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NOEL O PESCADOR



         Quando criança, Manoel já vivia à beira mar. Os primeiros sons registrados em sua percepção, foram o do marulho, e o do nordestão. Nascera na orla do mar, numa comunidade pobre. Pesca, foi uma entre as primeiras palavras que balbuciou. Menino esperto, sempre muito ativo, corria ao encontro do arrastão sendo puxado do mar sem fim. Segurava na ponta da corda e puxava com uma força, que no seu entender, era de uma grande ajuda para aquele grupo de pescadores, envolvidos naquela dura luta. E assim cresceu apreendendo da pesca, toda a lide. Não conhecia o mundo além das areias brancas entorno de seu vilarejo. Teve somente a escola da vida. Tornou-se líder de sua comunidade. Era respeitado pela lisura de sua conduta. Fisicamente robusto, estava sempre disposto ao trabalho. Dócil, compreensivo, cativava as pessoas com suas atitudes, fala mansa e firmeza de caráter. Interessava-se por tudo que envolvesse sua comunidade e sempre se apresentava como voluntário para ajudar a resolver problemas. Tinha sempre para  os aflitos, uma palavra amena, que, se não era polida, dado o berço rústico de sua origem, era confortante pelo amor que ele dirigia ao  próximo. Comandava uma parelha e todos reconheciam sua competência. Bravo, levava coragem aos companheiros de barco. Muitas vezes, comandava firme para evitar o desânimo da tripulação, devido o mar bravio e assim, não perder um cardume.
         Sua mulher lhe deu seis filhos. Foram crianças quase todos ao mesmo tempo. Manoel adorava trazer-lhes presentes. Eram coisas achadas na praia. Ou eram conchas coloridas, de moluscos. Ou algum peixinho mais bonito, ou diferente. Ou um brinquedo simples, adquirido após vender o produto da pesca. E ficava Manoel a brincar com seus filhinhos, antes de ir ao descanso merecido, após uma jornada no balanço das ondas do mar.
       Cresceram tão rápido seus rebentos, que Manoel continuou a brincar com os de seus vizinhos, já acostumados a esperar por ele, na volta da pesca.  Sua bondade atraia tantas quantas crianças houvesse nas proximidades, que carinhosamente passaram a lhe chamar de Noel. Fazia graça, a toda uma infância que circulava a sua volta, contando histórias, consertando brinquedos, falando sobre as conchinhas coloridas, dos mariscos, dos peixes e tudo mais que sabia. Assim, a medida que ia envelhecendo, Noel era mais solicitado pela petizada.
         Firmeza, mesmo com o balanço da canoa, a mão ainda forte na lide, a voz ainda com energia de comando, era tudo o que os pescadores mais precisavam de Noel. E lá ia ele firme. Os lances eram feitos seguindo sua competência em visualizar cardumes e o comando no momento exato. Não havia erro. Rede pesada. Muito peixe.
         Sempre, depois de uma pescaria bem sucedida, Noel escolhia os melhores exemplares do pescado, colocava em uma tarrafa, tecida por ele mesmo em fios vermelhos, amarelos e verdes, pois adorava a bandeira do Estado gaúcho, acomodava em seu ombro e saia pelo povoado a distribuir pelas casas onde tivesse o maior número de crianças. Por vezes, fazia o mesmo, mas com qualquer coisa que servisse de brinquedo. O mundo infantil da comunidade passou a chamá-lo de "Vô da tarrafa colorida".
         Um dia, Vô Noel mandou que os pescadores guarnecessem rapidamente suas canoas porque havia cardumes bem próximo à costa. O mar estava revolto. O vento estava rondando para o norte. Os pescadores ficaram com medo de cair um nordestão. Na fala de Vô Noel, de que deveriam apanhar o cardume antes do nordestão chegar, não houve quem lhe contrariasse. E assim foi feito. O arrastão foi dificílimo. O nordestão apanhou a parelha ainda terminando de fechar o cerco ao cardume. As canoas balouçavam tanto, que a tripulação de uma, não enxergava a outra quando caiam em vagas, mesmo a pouca distância. Mas, foi uma jornada eficiente. Nunca se havia tirado do mar uma quantidade de peixe como aquela. Mas, ninguém sabe como, Vô Noel não voltou. Era dezembro, um mês em que ocorrer um vento norte, tão forte como aquele, podia-se dizer: seria um caso raríssimo.
         Toda a comunidade chorou. O fato era relatado a cada dia.
         Nos primeiros tempos, era uma desolação só. Parecia que aquele povo humilde havia perdido o pai de todos. As crianças, porém, chamavam Vô Noel em suas brincadeiras, em suas cantigas, todas ensinadas por ele a rodopiar nas brancas areias, ou nas brancas espumas da orla, quando ele se despedia delas, antes de lançar-se ao mar, no trabalho da pesca.
         Com o tempo, começaram a ocorrer boatos de que o Vô Noel era visto, às vezes, a carregar ao ombro sua tarrafa colorida, andando pelas ruas do povoado. Desta imaginação dos adultos, ou das visões das crianças, surgiu em alguém a idéia de relembrar Vô Noel. Então, desde há muito tempo, sempre em dezembro, um pescador da comunidade se veste à moda de Vô Noel, e tal qual ele fazia, enche uma tarrafa de malha vermelha, amarela e verde com brinquedos e sai a visitar as casas onde haja crianças. Noel é sempre recebido com canções de amor e paz. Vizinhos se juntam em grupos, com muita alegria e calor humano, festejando uma data significativa do mundo cristão, o Natal.

                                                               




   




Marcos Costa Filho
Enviado por Marcos Costa Filho em 15/10/2006
Código do texto: T264933
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Sobre o autor
Marcos Costa Filho
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil, 79 anos
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Marcos Costa Filho