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Para ir à escola, era preciso subir a montanha.
Não havia caminho.
A vereda mal se via, pois só era pisada aos domingos, quando a minha avó e a criada iam à missa.
Desembocava enfim na estrada romana, larga, polida, ladeada por muros.

Ás vezes perdia-me por entre a erva esparsa.
Sobretudo se avistava gafanhotos e me punha a persegui-los.

Bicho dando de esperto!
Fingia aceitar o jogo, de pulinho em pulinho; depois trocava-me as voltas,
saltava às arrecuas e eu, que o tinha quase na mão, rodava, no seu instinto...

Quanto devia rir-se os bichos!

Sabiam decerto que o meu intento não era comê-los, mas vê-los...
Eram verdes, amarelos, eram grandes, minúsculos, tinham patas de mola e pontas bicudas, viradas... As anteninhas diziam de longe:
- Vem, vem que cá te espero!... E eu ia – Plim! Saltava de caninha em caninha e eu, iludida, continuava.
- Vem, vem, que cá te espero!
Estendia a mão ligeira, o meu coração dava um salto e ele outro: Plim!
- Os grandes olhos no alto, brilhavam de tanto riso e os meus, quase choravam de desespero.
- Que idade teria eu?!
Media os anos, como se deve medi-los: pelo correr das estações.
A primavera era linda!
Tudo em flor! Cravos do monte, moitas amarelas e brancas de camomilas abertas, espreguiçando-se ao sol.
Estevas de sete-chagas: flores imensas e brancas com uma dedada púrpura.
Eu retirava as pétalas, delas retirava as pintas e depois mastigava-as, deliciada.

As lagartixas passavam os dias mandriando sobre as pedras.
Tão preguiçosas, tão preguiçosas, que nem se davam ao trabalho de correr de mim, como corriam, lépidas, ao aproximarem-se outras pessoas.
Sentia-me desconsiderada!
Podia lá aceitar uma desfeita da parte das bichas malandras, quietinhas, de olhos cerrados, dizendo aos insectos
- Vem, vem, que eu estou dormindo!
- ... E eles iam, coitados, como eu ia aos gafanhotos... só que acabavam papados.
Entre os gafanhotos e eu a liça era pacífica, ao menos!
Só queria vê-los e eles que eu os não visse.
Seriam envergonhados confessos?!
Ainda hoje não sei o porquê de tal pudor!
No alto dos sobreiros, cantavam as poupas e os cucos e os outros pássaros todos seguiam estes maestros.
Os cucos eram adivinhos!
- Cuco, cuco, quantos anos de solteira me dás tu?, Perguntavam as moças, que ficavam a escutá-los, de ouvidos atentos.
Depois riam-se umas com as outras, trocavam olhares, escondiam cumplicidades na barra dos aventais.
No verão, o calor era tanto que tudo ficava em suspenso.
Cresciam as silvas em flor, aproveitando a distracção.
As cobras refastelavam-se pelas manhãs.
À hora do sol a pino, recolhiam aos seus quartos frescos, subterrâneos,
enrolavam-se e dormiam... que vida regalada levavam elas!
Até mudavam de vestido, que eu bem notava os deixados, transparentes,
ressequidos, embandeirando os galhos que ladeavam caminhos.
A erva hirsuta secava, ficava da cor da palha.
Eu colhia “olhos de cobra” que recobria pomo a pomo com as pratinhas de chocolate, fazendo ramos coloridos, pendendo como brincos dos caules finíssimos.
Era tempo de cautelas: as ervas picavam; as silvas, essas... pareciam tecer
armadilhas; os cardos riscavam as pernas, e no chão cuidado! Havia lacraus e centopeias, perigosos.
Que desrespeito me tinham os bichos!
Se alguém lhes tinha dito que eu não tinha defesas, não sei, mas que lá que me ofendiam, me não ligavam nenhuma, era uma afronta indesculpável... ainda por cima nem se dignavam pedir desculpa!
Que atrevidos!
Aos poucos, negrejavam as amoras nos ramos.
Tentações!
Era preciso cuidado às cores: só as negras muito negras deveriam ser colhidas.

Aprendera com os passarinhos e... de tantas vezes me ficar o sabor acre onde era esperada a doçura, na ponta da língua.
As folhas iam amarelando e caindo.
O Outono era belo, mas sol de pouca dura!
Em breve caía a chuva, primeiro fina, depois fria.
De repente, um frio cortante descia da Serra da Estrela e a manhã amanhecia toda branca de geada.
De noite, escutava o assobiar do vento.
Diziam que por vezes, de manhã, pequenos bichos apareciam atravessados, vivos, nos ramos recém despidos; varados os corpos de lado a lado, atravessando as forquilhas e os gomos...
Andei, andei, rodei na ventania muitas vezes na esperança de ver com os meus olhos tal magia... mas quê!
Não sendo crente nem bruxa, jamais tive essa sorte... Deveria acreditar no que se diz, mas é o acreditas!
Crer, só no que estiver diante dos meus olhos e mais: preciso tocar para crer, como S. Tomé.
- Que raio de feitio tem esta criança!,
Ouvia também, já que tinha de ouvir e os outros e têm sempre que comentar...
De noite, não havia cobertor que nos valesse!
Lareira acesa, braseira reluzindo... qual quê!
Os pés petrificavam que nem gelo, a pele das mãos estalava de frieiras.
As pernas entrecruzavam-se de linhas, veias dilatadas pelo sopro das fogueiras, a que chamavam chouriças.
Os gatos, coitados, andavam tisnados, de pelo ruço, enroscavam-se no borralho e nem davam que nele houvesse misturadas pequenas brasas acesas.
Um dia tudo ficava cinza... Cinza, uniforme e quieta.
Aos poucos, o céu começava rodando, rodando, e à medida que girava, ia abençoando tudo, desprendendo farrapinhos alvos, que lentamente desciam!
Deitava a língua de fora, sorvendo aquela frescura.
Lançava-me de braços abertos na alvura!
O manto branco crescia, tudo deixava encoberto, não mais a negrura do granito, o verde-escuro dos musgos, o verde cinza dos líquenes...
Tudo era branco e eu rebolava no chão, deliciada na calma, pois tudo se recolhia... eu era a menina vadia, a que não se ralava, a que deambulava sozinha.
Recolhia mãos cheias de neve e ia guardá-la em casa: mas ai! Chegava de mãos geladas, molhadas e vazias.... Esvaía-se-me a beleza por entre os dedos, como a riqueza aos outros.
Ficou-me dentro da alma!


Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 03/11/2006
Reeditado em 03/11/2006
Código do texto: T281497
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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