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O PECADOR



Saiu da pequena igreja mais aliviado. Fora confessar com seu diretor espiritual, Frei Toninho. Este velho franciscano o conhece desde o tempo em que esteve cursando o 3º ano do primário, em regime de internato, num colégio misto de freiras no norte pioneiro do Paraná.

“Gosto do Frei Toninho. Inspira-me confiança. Acima de tudo, faz-me economizar alguns reais com psicólogos. E não corro o risco de ter minhas intimidades divulgadas por um mau profissional. Afinal, Frei Toninho tem o voto de segredo de confissão.
 Quem diria, eu um destacado executivo. Um bem sucedido homem de negócios...Ah negócios! Malditos negócios! Estão me deixando de cabelos brancos. Acho que deveria me aposentar.
 Puxa! Só de pensar em ficar numa praiazinha qualquer, de bermudas, chinelos de dedo, água de coco. Nossa, que vidão! Estes pensamentos de uma certa forma me frustram. E por que será que não tomo a iniciativa de abandonar toda essa engrenagem neurótica em que estou envolto?... A coragem das mudanças....Isto mesmo! Mudar a forma de vida que estou vivendo. Esta, é um verdadeiro passaporte para hospício, uma perfeita máquina gestatória de neuróticos ...
 Hoje estou aqui no Brasil, daqui a três dias numa roda de negociação na Alemanha, mais dez dias, novas negociações, aí estarei comendo, sei lá, carne de cachorro na China?... É vida? Buscando o quê?... Dólares!... As malditas verdinhas...
Ah! Frei Toninho, vou pecar de novo. Agora em pensamento. Aliás, se não é este maldito pecado, acho que já estaria num manicômio. O meu pecado predileto não seria um reforço positivo para a minha psiquê?...Uns não gostam de pescar? Não é na beira do rio que eles vão descarregar o seu stresse? Será que o que eu faço é realmente um pecado? Às vezes penso que a educação que tive naquele colégio de freiras, é que está me encaminhando para o inferno, e não os pecados que cometo. ”

Sorriu melancólico na rua, com a lembrança de seus amigos quando o chamavam pelo apelido, para uma pelada de futebol  — “Pepê Punhetinha, vai jogar?”
 Despertou de suas elucubrações, quando o dono da banca de revistas lhe interpelou com uma conspirativa voz bem baixinha:

— Doutor Pedro Paulo, já chegou sua revistinha de sacanagem deste mês!

28/10/2006 12:23:26
Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 28/10/2006
Código do texto: T276125
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
92 textos (3259 leituras)
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Luiz Celso de Matos