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Pepinos

- Mas eu disse que queria pepino!
- Pepino, pimentão... Tudo tem o mesmo gosto....
- Pepino! É muito diferente...
Era um selva de aparelhos, fios e tubos. Uma cama escondida sob o corpo doente que reclamava por pepino.
- Tudo bem. Eu vou comprar pepino então.

Um dia tediosamente nublado. O mercado ficava a mais de cinco quarteirões e quis andar... Talvez porque assim demoraria mais um pouco. As ruas estavam vazias, poucos carros passando, raros pedestres e um caminho a seguir. E a solidão dentro do seu coração enfim concretizada.
Por quê? Por que ELE, por que AQUELA doença? Por que MORTE? Se perguntava isso todos os dias, todas as manhãs, tardes, noites... toda hora. Se culpava, não sabia porquê. E o pepino? Para quê pepino? Ora essa, pepino não era nada se comparado à dor que ele sentia. Nada! Se comesse o pepino talvez por alguns minutos a dor se fosse e isso era o mínimo que ela poderia fazer. Mínimo?... É, mínimo.
O mercado estava tão vazio quanto as ruas. Eram duas caixas fofocando sobre alguma novela e um carregador brincando com uma moeda. Lugar simples e humilde, com poucos corredores e uma geladeira para refrigerantes e cervejas. E, claro, o canto das frutas e legumes.
- Pepino... Pepino...
Ali estavam, jogados na cesta dos pepinos. Grandes, pequenos, uns mais verdes que outros, outros mais brilhantes... Qual seria o perfeito? Pegou um em cada mão e ficou examinando. Grande, assim não iria faltar com certeza. Faltar nunca era bom. E se levasse vários pequenos? Poderia fazer um prato ornado, com carinho... Ele gostaria disso. Mas... estava cansada demais para cozinhar.
- Vai demorar muito?
Assustou-se. Estava tão concentrada em seus pepinos que não percebeu o homem alto e robusto que esperava pacientemente para também escolher pepinos. Abriu um espaço para ele alcançasse os pepinos e ficaram lado a lado escolhendo.
Para quem será que ele escolhia pepinos? Se fosse solteiro não comeria pepinos. Devia ter filhos então, mas não usava uma aliança. E escolhia categoricamente, como se analisasse cada centímetro de cada pepino. Seria viúvo? Sentira a dor de perder a amada? Mas tinha filhos, tinha eles para amá-los... Já ela mesma, nada tinha depois que o marido se fosse. Absolutamente nada.
- Você está bem? - o homem encarava preocupado, interrompendo sua análise dos pepinos.
Ela segurava um pepino mas com os olhos fixos para frente, distraída com seu futuro nada.
- Estou, estou. - voltava a si sentindo-se envergonhada - Mas que pepinos bonitos!
- Nem tanto... Acho que estão meio passados. Precisa de muitos?
- Na verdade não. Apenas um. Ou dois!
- Tome, leve estes. São os melhores.
- Obrigada...
E era um homem gentil. Devia ser feliz se tinha energia para se preocupar com outros. Seus filhos deviam ser robustos como ele e inteligentes. Conversavam no jantar e, à vezes, lembravam da mãe com carinho. Saíam no fim de semana para jogar bola, tomar sorvete, rir. No aniversário da falecida comiam seu bolo favorito. Uma família feliz. Enquanto sua própria família apodrecia em sua cama, resmugava o dia todo de dor e reclamava por pepinos ao invés de pimentões. Ela queria seus filhos robustos, fins de semana com sorvete, qualquer coisa que lhe desse esperança.
- São para você? - o homem feliz ainda estava ali, analisando pepinos.
- Como?
- Os pepinos. São para você?
- Ah! Os pepinos... Não, são para meu marido... Está doente e quer pepino. Então devo lhe dar pepino e não pimentão!
- Você lhe deu pimentão?
- Não sei... Ele disse que sim. Não sei.
- Ao menos desta vez não vai errar. Garanto que estes são pepinos!
Ela riu. E se surpreendeu. Rir? O que era aquilo? Sentir-se feliz com o amor de sua vida à beira da morte? Nunca! Pecado!
- Quem sabe o pepino seja um remédio milagroso. - o homem percebera a hesitação, percebera a gravidade que ela disfarçava - Quem sabe seu marido melhore amanhã!
- Não creio. - ela sorria suavemente frente à honesta tentativa de animá-la - Seria melhor que se fosse amanhã, assim a dor pararia.
- Então não adianta levar o pepino...
- Não adianta.
Ficaram parados, ambos pensativos. Ela pensava no pepino. Como era irritante o pepino, o jeito que ele dizia que queria pepino e o agradecimento que ele esquecia tanto ultimamente, mesmo ela se submetendo à quase escravidão para satisfazer todos os seus desejos. O travesseiro nunca fofo o suficiente, a água que por mais gelo que tivesse estava sempre quente demais, as cortinas que ou estavam muito abertas ou muito fechadas e o pepino. Queria pisar e cuspir naquele pepino.
- Um café. Um café é perfeito para quando estamos mal.
- Um café?
- E há uma cafeteria ótima aqui perto.
- Mas não há tempo para um café.
Um café seria ótimo sim, mas seu marido esperava seu pepino. Seu amaldiçoado pepino.
- Vamos. Você compra um para você e outro para seu marido, que sei que ele irá gostar.
- Ele gosta de café...
- Então vamos.
Estava saindo do mercado com um total estranho. Um estranho gentil que lhe oferecia um bom café. E não havia nada que ela estivesse desejando mais do que um simples e gostoso café, forte de preferência. Não estava errado, era apenas um café. E ele poderia esperar por seu pepino. Afinal, se sentisse fome tinha o pimentão, que não era pepino, mas era perfeitamente comestível. E, além de tudo, ela iria comprar um café para ele também.
- Não se preocupe, quando chegar em casa ele estará lá, tão doente quanto antes.
Ela se acalmou. Era estranho como aquele homem a acalmava. Era ele que era calmo demais, estava contagiando. Andava tranqüilamente, mantinha um pseudo-sorriso e tinha tanta firmeza em suas ações que ela confiou em apenas segui-lo.


Ela escolheu seu café. Extra-forte, como pediu, e chantilly. Na verdade, desejava intimamente uma vodka, pura que acabasse com toda sua fatigante frustração. Mas se conteve em pedir o café e conversar com aquele estranho.
- Há quanto tempo seu marido está doente?
- Faz meses. Piorou, nós sabíamos que chegaria essa fase. Fase terminal.
- E você só tem estado ao lado dele esse tempo todo?
- Quando trabalho minha mãe fica com ele. A mãe dele vem semana que vem para ajudar também. Ela mora em outro estado.
O homem bebia seu café com gosto. Mas não se comparava ao gosto que ela tinha ao engolir seu café. Era seu café, seu delicioso café, só dela para ela e mais ninguém. Um gesto egoísta enfim. Só dela. E pensou na vodka de novo. Lambeu seu chantilly, pensando na vodka. A vodka pura e entorpecedora.
- E não têm filhos?
- Não. Não tivemos esse tempo. - a tristeza entalou na garganta e doeu em seu coração. Ela queria seus filhos robustos.
- Você é jovem, terá filhos. - o homem sorria com bondade.
- Terei filhos?
- Mas é claro. Se você quiser.
Ter filhos? Com quem? Seu marido, naquela cama, enfraquecido, amargurado pela doença. E ela não podia querer outro, pois era a única pessoa que, com seu amor, poderia dar ao seu marido forças até o fim. Em toda sua vida não quis outra pessoa. Amou-o com tanto afinco que prometeu para si mesma que não o largaria. Todas as lembranças, memórias... Aquela doença maldita. Doença injusta.
- A culpa não é sua. E você veio buscar o pepino.
- Estou aqui, tomando meu delicioso café. E ele sofrendo de dor, desejando seu pepino.
- Há quanto tempo você sofre de dor, desejando seu café? Não, não, está errado. Você também sente dor.
- Mas a dor dele...
- Você entende a dor dele, eu sei. Não quer dizer que você não mereça seu café.
O café era bom de fato. E trazia certa paz de espírito, não havia resmungos, não havia remédios, nem aparelhos, fios ou tubos, ou pepinos. Era um alívio, admitiu.
- Tenho que levar o pepino. - já havia tido paz demais para quem tinha um ente querido esperando ansiosamente - Devo ir.
- Está certo. Espero ter ajudado um pouco. E eu pago.
- Ajudou. - ela sorria, era o homem mais gentil que conhecera em sua vida - Você não deveria se preocupar tanto com estranhos.
- Minha esposa dizia que ninguém deveria se sentir só num mundo tão cheio de gente. - ele dizia aquilo com orgulho - Infelizmente a perdi e também não tivemos tempo para uma família.
Mas... e os fins de semana de futebol e sorvete? E os pepinos? E a família feliz?
Ficaram em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos nos olhos do outro. Um homem gentil, cujo único defeito momentâneo era gostar de pepino. Um salvador de almas perdidas. Um doador de café. O que mais? Bonito? Sim, era. Seus olhos eram lindos, hipnotizantes, cheios de uma esperança que não vinha exatamente de dentro dele, mas que refletiam os olhos dela....
- É errado. - ele baixava os olhos agora, envergonhado.
- É muito errado. - ela também baixava os olhos, profundamente arrependida de sequer ter pensado em... Era horrível demais!
Saíram da cafeteria ambos com os olhos no chão. Como pôde? Ela era uma pessoa horrorosa! Um estranho, um total estranho! E seu marido amado em casa, implorando por seu precioso pepino. Café, grande idéia o café! Só trouxera desgraça.
- Escute - estava sem-graça e bastante envergonhado, mas não perdia seu tom confiante de falar - me desculpe. Foi um erro achar que podia te ajudar e...
- Tudo bem. Foi um erro pensar em café um hora dessas.
Os olhares se encontraram de novo. Um homem que a valorizava depois de tanto tempo. Era robusto, alto, bonito. E seu olhar seduzido, todo seu corpo se segurando contra uma vontade proibida, contraindo-se em desgosto e vergonha. Mas ela não, não conseguiu ser forte. Foi quase automático quando jogou-se em cima dele e alcançou seu lábios com tanta sede.
Era um sensação divina. Era vida que ele passava com seu beijo e que se espalhava por todo corpo dela. O coração bateu mais forte, o corpo inteiro esquentou instantâneamente. E o calor do corpo dele era envolvente e aconchegante. Por um segundo lembrou-se de seu próprio marido quando tinham acabado de se conhecer. A paixão e a vivacidade daquele beijo eram as mesmas.
Quando finalmente os lábios de separaram, ele sussurrou em seu ouvido de um jeito que ela nunca mais esqueceria:
- Eu tenho vodka no meu apartamento.


Acordou na cama de um estranho. Ela nua, ele nu. Estavam embriagados pela vodka e os corpos cansados, conseqüência de uma atração tão forte e tão espontânea como ela nunca havia tido antes. Ele ainda dormia. Se levantou então para se vestir.
Era um misto de excitação e culpa. O coração batia forte e seu corpo inteiro tremia. Era errado, mas não podia se culpar quando sentia-se assim: tão viva. Viu os pepinos jogados em uma mesa perto da porta do quarto. Os pepinos que ele tanto queria... E queria apenas pepinos, mais nada. Naquele momento pareceu-lhe o pedido mais singelo que ele poderia lhe fazer.
- Está feito. - o homem havia acordado.
- Eu sei.
- Me desculp...
- Não se desculpe. Não estrague isso.
- Foi ótimo, devo confessar.
- Foi sim. Mas agora devo ir. Os pepinos...
Não odiava mais os pepinos. Eram simples pepinos. Diferentes de pimentões.
Foi embora sabendo que nunca mais veria aquele homem. Não estava triste, estava satisfeita. Nada mais parecia fim, nada mais era tão vazio.
Na volta, passou naquela cafeteria e comprou o café para seu marido. Forte com chantilly. Pensou nele, no quanto o amava, no quanto queria preparar-lhe o pepino.


Chegou em casa quando nem era noite ainda. Ele dormia tranqüilo como se sonhasse coisas belas, longe da dor. Ela beijou sua testa e foi para cozinha com o pepino. Preparou-o com dedicação e todo cuidado, quis que fosse perfeito, o melhor que de toda a vida dele.
Quando o acordou, viu aqueles olhos tristonhos e condenados de novo. A aparência frágil e sempre rabugenta. Mas a pessoa que amava, simplesmente amava.
- Seu pepino. E um café.
- Um café! Eu quero café!
Ela sorriu satisfeita.
- Meu bem, obrigado.
Ela não respondeu. Beijou sua testa novamente.
- Eu te amo.
- Eu também te amo.
Mynina
Enviado por Mynina em 29/10/2006
Reeditado em 29/10/2006
Código do texto: T277096

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Sobre a autora
Mynina
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
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