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Vila Letícia

                             

         Os sinos da capela repicavam. A música que produziam espalhava-se pelo vale. O sol ia-se pondo atrás da colina. O verde da natureza levemente agitado pela brisa suave e fresca, complementava um tom de paraíso. A cascata escondida pela folhagem de frondosas árvores nativas, não longe dali, fazia com seu rumor de águas batendo nas pedras, um contra canto à música dos sinos. Um filete de água recém despencado da cascata corria em um leito que cruzava a relva logo ali, onde a pracinha terminava. Transpondo os ares, um que outro pássaro coloria, como um ponto de contraste móvel, o verde debruado de amarelo ouro, pelo astro rei. Além deste contorno, delineava-se no horizonte colina acima, o espectro da pacata localidade, quase nem chegando a ser uma vila. Via-se da praça no etéreo muito azul, sem uma nuvem sequer, o fim de uma bela tarde de primavera. Havia flores por toda parte. Além das cultivadas no logradouro, em frente à capela, tantas outras marcavam  presença de modo espontâneo. Era realmente um lugar agreste e encantador. Ali, a vida parecia ter saído de um conto de fadas. Não havia ricos nem senhores de terras extensas.
         Vila Letícia não tinha registros, pois não tinha cartório. O lugar era tão ermo e perdido nos confins deste mundão de Deus, que ninguém reclamava posse, nem sentia-se invadido em sua privacidade, pois o que fazia de seu, não lhe dava idéia de domínio. Pessoas sem rumo e sem teto ali foram chegando e fazendo parada para viver. Tão poucos habitantes havia que logo se notava um forasteiro.
         Padre Zéca, já um pouco quebrado pelo peso dos anos, era praticamente o tudo ali. Não é sabido como e porque ali chegara, sabe-se lá quando. Mas, o caso é que todos o respeitavam. Os dados únicos que se podia contar como história do local não passava de um livro, ou seja, um caderno grosso de capa dura, já muito amarelecido, onde Padre Zeca fazia anotações. Como ministro de Deus, realizava casamentos, que eram raríssimos, batizava as crianças ao nascerem e isto de cada um estava lá, no livro da capela, como o povo chamava. Na realidade, Padre Zeca é que tinha organizado aquela comunidade, a qual dera o nome Letícia, que em latim quer dizer alegria.
Naquela hora da tarde, dezoito horas, sempre havia uma missa. Poucas pessoas a ela compareciam. Mas o padre não levava em conta a baixa freqüência. Para ele, o importante era manter a fé. Os que iam à capela levariam para seus modestos lares a bênção de Deus. Assim pensava Padre Zeca. E aos domingos, quando a pequena e singela capela de madeira ficava lotada, então os olhos do ministro de Deus faiscavam de júbilo. E a missa ganhava um ritual como se ele estivesse lá, ... bem longe dali, oficiando numa grande catedral.
         Evangelino estava sempre na missa dominical, e na primeira fila dos poucos bancos da capela. Com sua cabeleira branca, ainda farta, barba no mesmo tom, cuidadosamente aparada, tal como o bigode, bem apessoado irradiava simpatia. Além do mais, a costumeira camisa azul, bombacha preta e bota simples de couro cru, mesmo indefinida de cor, tão sovada estava, fazia um requinte dentro de sua humildade. Faceiro mas de olhar tristonho, era uma presença inconfundível, com o seu fervor católico. Padre Zeca que conhecia aquela comunidade inteirinha, tinha um carinho especial por Evangelino. Fora ele com quem o religioso contara para erguer a capela taboa  a  taboa, prego a prego. Eram jovens naquele tempo.
         Não era domingo e mesmo assim, Evangelino estava lá na pracinha frente à capela. Olhos fixos no horizonte pareciam buscar uma imagem distante.O caminho batido por rodas de carretas não se constituía na verdade em uma estrada, porém assim era visto e entendido por todos dali. Pela margem do riacho, a trilha fazia a mesma curva acompanhando-o. Não muito longe, o bosque escondia em seu interior o riacho e a trilha. Evangelino tamborilava na copa do chapéu surrado, deixando-a com duas covinhas, o que fazia e desfazia sem parar. De repente, ergueu-se. Uma charrete havia saído do bosque. Um belo cavalo branco puxava-a em trote elegante, como assim faziam os que eram treinados para os carros das rainhas. Nela havia uma jovem de branco. Encabeçava um cortejo no qual era seguida por duas ou três carroças e alguns cavaleiros acenando com seus chapéus, entoando alegres cânticos. Arrumando sua humilde apresentação, puxando aqui e ali sua bombacha, aprumou o chapéus na cabeça, refez o laço do barbicacho, posicionou o lenço no pescoço e foi caminhando em direção a capela. Parou em frente dela. Voltado para o bosque distante via a poeira levantada pelo cortejo. Cada vez mais perto estava a charrete que mais lhe parecia uma carruagem real.
         Cada vez ... mais perto! Cada vez ... mais perto! Evangelino agora sentia-se um príncipe. Um coroinha abria as portas da capela. Flores com coloridos diversos enfeitavam a entrada. De onde estava, via os brancos laços de fita que enfeitavam a entrada. De onde estava, via os brancos laços de fita que enfeitavam os bancos e lá no fundo, junto ao altar, Padre Zéca, paramentado aguardava num pio posicionamento, que lhe era peculiar quando estava para administrar um sacramento.
         Cada vez ... mais perto! ... E mais perto! ... Evangelino já podia ver a princesa na carruagem à frente do cortejo num sorriso a mostrar a alvura dos encantos angelicais, contrastando com a moldura carmim. Logo-logo, lampejos de um olhar de um verde mais lindo do que a natureza em volta, chispando felicidades, braços abertos indicando o enlace do destino, ali estava da charrete descendo, aquela, a sua amada, que em seguida seria sua mulher.
Os cavaleiros continuavam a acenar seus chapéus, agora andavam em círculos como nas evoluções que faziam nas festas campesinas. Os acompanhantes em mais de duas dezenas, numerosíssimos no caso de Vila Letícia, desceram das carretas em cantorias. Em vivas, aleluias, o cortejo foi adentrando à capela, onde, à porta já estavam outros cavaleiros cruzando os galhos floridos de rosas, numa solenidade como o cruzar espadas nas cerimônias de oficiais da cavalaria.
Dobravam os sinos! Cantavam os pássaros! Roncava a cachoeira! Estalava nas pedras as águas do riacho a rolar! Culminando tal sinfonia com o entoar dos cânticos da celebração, dentro da capela. Era o momento em que festivamente cumprir-se-ia o sacramento do matrimônio.
Evangelino e sua noiva, polvilhados pela alegria que só o amor faz o ser humano ter, passo a passo e de braços dados encaminhavam-se pelo centro da capela de pouco mais de uma dezena de metros, sorridentes e felizes em direção ao altar. Lá chegando, Padre Zéca cumpriu seu ofício.
Os recém casados ao saírem da capela foram surpreendidos com uma chuva de folhas e pétalas de flores. No meio da roda feita pelo alegre coro de acompanhantes, dançaram uma valsa marcada na gaitinha de oito baixos. Daí por diante formou-se o fandango ali mesmo, ao ar livre, na pracinha em frente a igreja.  Pois nas carretas, já se trazia toda a infraestrutura  para festa.
Não era domingo. Eram seis horas da tarde. Tarde de primavera. Evangelino estava ali na pracinha em frente a capela.  Tamborilava com os dedos fazendo covinhas na copa do chapéu. Olhar perdido na direção do bosque. Fazia naquele momento, naquela hora,  exatamente quarenta e dois anos que voltava ao mesmo lugar. Sentado num tronco, que fora outrora uma frondosa árvore, agora, já muito prejudicado pelo tempo, Evangelino remoia sempre a mesma lembrança, sempre a mesma saudade. A vida que lhe fora sempre tão dura, tinha lhe reservado aquele naco de felicidade. Porém, durara tão pouco! ... Um naco tão pequeno que a fatalidade logo tomou!
Agora, o sol já se pôs. A missa acabou. Padre Zéca está fechando a capela, dando antes num aceno de mão, uma despedida, que trazia também uma bênção para Evangelino.
Da porta do pequeno santuário, o padre contemplava Evangelino. Também, lembrava no momento, Padre Zéca, seu ofício no casamento daquele desafortunado ser, pacato e religioso, que o tempo levara consigo há quarenta e dois anos. “Senhor Deus, tenha compaixão, fazei com que outra criatura tome aquele amor tão puro que está ali, perdendo-se neste mundo”. E com os olhos liberando tantas lágrimas que dariam para Evangelino benzer-se, fazendo o sinal da cruz ... cerrou a porta da capela.
 



Marcos Costa Filho
Enviado por Marcos Costa Filho em 15/10/2006
Código do texto: T264912
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Sobre o autor
Marcos Costa Filho
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil, 79 anos
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Marcos Costa Filho