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UMA POBRE CRIATURA, ABSOLUTAMENTE, SEM GRAÇA.

Zé, filho de Creuza, a que foi ao sul para estudar e antes mesmo de concluir qualquer coisa, de lá voltou para casa dos pais com àquele bebezinho cara de milagre (imagem que acentua certos aspectos, feita em gesso, madeira ou em qualquer outra matéria, tem por objetivo o pagamento de promessas, sendo deixada nas dependências da igreja; casa dos milagres, ou aos pés do santo de devoção) nos braços.

Era um bebê tranqüilo, quase ausente - seu choro quando muito se parecia com o miado de gato novo. Criatura que desde de tenra idade, era um bocado sem sal. Cresceu na companhia dos avós e dos tios que na época eram ainda crianças. Esses por sua vez, eram irmãos de sua mãe, os quais cresceram nutrindo por Zé, um bocado de ciúmes, visto que àquela personagem com seu jeitinho, todo próprio de ser, roubara desde pequenino o coração dos velhos. Sabendo-se que netos criados na companhia dos avós, mesmo os mais insípidos são bem astuciosos, correspondente a essa verdade Zé não fugiu à regra.

Os anos passaram e em quase nada se modificou a aparência daquele tipo que seguia insosso. O comportamento, também, pouco se alterou. Incomum, era visto como o tipo mais mocorongo da vila, entretanto, algo em si, chamava a atenção de algumas mulheres do lugarejo. Nas rodas de comadres e nos botecos muitos comentários iam surgindo a respeito do comportamento galanteador do mambira.

Alguns homens vendo em casa modificações no jeito de ser de suas mulheres começaram a sentir um certo incômodo com àquela presença no povoado. Tito e Zeca tios de Zé, se juntaram aos homens do lugar e começaram a incitá-los à cata ao garanhão.

Porém, astuto como em criança, o Zé dissimulava bem, e cada dia deixava-se ver como uma pobre criatura, absolutamente, sem graça. Isso matava de raiva e dúvidas os homens do local e das redondezas, num raio de mais de légua e meia, famoso maior não havia.


Más, como é sabido a sempre um dia da caça e outro do caçador...

Certo dia, Zeca e Tito riam-se gostosamente, enquanto Dona Miúda corria, a toda, na tentativa de socorrer o neto que gritava agoniado pela dor de ter um chumbo instalado na bunda. Descarnada que era acredita-se que a bala estava mesmo era grudada nalgum osso daquela região glútea. Na vila não havia médico e nem mesmo farmácia. D. Miúda já não sabia mais o que fazer, no entanto, de repente lembrou-se de Mestre Sirino, o curandeiro, sem poder atender ao chamado apenas recomendou-lhe panos quentes no local atingido. Zé com a aplicação das compressas conseguiu um certo alivio, entretanto foi se amolecendo com o passar dos dias. Cada vizinho que o visitava recomendava algo.

Aliviara-se da dor, mas, com o passar o seu estado piorava já se encontrava moribundo. Alimentava-se com dificuldades, e, a vó zelosa à sua cabeceira tudo fazia para lhe reanimar. Naquele instante insistia para o neto querido ingerir algumas gotas de leite. Num canto dos aposentos onde o quase morto se encontrava, Marieta e o marido Joca lamentavam a infeliz condição do primo. Marieta vendo o desvelo da tia olhou para o esposo que numa cumplicidade conjugal assentiu à mulher ali mesmo cedesse um pouco mais de leite para reanimar o primo.

Zé ao ver Marieta, mulher bem composta e com os fartos seios expostos, mais ainda naqueles dias por estar ela amamentando, sem se dar conta da presença do primo direciona um olhar um tanto quanto lânguido para prima e pergunta-lhe: Prima, mamando não será melhor...?

De um só salto Joca vai parar encima de Zé, suspendendo-o pelo gogó, lhe desfere umas boas bofetadas – "Então cabra-sem-vergonha acreditas mesmo que mamando será melhor? Filho de uma...”
- Joca, meu filho não leve em conta isso é só delírio de Netinho...
- Pois ele que vá delirar no inferno minha tia. Pois o diabo é quem gosta de chifres não eu. Somente pela a senhora eu não acabo com o resto do rabo deste safado.

As pancadas serviram ao Zé de excelentes medicinas e o susto fez com que ele levantasse de imediato do leito de morte onde parecia jazido.
E até onde se sabe, embora, puxando de uma das pernas Zé, por onde passa deixa no rastro sua historia de exímio caipira galanteador.
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 19/10/2006
Reeditado em 23/10/2006
Código do texto: T268334

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
476 textos (16066 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 14:32)
Cláudia Célia Lima do Nascimento