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De O Caminho da Esperança

              Fragmento de “O Caminho da Esperança”


    A manhã despontara risonha. Só uma ligeira e volátil bruma, que invariavelmente plana sobre as grandes metrópoles, causada pela funesta poluição que os tempos modernos se encarregaram de tornar constante, teima em esbater os doirados raios de um sol madrugador de Abril.
    Manuel das Neves, como habitualmente durante a semana, tinha-se levantado cedo. Ainda os tons violáceos da aurora pintalgavam os céus e já ele, desperto pelo desagradável zunir do despertador electrónico, havia saltado do leito. Tocava sempre umas quatro vezes até que ele se predispusesse a levantar-se. Ficava assim, sornando entre o sono e o acordar, cerca de um quarto de hora. Por fim lá pulava da cama, ainda meio atordoado e aos tropeções, olhos semi-cerrados, e começava os seus afazeres matinais, sempre prolongados.
    O pequeno-almoço era café com leite. Daquele café instantâneo que na quantidade igual de duas colheres de sobremesa e mais meia de açúcar, ele juntava numa grande chávena, sobre a qual adicionava uma porção de leite, previamente fervido. Para amornar, completava até cima com leite frio. Duas torradas secas serviam-lhe de conduto. Após ingerido o repasto matinal, e ainda à mesa, saboreava um cigarro, findo o qual, não deixava impreterivelmente de lavar a parca loiça da manhã.
    Seguia-se a sanita, outro cigarro enquanto se aliviava, e por fim a toilette diária. Demorava nestas andanças cerca de hora e meia. Assim eram, quotidianamente, as primeiras ocupações de Manuel das Neves.
    Depois a ida para o emprego. Um cargo administrativo, bem remunerado, numa empresa próxima da sua residência. Não tinha horário definido, nem de entrada nem de saída. Um bom trabalho, segundo ele, embora não seja nossa pretensão embrenharmo-nos pelos afazeres profissionais do nosso herói.
    Manuel das Neves era um trintão moderado. Figura aceitável, a dar para o magrote, cabelos castanhos, assim como os olhos. De estatura normal para um peninsular, via, dos seus um metro e setenta e três centímetros, o mundo com naturalidade e fantasia. Naturalidade, pelo facto de estar vivo e de gozar de uma saúde pouco problemática até então, e fantasia porque o seu mundo era pleno de ideais e aventuras a roçar o rocambolesco. Não seria pois de estranhar que esta nossa personagem cultivasse alguns idealismos, dos quais não abdicava e era fiel adepto. De olhar meigo possuía uma sensibilidade e ingenuidade naturais, provindas possivelmente das suas raízes do interior norte do País.
    A sua infância fora passada numa aldeia embutida no meio dos montes. Uma terriola pequena, isolada, colorida pela beleza selvagem característica dos povoados beirões, afundando os pés descalços nas leiras de milho e dos feijoeiros, ao correr do pequeno riacho que serpenteava entrincheirado por montes, grandes pedregulhos e pequenos vales onde o verde das colheitas contrastava com o cinzento azeitonado das rochas.
    Por entre traquinices, palmadas no rabo e choros, passou os verdes anos da sua meninice. Misturando-se no meio dos lameiros e dos fios de água, que corriam ladeando as poldras a servirem de ponte a ligarem entre si as duas encostas, onde a família cultivava uns centos de pés de vinha, duas ou três cerejeiras, outros tantos pessegueiros e umas dúzias de oliveiras já centenárias.
    Arrancado desta paisagem para ser despachado para a capital, aí arribou ainda não havia completado os cinco anos.


Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 14/10/2006
Código do texto: T264234

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