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PRESENÇA INCÔMODA




Quando o cadáver encalhou na areia era meio-dia. Há séculos e séculos as sinistras doze badaladas da noite – sejam elas vindas do sino da igreja ou do relógio na parede da sala – anunciam coisas aziagas. Mas poucos já repararam que as doze badaladas diurnas também trazem maus presságios. Só alguns poucos e raros antigos é que ainda costumam se persignar quatro vezes por dia, às seis e às doze. Bem fazem os muçulmanos, ao reverenciar Alah cinco vezes ao dia. De que vale um homem sem um deus?

O cadáver já estava inchado. O sexo só seria identificado se alguém se preocupasse em abaixar suas calças. Os primeiros a notar sua presença foram os jogadores de frescobol. Porque ali, exatamente ali onde o cadáver atravessara, haviam combinado de praticar o seu exercício diário. Ainda tentaram ignorar sua presença, mas todas as vezes que a bola caía sobre aquele corpo incômodo, fazia um som estranho e não mais saía do lugar. Era necessário que alguém fosse até lá e pegasse a bola, e era difícil fazê-lo ignorando o corpo. A praia já estava cheia e seria difícil conseguir outro lugar para jogar, sem acertar a cabeça dos transeuntes. Assim, o melhor que puderam fazer foi arrastá-lo dali para um local onde não incomodasse tanto. Quatro atletas foram necessários para removê-lo para outro local.

Não fosse um dia de domingo, o cadáver poderia ter continuado ali indefinidamente, até que um belo dia as equipes de limpeza da praia resolvessem recolher o lixo, num tranqüilo dia de semana. Mas, infelizmente, não tardou a ser descoberto pelas crianças, que perceberam que nem respingos de água nem punhados de areia atirados ao ar incomodavam o pacato visitante. Os pais, mais preocupados com a temperatura da cerveja e o preço dos petiscos, ficaram mais sossegados ao perceber que as crianças encontraram alguém com quem se entreter, evitando que a cada meia hora tivessem que descobrir onde teriam se enfiado.

A primeira coisa que elas tentaram fazer foi cavar um buraco para colocar o cadáver dentro. Claro que ele não iria se incomodar com a velha brincadeira de enterrar o amiguinho. E mais, esse amiguinho, eles poderiam enterrar inclusive a cabeça. Porém, logo perceberam que o buraco teria que ser muito grande e profundo para caber aquele corpanzil e, então, optaram pela alternativa mais fácil: enterrá-lo em alto relevo, jogando areia por cima. Isso demorou menos tempo – o que as crianças acharam ótimo, já que rapidamente enjoam de novos brinquedos – e logo se viram livres para outras travessuras.

O cadáver ficou lá, de papo para o ar, a imensa barriga cheia d’água destacando-se em seu contorno, à milanesa. Mas logo sua presença incômoda passou a atrapalhar os vendedores ambulantes. Alguns o saltavam, outros tropeçavam e terceiros pisavam-lhe em cima, provocando esguichos de água pelos seus orifícios. Em pouco tempo o cadáver já estava novamente exposto ao sol, e bem mais bronzeado. Sua coloração, agora, era de um roxo avermelhado, com manchas mais claras, provocadas por queimaduras da areia. Estava menos inchado, após tantas pisadelas. O seu cheiro misturava-se com os dos queijos assados na brasa, os camarões nos palitos, o caldos de mariscos, os pirões de caranguejo – ninguém o notava. Alguns cães fizeram nele suas necessidades, contribuindo para a alimentação dos siris que saíam das suas órbitas, olhos já devorados.

À tarde - quando os ébrios já haviam se recolhido para o sono vespertino e a praia geralmente ficava mais vazia - chegou a turma do futebol com suas bolas, isopores de cerveja, redes, uniformes e óculos escuros. O cadáver estava lá, estirado bem no meio do campo virtual, que só os olhos dos experts veriam: ali a linha lateral, acolá a linha de fundo, até o ponto do pênalti conseguiam ver. O cadáver teria certamente sido mais uma vez jogado de lado não fosse uma casualidade: faltava uma trave. Uma família inteira (e das boas, daquelas com mais de vinte pessoas) achara de comemorar o aniversário da matriarca com um lauto churrasco e, na falta de lenha, um dos postes alimentou o fogo. Como o defunto já estava duro como um porrete, alguém teve a genial idéia de cravá-lo na areia, sentido vertical, amarrando nele as redes. E lá ficou, tivesse olhos poderia até ter se divertido, e não apenas sofrido com as boladas na trave.

Já no final da tarde, maré alta, chegaram os surfistas. Os jogadores de futebol já haviam encerrado suas atividades e lá continuou o cadáver, fincado na areia, como uma prancha. “Será que bóia”, perguntou um rapaz de pelos amarelos. “Só”, respondeu outro. O cadáver pegou a maior onda. Tubos, giros, esteve literalmente na crista da onda, disputado por todos. Até bater numa pedra. A parte mais frágil, o pescoço, partiu-se. Ainda tentaram utilizar o corpo para surfar, mas a estabilidade já não era a mesma e tiveram que abandonar o instrumento na areia, corpo estirado, a cabeça sobre a barriga, até irem embora.

À noite, grupos de casais chegaram para um lual, que entrou pela madrugada. Música, bebidas e algumas drogas leves animaram a festa. Ao final, já todos nus, molhados, zonzos e excitados, entregaram-se a uma orgia sem igual. Homens, mulheres e afins não se diferenciavam, num vale-tudo inenarrável. Nem o cadáver teve seus orifícios e protuberâncias poupados.

Pela manhã todos voltaram às suas casas. A semana recomeçava, de novo a rotina monótona dos cinco dias úteis. Uma das moças abotoou-lhe a camisa, sacudiu-lhe a areia do corpo, fechou o zíper da calça, ajeitou seus cabelos, colocou a cabeça debaixo do seu braço direito. O cadáver aparentava calma e, tivesse, língua, teria dito um “muito obrigado”. Pronto e resignado com sua sorte, como quem espera um ônibus para ir ao trabalho na manhã de segunda-feira, esperou.

Uma chuva fina lavou sua alma. As ondas encarregaram-se de lhe dar um enterro digno.

Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 06/11/2006
Reeditado em 24/08/2011
Código do texto: T283493
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Goulart Gomes
Salvador - Bahia - Brasil, 51 anos
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