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Charles Patrick e a Doutrina do Pensamento Imanifesto

“Se o que se pretende é esconder-se do permanente ou, na melhor das hipóteses, transitoriamente desagradável, de nada adiantam as portas trancadas a chave, que sempre têm quem as bata, e mesmo os sonhos são inúteis, pois, pelo menos em tese, são manifestações do subconsciente (também em tese é possível controlar os próprios sonhos via auto-sugestão; porém, para não cairmos em delongas inúteis, fiemo-nos apenas na primeira das teses), e neles se apresenta até (ou principalmente) o que não queremos ver. Dirá alguém que o último e mais perfeito refúgio é a Poesia, o ato poético, que erige em redor do momentâneo poeta a solidão absoluta, o seu doentio deleite. Mas até desse encontro solitário de alguém com sua alma nos supostos confins do individual há um testemunho, e este é vivo e eterno: a tinta no papel. Não faltará quem leia o poema, e não tarda a desfazer-se o muro de simulada solitude. Assim, não podemos inferir senão que o único recôndito definitivo, a câmara impenetrável, a máxima elevação que se reserva ao indivíduo é o pensamento imanifesto.”

Isto dizia o tratado de sir Charles Patrick, um inglês delirante como qualquer compatriota seu do século XIX. O trecho aqui reproduzido pertence ao quarto capítulo de seu volume O Pensamento Imanifesto e a verdadeira liberdade individual – que certamente escreveria se lhe tivesse sido possível  – e muito bem sintetiza toda a sua doutrina filosófica: a do pensamento contido. Como se pôde verificar, segundo Patrick, o indivíduo só estará plenamente livre para se desenvolver e obter o que idealiza – e somente assim poderá ser chamado de indivíduo –, ao guardar para si todo o seu ideário particular. O fabuloso filósofo londrino finalmente descobrira o que se procurava havia séculos ou mesmo milênios. Sim, certamente milênios. Desde que se começou a viver coletivamente, portanto, ao que se infere, desde o início de todas as coisas, os homens buscam maneiras de estarem sozinhos, longe dos grupos. Apenas alguns deles, é certo. E estes foram, por todo o curso histórico, considerados os gênios da humanidade. Aqueles que conseguiam atingir o que, irrisoriamente, depois de Charles Patrick, chamava-se solidão. Uma apenas pretendida solidão, que hoje é sabida como um mero resquício das profundezas individuais. Foram os poetas, os pintores, os escultores – os artistas, em suma– e os filósofos. Que ao se confinarem nas mais altas montanhas por décadas inteiras acreditavam-se indivíduos sábios e plenamente desenvolvidos como ser singular. E realmente o eram, porém tudo se desfazia instantaneamente: bastava que migrasse para o papel – para as telas e os materiais rocho-argilosos, no caso dos pintores e escultores, respectivamente – todo o resultado de sua, criam, inquebrantável meditação, ou que o transmitissem a um discípulo. Seria o estritamente necessário para que surgissem más interpretações, críticas e discórdias, e mesmo os que apoiassem a nova ideologia procurariam aplicar-lhe seus próprios aspectos, adaptando-a a si, o que não admite jamais a doutrina de sir Charles, que, se pudesse ter sido publicada, povoaria de homens perfeitamente livres a superfície terrena. Mas, quem foi esse homem? Acompanhemos uma breve síntese do que foi o fenômeno Charles Winston Patrick, seguindo devidamente sua trajetória cronológica.

É sabido de Charles Patrick nasceu no ano de 1832, em Londres. A data exata permanece um mistério: não comemorava aniversários. O pai era diplomata e constantemente fazia viagens ao que se chamava América. A mãe, sempre em casa, criou-o para ser um verdadeiro gentleman, e realmente o foi, um dos fatores que certamente pesaria a favor de Charles caso pudesse enunciar a filosofia que elaboraria anos mais tarde, dando-lhe crédito perante tanto a sociedade dos letrados quanto a dos ignorantes. Tocava piano e tratou de ensinar ao pequeno Patrick a música, um fator que foi fundamental para o desenvolvimento e maturação de sua Idéia. As noções de ritmo, tempo e compasso conferiram-lhe uma autodisciplina que só descobriu em si quando se iniciou no estudo dos sofismas, ao ingressar na universidade, isto em 1848. Até aí, experimentara de dois sistemas de ensino: um clérigo ia ensinar-lhe em casa as primeiras letras e operações matemáticas. Aos dez anos, foi com a família morar nos Estados Unidos – as viagens do pai eram cada vez mais freqüentes, a mudança realmente parecia o mais sensato a se fazer – e matriculou-se numa escola católica. Como em seus primeiros anos na Inglaterra, no Colégio não desenvolveu amizades, pelo menos é do que se tem conhecimento. Foi no ensino secundarista que começou suas incursões pela Poesia. A princípio, divagava sobre as coisas secretamente – eram poemas metafísicos – e não parecia de maneira alguma insatisfeito por manter-se anônimo. Todos sabiam que escrevia, mas, por desejo do autor, nada era lido. Até que se decidiu por declamar algo em uma cerimônia local – já se esboçava no jovem Charles um homem de experimentos –, da qual saiu aplaudidíssimo. Repetiu a apresentação em outros eventos e começou a ser apontado como um futuro grande poeta. Não, já como um grande poeta. Porém, após esse período de publicidade, perdeu subitamente a vontade de recitar e logo a de escrever. E caiu numa abulia profunda da qual só se ergueu quando chegou o Natal de 1847 e começou a preparar suas bagagem: no mês seguinte, instalava-se em Harvard e iniciava seus estudos de Filosofia. Certamente o melhor para si, o que se comprovou com sua imediata fascinação pelos sofismas. Preencheu cadernos inteiros com silogismos de elaboração própria. Encantava-o a imutável estrutura de premissa maior, premissa menor e conclusão. Um sofisma perfeito que obtinha era a consagração de sua capacidade de raciocinar. Êxtase. (Observem que o gênio começava a se descobrir a si mesmo.) Mas, tal como com os poemas, ao cabo de alguns meses o ofício tornou-se tedioso, e o jovem e promissor filósofo lançou fogo aos cadernos. E passou a sofismar somente para si mesmo, sem papel, pena nem tinta. Apenas o aparentemente simples exercício mental – como já se disse, sem anotações de qualquer tipo. Foram mais meses de muitas horas por dia de puro devaneio. Mas com a imbatível vantagem de não se precisar desviar a atenção ao que se faz ocupando-se com anotações inúteis. Charles podia, mesmo em de sala de aula, durante a exposição do mestre, desenvolver sua filosofia. Sem desviar as mãos, sem desviar os olhos. Assim, deu início a um complexo e interminável jogo de sofismas consigo próprio, que perdurou até a metade de seu segundo ano na universidade, quando o pai faleceu de uma apoplexia fulminante. Decidiu, então, voltar à Inglaterra. Deixou a mãe na América, à assistência do governo inglês, e retornou a Londres, garantindo-se na parcela da pensão que poderia retirar todo mês. Lá, envolveu-se com inúmeras mulheres, passou a freqüentar clubes e a assistir a debates filosóficos e literários – sem nada opinar, logicamente. Tornou-se um temível observador. Um maníaco que apenas raciocinava e guardava para si tudo o que era capaz de supor. Depois de mais seis anos de puro experimentalismo – desta vez, o experimento definitivo –, conversando apenas o que não permitia que trespassassem as fronteiras de seu cérebro suas opiniões acerca das coisas – banalidades – e levando assim uma vida social espantosamente – espantosamente por não haver sido tentada antes – saudável, sem discussões de qualquer natureza, sentiu-se finalmente pronto.

Nos dois anos seguintes, com sua filosofia amadurecida por completo, devidamente preparada para ser executada por qualquer indivíduo, Charles Patrick dedicou-se a estudar como poderia transmiti-la, o que logo se lhe afigurou impossível: a Doutrina do Pensamento Imanifesto não poderia ser seguida por qualquer indivíduo, mas apenas por aquele que a idealizou. Ora, se apenas recolhendo para si tudo o que é capaz de inferir alguém pode ser considerado um indivíduo, o criador dessa doutrina, caso decidisse publicá-la, deixaria de ser um indivíduo, a doutrina perderia sua validade, e não haveria mais criador nem criação alguma. Eis o impasse, a cilada mortal em que se metera sir Charles Patrick, acuado de maneira fatal por sua própria filosofia, tão laboriosamente lapidada durante anos. Um conjunto de idéias que, via tratado científico, despertaria por definitivo a sabedoria nos homens, que seriam livres para sempre, dentro de suas próprias mentes. Poderiam pensar o que quisessem, aventar os absurdos que lhes desse vontade de aventar, elaborar as teorias que se lhes mostrassem coerentes, mesmo que aos outros parecessem casos de se acionarem os serviços do manicômio. Seria, sem dúvidas, a única – e, paradoxalmente, a mais acessível – tábua de salvação ao homem, que viveria na coletividade sem mais discussões e debates imprestáveis. Mas, não. Charles Patrick provou ser um verdadeiro homem no momento em que decidiu por fim manter válida sua doutrina e não enunciá-la. Sacrificou a tentação de tornar-se o herói dos heróis para fazer viver a mais magnífica Idéia da história das sociedades. E, se ela não poderia ser de toda a humanidade, que fosse de seu mais valoroso indivíduo, aliás o único a quem se pode chamar realmente indivíduo, sir Charles Winston Patrick.

Assim, Patrick levou adiante sua ideologia. Mudou-se em 1858 para Glasgow, na Escócia, e verdadeiramente viveu sua filosofia, com toda intensidade, durante cinqüenta anos. Aqueles que lêem ou ouvem este relato devem, por certo, perguntar-se como alguém pôde tomar conhecimento da Doutrina do Pensamento Imanifesto, pois, ao ocorrer tal fato, seus postulados se anulariam e logo não se tomaria conhecimento de nada. A resposta é das mais simples: chamo-me Charles W. Patrick e sou um traidor de minha doutrina.

Glasgow, 1908.
Igor Miná
Enviado por Igor Miná em 06/11/2006
Código do texto: T283341
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Sobre o autor
Igor Miná
Fortaleza - Ceará - Brasil, 33 anos
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