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EM SILÊNCIO ENVELHECEM AS FLORES

Então aconteceu.
Silenciosamente, amargamente, melancolicamente. Como um hóspede indesejado que chega sem aviso ou convite, ela chegou e foi tomando conta do seu rosto, do seu corpo, de sua vida. Rosa não tinha mais nem como desmentir o espelho, seu amigo mais íntimo e cruel. Amigos? Ah, sim, seus livros, seus poemas, cartas antigas, ainda perfumadas, enlaçadas por um fitilho cor de cereja e que ela lia e relia apaixonadamente, na esperança de encontrar um pouco de si própria naquelas linhas. Um dia ela teve amigos, mas agora estavam silenciosos dentro do retrato em cima da penteadeira. Ela mesma não se reconhecia naquela fotografia. Para onde teriam ido aqueles olhos risonhos, aquele sorriso sem sombras, que debalde Rosa procurava hoje em seu rosto? Tomou o retrato em suas mãos secas e suas pupilas molharam-se, aguadas. O luar compunha serenatas argentinas, o mesmo que agora era filtrado pela persiana verde da janela. Naquele tempo havia tantas promessas na lua, que a felicidade parecia fazer seu ninho ali à beira do caminho, esperando para levar Rosa em suas asas nacaradas. Mas as asas da felicidade são feitas de algodão-doce e basta um nada para passar do ponto e elas se desmancharem, estragadas.
Então aconteceu. Rosa passou a mão no rosto e percebeu que lágrimas lhe pingavam dos olhos, silenciosas como as flores que envelheciam no jardim. Por que pensar nisso? Nem motivo havia, mas se recordara da primeira vez que se lembrava de ter chorado. Era ainda uma menina quando lhe disseram que os russos tinham mandado uma cachorrinha para morrer no espaço. Nunca entendera tamanha maldade. Mas todos os seus cachorros pelo resto da vida sempre se chamaram Laika, singela homenagem àquela pobre cadelinha sacrificada em nome dos “grandes e nobres” progressos da humanidade. Depois, já mocinha, dera a escrever poemas apaixonados para príncipes de papel e sem coração. Uma vez fora feliz. Quando dançara quadrilha numa noite de São João com o moço mais bonito da festa e ele lhe dera um beijo com gosto de batata doce e amendoim. Tanto quentão Rosa tomara que adormecera no colo do rapaz e nem ficara sabendo como tinha acordado dia seguinte no refúgio de sua casa. E como colecionara sonhos em todos os tons do arco-íris, ela que mal poderia saber que o destino lhe reservava aquarelas sangüíneas, pinceladas em matizes pastéis de desesperança. Rosa chorava... Agora o pai tinha partido nas nuvens brancas de algodão e olhava e orava por ela no silêncio das montanhas, nos píncaros solitários onde o condor rabisca seus caminhos entre os anjos. Somente agora dera-se conta de que era a primeira vez que passava seu aniversário sozinha. Cinqüenta anos e sozinha! Meio século de espinhos, ela sempre Rosa na vida. O que tinha? Nada. Nem sonhos se permitia mais. Uma vida gorada, apodrecida, uma página vazia, virada ao acaso por deuses chacoteiros e sem piedade. Rosa martirizava-se por causa dos filhos e com os olhos inchados pedia perdão a eles, os filhos que não vieram nunca.
Então aconteceu. Rosa ligou a vitrola e o Roberto começou a cantar “Debaixo dos caracóis dos teus cabelos”. Mas estranhamente ela ainda escutava o silêncio, ainda sentia o silêncio tocar a sua pele em carícias sutis de amante audacioso. Quis fugir, mas sabia-se mulher e a força da natureza rugia indomável dentro dela. Numa derradeira tentativa, abriu a janela para entrar vida no apartamento, porém o silêncio escorria das árvores, dos muros, dos varais e parecia emanar da própria eternidade. Fechou a persiana e, entregue às suas paixões, começou a despir-se na semi-escuridão do seu quarto. O silêncio não se enjaula, pensou Rosa, mas o silêncio a enjaulava, dominava-a, seduzia-a. Deitou-se na cama entre os lençóis até aí brancos e o silêncio cresceu, másculo, dominador. O silêncio estava dentro dela, o silêncio era ela.
Então aconteceu. Misteriosamente, como um grito que irrompe dos sepulcros infernais, Rosa ouviu a campainha chamando-lhe à realidade e à porta e todo o silêncio que a abraçava fez-se em milhares de cacos estilhaçados. Rosa vestiu-se e foi ver. Era um entregador e trazia um gracioso ramalhete de flores nos braços. Rosas para Rosa. Ela que nunca recebera flores de homem algum, recebia agora aquelas, frescas, faceiras, femininas. Quem teria se lembrado dos seus cinqüenta anos, do seu aniversário? Rosa sabia, só não entendia por que se enganava daquele jeito. Ninguém haveria de vê-la recebendo as flores, ninguém saberia, somente o entregador, que já partira para entregar outras dores, rosas para outras Rosas. No entanto, bastava a ela o gesto, a alegria de recebê-las uma única vez na vida. Por isso fez. Ela passou a mão no rosto e percebeu que rosas pingavam-lhe dos olhos, belas e eternas como o silêncio que trazia no ventre. Levou as rosas às narinas e tragou o doce aroma de uma brevíssima felicidade, inebriando-se em quiméricas fantasias. Depois, ajeitou delicadamente o ramalhete num vaso, tirou o cartão do pequenino envelope e o jogou sobre a mesa, sem lê-lo. Reconhecera a letra, a sua letra, a letra com a qual escrevera o cartão quando comprara as flores para dar a si mesma.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 21/10/2006
Código do texto: T270021
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
46 textos (2946 leituras)
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