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ARTE DE PLANTAR TRIGO NO CÉU

        Estava acabado...
        Tudo infinitamente acabado...
        O velho Mentehotep encolheu-se no chão de pedra britada e, com as mãos cobrindo o rosto calcinado pelo sol ancestral dos desertos, deixou a cabeça cair frouxamente sobre os joelhos trêmulos, na vã esperança de que ninguém descobrisse a dor que lhe escaldava as carnes do peito e regava com lágrimas negras seu rosto endurecido de areia. Agora tinha certeza de que nada mais era possível fazer por aquele império que se estendia como o vento desde os povos de ébano da Núbia até as longínquas terras de Sumer, onde um dia reinou o braço poderoso do grande Sargão. As profecias... Quando viu a branca estrela com juba de leão caminhar sobre as águas eternas do Nilo e incendiar o betume da noite com chamas de alcatrão líquido e mergulhar no infinito por trás da pirâmide de Miquerinos, ele sabia, no íntimo de sua alma, que aquilo era sinal dos deuses, sinal ruim de fim dos tempos, e que toda a grandeza do império egípcio seria banida sumariamente da face da terra.
Por isso Mentehotep chorava. Agora o faraó estava doente e seus pés delicados de porcelana não mais tornariam a tocar aquele solo bravio arado pela faina braçal de seus antepassados gloriosos. O último rei que morrera menino, sete gerações atrás, lançara o país numa cruenta guerra civil e por mais de dez anos o rio Nilo arrastou-se empapado numa espuma de lama e sangue. O sábio Mentehotep fora incumbido pelo antigo faraó para educar o filho, futuro senhor do Egito, na arte de conduzir o destino do povo, distribuir a justiça com retidão, zelar pela paz e pelo bem comum. E como preceptor ele não frustrara as expectativas do velho amigo. Só uma lição jamais sentiu necessidade de explicar ao aluno, porque lhe parecia por demais distante. E era justamente essa lição que agora faltava... a arte de plantar trigo no céu.
Chorava. O velho Mentehotep chorava não apenas pela morte imensa e inevitável do faraó, tampouco pela morte dolorosa e pequenina do amigo a quem ele tinha como um filho, mas, sobretudo, chorava pela morte maiúscula e invisível daquele gigantesco império. O vento, debalde, soluçaria como uma lembrança distante o nome da civilização egípcia num doloroso estribilho pelo resto da eternidade. Com a morte do menino rei, terminava a realeza de uma das mais sublimes casas dinásticas do Egito e, como ele não possuía descendentes, o poder passaria inevitavelmente às mãos de um tio distante do faraó, homem sem nenhum escrúpulo, sanguinário e devasso, e sobre quem recairia, semanas mais tarde, a suspeita de ter envenenado o próprio sobrinho.
Mentehotep ouviu aproximarem-se de si passos tão tímidos e discretos que ele supôs tratarem-se de algum pequenino pássaro dos jardins do palácio e que viera despedir-se do amigo moribundo. Levantou os olhos inchados como tâmaras e, com o coração angustiado, pôde perceber que se tratava de sua filha, sua única filha. A filha cega.
- Meu pai, partiremos com ele?
Só então o velho Mentehotep compreendeu que o destino era mesmo um brinquedo de roda nas mãos de deuses perpetuamente acomodados nas cirandas da infância e, pela primeira vez, sentiu o latejar da finitude em suas efêmeras artérias humanas. Com a morte do faraó, todo o séqüito real e todos os bens que lhe pertencessem, seus tesouros, seus cavalos, suas escravas, seus conselheiros, tudo, enfim, seria enterrado com ele. Antiga tradição que procurava preservar na outra vida os privilégios reais adquiridos ao longo dos séculos.
Mentehotep contemplou a filha grávida de quase nove meses e sentiu vontade de pedir perdão para aquela criança que não teria oportunidade para nascer. Alguma coisa havia de estar errada na complexa relação entre os homens e os deuses. Se estes eram piedosos, por que exigiam tamanho sacrifício de seu rebanho? Por que inocentes estavam todos os dias sendo imolados inutilmente em altares sagrados do alto ao baixo Egito apenas para tentar saciar a fome eterna de deuses mesquinhos e vingativos e, quiçá, alcançar a graça de uma cura impossível? Um dia, haveria de chegar o século em que as crianças não seriam mais moeda de troca entre criador e criatura, nem os homens se mediriam mais pelo nome de sua estirpe, mas pelas qualidades e valores individuais. Contudo, esse século ainda se faria esperar por gerações e gerações de homens por toda a terra.
Com certa dificuldade, o velho Mentehotep levantou-se do chão e tomou a mão delicada de sua filha:
- Vem!
Em silêncio, caminharam até os aposentos reais, onde o menino faraó agonizava. Os guardas abriram passagem, recolhendo a lâmina dos sabres. Mas a vida do rei já não podia mais ser protegida pela força da espada:
- Meu senhor e meu deus!
O menino rei abriu os imensos olhos líquidos de laranjas e percebeu a presença tímida de seu mestre a admirá-lo por trás do cortinado de seda. Sabia que aquela seria a sua última aula nessa vida, a derradeira lição que o velho preceptor havia lhe preparado para aplainar os pedregulhos que a senda da morte prometia:
- Aproxima-te, meu bom mestre...
O sábio Mentehotep tomou-lhe uma das mãos do faraó, tão franzina e úmida, entre os calos que os anos foram tecendo em suas próprias mãos e a beijou respeitosamente como se fosse uma relíquia do templo de Hátor. Depois disse com a voz embargada de lágrimas:
- Sabes por que vim?
- Para consolar o que não é mais passível de consolação.
- Não, meu bom rei, vim para contar-lhe uma pequena história que resume o caráter e a grandeza de nosso povo, virtudes encarnadas na pessoa de nosso inestimável senhor dos dois Egitos. Há muito tempo, quando os deuses freqüentavam estes campos e viviam em harmonia com nossa gente, houve uma longa estiagem e o grande rio não teve forças suficientes para fecundar as terras como o faz todos os anos. O deus Anúbis, que plantara extensos trigais por todas as campinas do Egito, desgraçadamente teve sua safra perdida em função da escassez de água. Irritado com a mesquinhez da terra que lhe negava alimento, Anúbis, senhor das trevas e das profundezas, amaldiçoou aquele chão avaro, de maneira que nunca mais foi possível nascer uma espiga de trigo em terras egípcias. Jamais o deus-chacal voltara a pisar aquele solo que ele tanto tinha amado e quando as pessoas perguntavam pelo deus Anúbis, os sacerdotes sempre respondiam que ele fora plantar trigo no céu. E era verdade, meu bom menino. Era verdade...
Acontece que Nármer, o pai dos egípcios e primeiro de nossos faraós, ficara velho e partira para outra vida. A fim de amenizar a maneira de transmitir a notícia para nosso povo, que o amava sinceramente, os conselheiros do tempo diziam: “o rei Nármer foi plantar trigo no céu em companhia de Anúbis”. Acredito que foi um dos primeiros eufemismos registrado pela história e talvez o mais imitado. Bem sabes, meu amado rei, que muito provavelmente ainda esta noite todos nós iremos plantar trigo no céu. Tu bem sabes também que as areias do deserto cobrirão teu nome glorioso e que o tempo, sem nenhuma piedade, cobrirá de brumas a grandeza do Egito. Infelizmente, tu não tiveste tempo para plantar descendência, meu querido faraó, e certo como o sol continuará a viajar pelo céu todos os dias até o final dos tempos depois que nossos olhos retornarem ao barro tranqüilo da terra, assim também é certa a ruína da excelsa casa dinástica dos teus antepassados. Como a flor do lótus definha se não for regada adequadamente, também definharão os sonhos e as esperanças de um Egito grande na falta de um pulso forte para conduzir os homens. Somos um povo destinado ao esquecimento...
Mas enquanto Mentehotep monologava infaustas previsões para o destino dos egípcios, sua filha, a filha grávida, a filha cega, a filha que trazia no ventre o fruto de um amor ignoto, essa filha que até então não vertera uma lágrima sequer por toda aquela tragédia, aproximara-se do leito real e pela vez primeira mostrou-se ao seu rei em todo o esplendor de sua gravidez. Pálido de morte, num esforço incomensurável, derradeiro gesto de majestade e grandeza, o menino rei tocou aquele ventre a reverberar centelhas de vida, beijou aquele ventre vivo como não beijaria mais outra mulher na vida e depois, regiamente, cerrou as pálpebras para não mais tornar a abri-las e foi plantar trigo no céu. Mentehotep pairava num abismo de silêncios e dúvidas, enquanto a cega sorria com seus olhos plenos de entrelinhas.
        Havia esperança.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 22/10/2006
Código do texto: T270887
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
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