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Uma prova de amizade

_ Não adianta, Antonio Marcos, nós vamos no jantar na residência dos Guimarães Ferreira e está acabado.
_ Você vai, não conte comigo.
_ Antonio Marcos, você é herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da alta sociedade carioca, mora no metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro, e, prefere freqüentar aquele pardieiro lá em Copacabana do que participar de reuniões sociais com pessoas da mais alta classe.
_ Maria Antonia, quantas vezes eu vou ter que te pedir pra não chamar o bar do seu Joaquim de pardieiro.
_ E aquilo é o que? Um lugar imundo, cheio de bêbados e prostitutas.
_ Em primeiro lugar, Maria Antonia, você não conhece o bar do seu Joaquim pra dizer como são as pessoas que vão lá. Em segundo, bêbado tem em qualquer lugar, inclusive nesses seus jantares sociais e terceiro que lá não tem prostitutas.
Realmente, Antonio Marcos, do alto de seus um metro e noventa, e pesando cento e quarenta quilos, não parecia um dos homens mais ricos do Rio de Janeiro, fortuna herdada de seu falecido pai, um homem empreendedor. Raramente aparecia nas suas empresas. Gostava mesmo era de sentar nos bares do Leblon, onde morava, ou então, nos quiosques do calçadão de Copacabana, para apreciar o leve caminhar das garotas. Mas, Antonio Marcos, há muito tem uma paixão, o bar do Seu Joaquim, o famoso pé sujo. Era lá que ele se sentia em casa.
_ Eu não preciso ir até aquele antro pra saber como é. Basta cheirar suas roupas quando você chega, é uma mistura de perfume barato, perfume de mulher, um odor adocicado, coisa de farmácia e um cheiro de cachaça. Ah, que coisa terrível!
_ Por favor, não chame o bar do meu amigo Joaquim de antro.
_ Isso não vem ao caso. Trate logo de ir colocar um belo terno, aquele italiano, que eu comprei da última vez que estive na Europa, eu adoro ele.
_ Não vai ser possível.
_ Por quê?
_ Eu dei ele de presente pro meu amigo Joaquim.
_ Como? Você enlouqueceu Antonio Marcos. O que é que esse pobre infeliz vai fazer com um terno de dois mil dólares?
_ Ele me disse que precisava ir num casamento de uma sobrinha na Baixada Fluminense e não tinha uma roupa decente.
_ Meu Deus! Um terno italiano na Baixada Fluminense.
_ Além do que, ele não me servia mais.
_ Claro, você não para de engordar. Bom, põe então outro terno, você tem tantos.
_ Maria Antonia, você parece que não me entendeu. Eu não vou. Eu não tenho paciência pra aturar aquele bando de hipócritas, de fingidos, que não têm outro assunto que não seja dinheiro. Dinheiro e amantes, você sabia?
_ Eles são nossos amigos.
_ Amigos que nada. Amigo mesmo é o seu Joaquim.
_ Ah não, era só o que me faltava. Daqui uns dias você vai trazer esse tal Joaquim aqui em casa.
_ Não é má idéia. E tem outra coisa, Maria Antonia, a comida que servem nesses jantares é horrível, parece que estão alimentando formigas. É um pouquinho de arroz, um punhadinho de salada, dois camarõezinhos, isso não me sustenta, eu gosto é de fartura, sabe como é?
_ Não, não sei.
_ Uma bela rabada com agrião, uma porção tripla de moela com batata e cebola...
_ Ai que nojo! Olha Antonio Marcos, você tem que parar de freqüentar aquele chiqueiro.
_ Para de ofender o bar do meu amigo Joaquim
_ Você já pensou se algum amigo nosso ou um executivo de suas empresas vê você lá.
_ E daí se alguém me vê? To pouco me lixando. A vida é minha, eu faço dela o que bem entender.
_ Então, criatura, pense no nome de seu pai, que sempre foi um homem tão bem relacionado, tão respeitado por toda alta sociedade.
_ Lá vem você com essa tal “alta sociedade”. Grande merda essa tal sociedade que você tanto exalta.
_ É, não tem mais jeito, você é um caso perdido, Antonio Marcos.
_ Quer saber? Vou lá pro meu amigo Joaquim. Vou ser feliz, vou dar gargalhadas, falar palavrões...
_ Esse tal de Joaquim, o que ele fez pra você gostar tendo dele. Vive enchendo a boca pra dizer “meu amigo Joaquim”.
_ Sabe Maria Antonia, dia desses, ele me deu prova de ser um grande homem e principalmente, um grande amigo.
_ E o que ele fez de tão especial?
_ Eu cheguei lá no bar com uma fome danada, pedi uma cerveja e cinco torresmos. Como eu adoro torresmos.
_ Ai, torresmos, chega a dar arrepio.
_ Eles estavam lá, moreninhos, com aquela gordurinha, hummm... Minha boca tava cheia d’água.
_ E aí?
_ Aí, seu Joaquim colocou a mão no meu ombro, me olhou de um jeito fraterno e disse: _ Marquito, não come isso não, esses torresmos já estão aí há três dias.
_ Ai, acho que vou vomitar.


Elano Ribeiro Baptista
Outubro 2006.

Elano Ribeiro
Enviado por Elano Ribeiro em 27/10/2006
Reeditado em 28/10/2006
Código do texto: T275508
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Sobre o autor
Elano Ribeiro
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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