurança, veio ele falar da minha ex-mulher e do dossiê da minha vida, extraindo o ex-condido do ex-traído. Porque um homem pode ser traído pelos ideais mais loucos e inconcebíveis, perceber a mentira da liberdade de realização de trabalho, mas ser chamado de corno no meio de quarenta-e-sete adolescentes é amoral. Seguiu-se que meu ego foi massacrado pelo meu self- o Neardenthal que engolimos depois que inventamos os motéis e deixamos de transar no mato-, e eu pintei a parede da sala com a cara de AG. Várias demãos.

No outro dia estava eu na delegacia preso e condenado por estupro, e só não morri por que o deformado queria que eu virasse mulherzinha de todos os meus novos colegas. AG-pai comprou desde o porteiro do fórum, passando pela promotoria, os jurados, o juiz e quem recebeu menos grana foi o pobre do advogado de defesa. Foi um momento de prosperidade nessa cidade. Mas eu tinha um lápis.

Não pense que redigi cartas ao presidente ou pra ONU, não, saí de lá agarrado com o diretor e um lápis apontado pra sua goela. Eu ia salvar o país, gente!

O boneco caiu da ponte e o desgraçado nem se deu o trabalho de desviar; foi logo passando por cima e capotando. Oito vezes. Contei todas.

AG está debaixo dum Audi-maracujá botando as tripas pra fora. Eu assobio.

_ Olá, mundo pequeno ein?

AG não consegue falar. Esmagado que foi da cintura para baixo, se sai, morre porque o sangue podre vai se espalhar por todo o corpo. Se fica, também morre. Tenho que ser rápido.

_ ...Arlete! Bárbara! Carlos! Ora, parece que faltaram todos? Mas em você eu botei presença. Trouxe-lhe uma coisa.

O sistema olha para mim com os olhos arregalados. Tiro um papel do bolso e gentilmente enfio na boca de AG. O sangue agora vai ter que achar outro lugar pra sair.

_ Pronto.

Saio assobiando, enquanto AG engole meu diploma de pedagogo.
Serennus
Enviado por Serennus em 13/10/2006
Reeditado em 13/10/2006
Código do texto: T263160
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Sobre o autor
Serennus
Parnamirim - Rio Grande do Norte - Brasil, 37 anos
5 textos (92 leituras)
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