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ALÉM DAS MONTANHAS

Era lá.
Além das montanhas, era lá.
O pai foi sumindo na estrada, tão pequenino dentro da poeira laranja, que nossos olhos encharcados não mais o discerniam. Só se via a carroça puxada pela égua velha, dentes bons como aqueles nunca vira nem na Estância dos Marcelinos. Fosse ainda nova e forte, pai achava comprador para ela e tudo se resolveria conforme os arranjos de deus clemente. Mas a fome... Tanta humilhação por causa dessa, que pai se entregou, exausto em virtude daquela luta infame e degradante. Até aos bichos o céu dá de comer. Gente é que tem de se virar como pode. Queria correr atrás deles, mas Aninha segurou meu braço magro e ficamos calados por um tempo, abraçados num rosário de soluços e chorando convulsivamente, eu no ombro dela, ela no meu ombro. Por isso eles foram feitos, para amparar nossas lágrimas. Depois, sabíamos que nunca mais a veríamos. Nunca mais... Ah!... palavras cruéis! E no entanto parecia uma rima tão boa para os corvos! Pai disse que tinha de ser sem adeuses. Como as pedras. Mãe ficou no tanque, fingindo enxaguar a roupa. Não queria ver, tinha o coração flambado pela dor.
Naquela manhã, Maria Carolina ganhou vestido novo e pôs perfume. Tudo presente de Dilermando. Tão bonita nossa irmã ficara que parecia anjo. Quatorze anos, praticamente mulher. Mãe penteou-lhe as tranças pela última vez e deixou ela pintar a boca. Maria Carolina riu, porque borrou os lábios virgens de framboesa. Duas coisas que eles nunca tinham visto, beijo de homem e batom. Pai não deixava, nem um nem outro. Mas agora, a extrema necessidade arrastava nosso pai à mais pungente das demências. Três dias sem nada de comer em casa fez pai desesperar-se. Alucinara ao assistir impotente a nossos olhos aflitos de fome, suplicando comida. Então decidiu. E Maria Carolina foi sacrificada por nós.
Não disseram nada para nossa irmã, mas creio que seu coração de orquídea adivinhara. Na tarde anterior, Maria Carolina e eu fomos buscar água na bica que minava das pedras num bosque de eucaliptos, perto de casa. Fiapinho d’água só. Enquanto esperávamos o tacho encher, avistei um ninho de joão-de-barro e gritei olha o joão-de-barro, Carol! Mas Maria Carolina não gostava do joão-de-barro. Não era ruindade. É que ela não entendia a razão daquela crueldade requintada. Tinha para si que o joão-de-barro era a mais perversa ave de deus, porque o malvado aprisionava sua fêmea no ninho. No fundo, eram todos passarinhos, eles e nossa irmã. Partilhavam da mesma cumplicidade, tácita e feminina. E do mesmo destino. Aquela hora da tarde, os eucaliptos perfumavam a brisa fresca que acariciava nossos cabelos e varria o tapete de folhas castanhas estendido sobre o chão. Maria Carolina tinha se levantado do tronco em que estivera sentada e fora rabiscar um coração numa árvore. Não sabia escrever, mas desenhara um eme com seu canivete feito num chifre de búfalo, presente de madrinha. Eme de Maria, eme de morte. Ainda está lá, o eme. O canivete ficou comigo e é a única recordação que tenho dela. Maria Carolina é quem teve de partir. Maria Carolina teve de morrer para continuarmos vivos.
Aninha contava dez anos; eu, oito. Tanto tempo lá vai, que a saudade desaprendeu como roer. A própria dor, de tanto latejar, acaba acostumando. Que Aninha também cresceu um dia e a maria-fumaça a levou embora para sempre, apitando e fumando pelas curvas das montanhas feito um bicho dragão; que eu não podia mais me agüentar diante daquelas montanhas cruéis, sozinho com a mãe, e tive de abandoná-la com os olhos pingando sangue e um abismo devorando meu peito covarde; que a mãe se acabou no outono vizinho, curtida pelas lágrimas que não estancaram nunca. Por tudo isso, aprendi a ser duro e céptico diante da vida, diante desse destino torpe e mesquinho.
Ainda nem tinha anoitecido quando voltamos da bica. Maria Carolina ia adiante, carregando o tacho e brincando com as borboletinhas faceiras que a seguiam. Encantadas. Talvez a frescura de sua juventude exalasse um aroma doce que as inebriavam, talvez as borboletas apenas desejavam despedir-se dela pela vez derradeira. Maria Carolina não era uma flor, era um jardim inteiro. Depois, quando estávamos próximos da gruta de Nossa Senhora do Bom Destino, ela estacou, fascinada. Olha, sussurrou quase num beijo. Uma coruja arrulhava estrofes matemáticas, enquanto ia alimentando sua cria na galhada de um pinheiro. Estão felizes. Se pai visse isso... Lá longe, o horizonte fazia-se vermelho, estranho pudor com que a natureza mangava dos homens. Um tico-tico riscou o horizonte e levou os olhos cândidos de Maria Carolina em suas asas frenéticas. Do tico-tico ela gostava. Tão pobrezinho e franzino, que até parecia da família. Quando o menino Jesus nasceu, foi esse passarinho quem primeiro anunciou a boa nova pela terra a pedido de São José. O tico-tico foi engolido pelo ventre das montanhas e Maria Carolina teve um calafrio. Ali estavam elas, impávidas e soberanas, vivas e eternas. Ali elas continuariam, além dos tempos, enquanto que nós passaríamos como os tico-ticos, brisa que éramos. Ali elas testemunhariam o lânguido suicídio das estrelas, o tropel pressuroso dos milênios, a extinção do milagre da vida.
Maria Carolina admirava as montanhas. Deitou o tacho d’água ao chão e quedou-se numa contemplação apaixonada. Lá, além das montanhas, diziam que havia grandes cidades, gentes que vestiam roupas sem buracos e remendos, carroças que andavam desatreladas de bois. Tanta fartura que tinha, que mesmo os mais pobritinhos se alimentavam duas vezes por dia. E havia broas e presuntos e compotas e rebuçados em todas as ceias, que mais parecia um banquete trimalchônico, onde os comensais podiam se regalar à farta. Ah!... montanhas misteriosas e inexoráveis. Maria Carolina sonhava com teus segredos de alcova, com tua poesia alexandrina a lembrar versos do Líbano, com tua alma cortesã de dama elegante e requestada. Mino, será que um dia o pai nos leva além das montanhas? Não sei, Carol, o pai tá melancolia só, coitado! E era. Maria Carolina sorriu amargo com os olhos. Abaixou para pegar o tacho - o vento brincou aos beijos com suas melenas douradas - deu um longo suspiro e palmilhamos em silêncio de volta para casa. Se Maria Carolina soubesse que após o dia seguinte ela nunca mais tornaria a nos ver, que teria de se aviltar em sua honra de donzela e que morreria sozinha numa madrugada de chuva, crivada a bala, talvez nossa irmã vertesse uma lágrima por si própria. Dulcíssima Maria, se por acaso ainda podes ouvir a desafinada orquestra da vida, estende teu sublime coração sobre este pasto de misérias e perdoa a nosso velho e desafortunado pai, cuja loucura o conduziu às mais sórdidas infâmias.
Foi naquela noite que pai contou. Nem estrelas. Tinha a cabeça baixa e seus olhos refugiavam-se dentro de si, constrangidos. Sentenciou pianíssimo, voz de quem conservava a alma em cativeiro. Amanhã, antes dos galos, Maria vai para a cidade ficar aos cuidados de Dilermando. Mãe gelou dos pés à cabeça. Sabia da reputação desse ofídio peçonhento e dar a filha a ele era a mesma coisa que alimentar escorpiões. Além do mais, Dilermando nem era gente, mas o próprio diabo em sua fatiota engomada. Maria Carolina não entendeu, nem pai explicou o que ela iria fazer na cidade. Melhor assim. Só mãe compreendeu a verdadeira dimensão da tragédia e quedou acuada num canto, amordaçada em seus silêncios, olhos estrábicos e roxos de sangue. Se tinha palavras de revolta, não chegaram a transbordar e permaneceram agrilhoadas em seu coração sovado. Puro desfiladeiro. Pai cortou o pão de centeio dado como adiantamento por Dilermando e deu-nos de comer. Pão gostoso, pão bom, como a virgindade de Maria Carolina. Depois, fizemos preces agradecendo tudo de bom que deus nos mandava e fomos dormir, ouvindo o doce cantar dos grilos e a sedutora serenata das montanhas.
Acho que ninguém dormiu direito aquela noite. Maria Carolina sonhava com seus palácios de manteiga, seus príncipes de cristal, sua cidade imaginária alcatifada de brilhos e luzes cintilantes, nem desconfiando que o destino já havia lhe preparado o laço. Nossa irmã dizia que um dia voltaria para nos buscar e todos iríamos viver na cidade, felizes como o tico-tico, lá, além das montanhas, onde a comida era farta e as famílias não precisavam se separar por causa da fome.
Pai acordara com Dilermando os detalhes da transação. Metade adiantado, outro tanto em um ano. Além disso, este mandaria todo mês uma parte do que Maria Carolina conseguisse ganhar em suas noites de trabalho. Pai sabia que dessa forma tinha garantido o mínimo para nossa sobrevivência e não precisaríamos mais contar com ele. Por isso fez. Quando naquela manhã segurou o braço de Maria Carolina e a ajudou a subir na carroça, já não era mais pai, já não pertencia mais ao reino dos homens. Aninha soluçou baixinho adeus, Carol. Ah... deus, pensei, vida amarga... A carroça foi sumindo, sumindo, lá nas curvas da montanha, tão inocente, e no entanto caminhava para o abatedouro. Pai deixou Maria Carolina na porta da casa indicada e algumas mulheres saíram para recebê-la. Despediram-se secos de lágrimas. Pai apertou a mão de nossa irmã e sentiu o coração dela pulsando nos dedos. Era-lhe já uma desconhecida. Subiu na carroça, tocou a égua, as rodas avançaram chiando no barro. Estava feito, não era homem de olhar para trás. Depois, foi cumprir o seu destino. Parou a carroça numa curva da estrada e escolheu uma árvore. Em seguida, apanhou a corda que trazia na algibeira, fez dela um laço, pendurou-a num galho robusto e enforcou-se com sua infinita dor, enquanto o joão-de-barro assobiava uma triste melodia de violino, eterna canção de amor e de morte.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 28/10/2006
Código do texto: T276128
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
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