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O PROBLEMA É DELA!

Nada como fosse por bem, distrair-se! Pois bem, um dos mecanismos da concentração econômica, desenvolvidos numa lógica, respeitando todas as linguagens, cujas problemáticas, entrelaçam-se às tecnologias de última ponta, absorvidas por leões globalizados.
No entanto a selecionaram, dentre muitos outros, numa lista extensa e incontável. Não seria novidade, nela meu nome aparecer escrito, mesmo que borrado! Diplomaram a moçinha: a mais nova fodida do mercado, jubilada de uma vida!
Todavia, a garota era forte, quando ainda prensava pilões na quitinete. Velas derretiam minúcias, enquanto pastilhas a sucumbiam e cravos no encéfalo, explodiam:-“Salve moleque”!-, assim um amigo entrava pela janela da sala, cumprimentando-a carinhosamente. Os dois se abraçaram, sorrindo mutuamente. Beijaram-se, assentaram suas ancas respectivamente, e a reciprocidade era tanta, porque ambos não se encontravam desde os tempos do Sana.
Eis os reversos e complexos destas novas gerações: muito assunto, pouca novidade! Sobretudo, inúmeros convites e informações. Assim, combinaram o programa do fim da semana, já para início na noite de quinta. Cabe informar que o tempo hábil, seria o responsável pelo cubículo, ou projeto de apartamento – o dela – , enquanto estivesse fora - nossa personagem! O desemprego então, prometera lhe dar trégua no cerebelo. Não obstante, a deixar de lado por estes dias de festa, uma decisão: o trancamento da faculdade de Web-design. Ela não se deu por vencida, apesar da crise financeira e psíquica, estava otimista, desde que um poeta a revelou algo de foro mais que íntimo:

“AS DÚVIDAS PAIRAM NO AR
AS DÍVIDAS SÃO REAIS
E EU ESTOU AQUI”


Contudo, a partir da quinta à noite, nossa amiga jamais foi vista até domingo pela manhã. Foi um programa daqueles! Ela pedira uma média num botequim, após sair da paranóia de uma rave de três dias. Estava descalça e maltrapilha. Suada, sua calcinha encardida no uso fim de semana prolongado, substituía um lenço perdido. Após desmaiarem, os DJ’S - promotores do evento -, decerto, decretou-se informalmente o fim daquela confraria techno. Era hora dos ouvintes dançantes buscarem o pão, já que acabara por o circo - espetáculo de gente nova, ou nova gente eletrônica; produto de uma paz antagônica!
Ela dividiu um táxi com o amigo, deu-lho como presente à calcinha suja: -“Moleque hein”?..-, apenas assim, o rapaz conseguiu agradecê-la, já também sem estômago, intestinos e estado de espírito.
Lá para cima, em meio ao mofo, lacraias, ratos e baratas da sua morada, ela se entregou ao sono por meia-hora, e logo acordou. Não captou relevantes novidades quanto à organização social dos mosquitos aglomerados em seu leito. Mosquitos se organizam em tão poua vida"? Indagava-se. Subtamente adormeceu, sonhando com trances, ambients, hardcoreteknos, drum´n´bass, em suma: raves para mais de dias! Descansou, objetivando recuperar o sono perdido desde àquela falsa quinta.
Segunda-feira, ainda a sonolência e a ressaca giravam nos sonhos de sua semi-vigília, a qual  desperta, não viu o pó de café na dispensa da casa. Banhou-se, no primeiro banho, desde a saída para a bombada balada. Pela primeira vez, sentira gotas puras de água, surrando seu corpo, impregnado de álcool, remédios, energéticos, sintéticos e paremos, pois se há aqui intensões, não sei. Sei que não há metas abertas difamações! Mas ela necessitava, urgentemente, lavar-se, escovar todos os cantos do dorso, e perfumar suas axilas.
Pois é, a "malucona" fez questão em lembrar de tantos detalhes e "coisitas", esquecendo-se sempre da cafeína (substância importantíssima na engrenagem do sistema nervoso central). Ela nunca escondeu suas predileções às tarjas-pretas e esses hobbys caretas, esquecendo-se remediar sua úlcera estomacal com um café amargo, queimando a língua e às vezes, manchando sua mesa e o piercing prateado.
Lá se foi la niña, buscando suas gramas de café, o qual dignamente vinha agora, elevava-se à sua seiva. Caminhando rumo ao elevador do prédio, ela acabou por perceber uma notoriedade sobre si: um senhor vizinho, não conseguia parar de olhá-la, e que estranho! Não houve ao menos, nesta situação, com um bom dia a saudá-la!
Depois no mesmo elevador, acomodaram-se quinze pessoas - dez a mais acima do peso recomendado pelo órgão competente, fiscalizador destas máquinas e regulamentado por lei. Ela estava ao meio de todos e todos a olhavam. Um cão, lá dentro latia, latia, uivava e latia, impacientando sua dona adolescente. Quando o cachorrinho viu à menina, imediatamente se aquietou ao colo da outra patricinha que também se perdia no que via – à vizinha – e ali quieta ficou, contemplando àquela atmosfera calma, leve, solta: -“Novas experiências, gata! - pausa - Algo pré-orgiástico e mutante, saca”? - fez nova pausa – “Barriguilha aberta, cara”! - pausou mais uma vez – “Saudações e harmonia”! Palavras proferidas de um neo-hippie, morador do quinto andar, pretenso candidato a vereador municipal, através de um partido, cuja tendência ideológica, era considerada niilista e utópica.
Ela saiu a passos largos do elevador e todos a seguiam. Não entendia: “Jamais fui alguma celebridade, ou uma lady. Ao menos se eu fosse bonita”!- Assim, pensava a magrela menina. Tratava-se de uma pessoa comum, pós-adolescente, em fase pré-independente, totalmente decadente!
Ela tinha olheiras e um sinal de nascença da largura de um polegar em sua bunda. Mas o rabo nunca fica à vista entre segundas e quintas! Olheiras são normais nos badaleiros, baderneiros e bandoleiros: pouco dormem, ou sonham sonhos quase sempre químicos, e se não são caretas, são careiros. Mas podem ser drogueiros! Por que não?
Suas olheiras nada representavam na tal celebração dos quinze minutos fama. Pois a padaria era próxima, ou mais longe um pouco, e pouco a pouco, nela se chegou, enquanto todos prestavam atenções, na falta do que se ausentava no íntimo de sua pureza.
A garota adentrou pelo comércio assustada, quase furiosa! O padeiro cortava um pão com uma faca de serra, ao desviar-lhe os olhos, amputou à própria mão. Um gato que por lá vagava, parou com seu inconveniente miado e permaneceu estático, vidrado na moça que acabara de aparecer, repentinamente. Ela pediu o pão e o balconista, em tamanha dispersão, fixava o olhar nela quase cuspindo as pupilas fora de si. Tão logo, a moça, tomou algumas liberdades, atravessou o balcão e embrulhou seu café e o seu pão.
Ao pagar a conta, toda a gente, encontrada na fila da máquina registradora, com a mesma finalidade da protagonista desta variação, acabaram por abrir espaço para que a moça passasse, e a atendente, tão desconexa, ao vê-la pessoalmente, rasgou, num lapso,  uma cédula, a qual manuseava. Com a nota dividida, todas as moedas caíram ao chão, o que deixou seu café e pão, por conta da casa.
Mas na rua, a volta foi pior. Uma mulher a olhou, insinuando um beijo indiscreto; um rapaz ajeitou o pênis para o lado, no momento que para ela se voltou. Uma idosa deu uma bengalada nela e um policial militar, com muita raiva, desceu o porrete na velha!
Ela não agüentou. Desentendia tanta atenção voltada para si, avistando até holofotes e corria, corria, corria no caminho a casa ou apartamento, ou quitinete, ou o que fosse! No itinerário obrigatório do lar, ao cruzar sua rua como numa maratona olímpica - Rua André Cavalcanti, situada no bairro de Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro -, estendeu-se um tapete vermelho até a entrada de seu prédio. A torcida empolgada, esperançosa, convulsiva por medalhas, entoava palavras de ordens, à sua vitória! Ela arrebentou eufórica a linha de chegada e já no pódio, recebeu uma medalha de ouro e odes variadas.
Entrou correndo em seu apartamento, e no interior dele, andou de um lado ao outro, desesperada! Foi à varanda e percebeu um grande tumulto por ali afora: - “Então chega deste papo”!- disse soltando a vira-latas para dar umas voltas matinais, pelo corredor do andar, enquanto deixava a porta encostada e o animal entrasse quando quisesse!
Enquanto isso, como passatempo, resolveu escutar e relaxar sobre a sonoridade de Maysa Matarazzo . Assim, selecionando a música num antigo CD da cantora:

NE ME QUITTE PAS
IL FAUT OUBLIER
TOUT PEUT S´OUBLIER
QUI S´ENFUIT DÉJÀ


Embalada ao som de Maysa, nossa vítima, era abduzida pelo requinte à cultura francesa, mesmo encenada pelo lis dos Brasis, ao que possivelmente, ela se apega, na espera de alguém importante, pactuando na fantasia da paz e de sua alma temperamental, que envolvida nesta releitura se assenta, bebendo do bom uísque com cara de romena. Acende um charuto, apaga-o, masturba-se, chora e viaja sorrindo. Boceja, transgride dizendo:-“Soninho”!-. Transmuta-se à luz da sala. Desliga-se da balada.
Até que essa calma, mais parecendo predestinada, fora rompida com o latido da cadela aculturada. Late, late, late. Ela quando dividiu socialmente os trabalhos da casa entre as duas, uma das funções, era a vira-latas sem nome, substituir a campainha queimada. E quando late, quer dizer: visitas, gente, polícia! Ela e sua cachorrinha correram para baixo da mesa da cozinha, onde assustadas, ficaram aos cuidados do clássico melódico francês:

MOI JE T´OFFRIRAI
DES PERLES DE PLUIE
VENUES DE PAYS
OÙ IL NE PLEUT PAS
JE CREUSERAI LA TERRE
JUSQU´APRÈS MA MORT
POUR COUVRIR TON CORPS
D´OR ET DE LUMIÈRE
JE FERAI UN DOMAINE
OÙ L´AMOUR SERA ROI
OÙ L´AMOUR SERA LOI
OÙ TU SERAS REINE
NE ME QUITTE PAS
NE ME QUITTE PAS
NE ME QUITTE PAS
NE ME QUITTE PAS


Mas não era nada de mais, a não ser o zelador, sempre sorridente, entregando algumas cartas, que o correio havia deixado na portaria. Apenas uma chamou atenção dela. Remetida por um laboratório, onde dias atrás, examinou-se. Abriu o pequeno envelope quase o rasgando totalmente. Então caiu num pranto convulsivo e vomitou no sofá. É sim, estava grávida de cinco semanas, apesar de já desconfiar - da gravidez, não do pai, claro! Aproveitou um momento de enjôo e vomitou novamente no mesmo sofá. A cachorrinha sem nome, acompanhou à dona, vomitando também, mas no caso dela - o canino -a situação era quase resolvida, já que teria cruzado com um pastor alemão, residente no apartamento 206 daquele edifício.

RODRIGO PINTO
Enviado por RODRIGO PINTO em 29/01/2005
Reeditado em 10/04/2010
Código do texto: T2822

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Sobre o autor
RODRIGO PINTO
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 98 anos
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RODRIGO PINTO