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Faniquito

 Três da tarde.Fórum cheio.Passos largos, apressados.Ansiedade.Fome.Irritação.Medo! Medo!Por que não?!Afinal, a fama do juiz que julgaria o caso não era muito positiva, ele espezinhava o causídico que não demonstrasse segurança, o fazia, engenhosamente, chegar à amarga conclusão de que não era lá muito esperto.E suas decisões eram duríssimas, bem fundamentadas, melhor nem recorrer....

  Audiência iniciada, preparação para o pior.Já era!Seja o que Deus quiser...

E ele, sob olhares atentos, receosos, chega, senta, abre o processo, lê e fala com voz grave:

 

-As partes e seus representantes, queiram se sentar.

 

Neste momento ele dá voz à parte autora, que, tremendo, explana seu motivo de estar ali.

 

-Decida-se, qual fato a senhora sustenta verdadeirobrada o magistrado

-Excelência eu...

-Já deveriam saber o que dizer. interrompe o juiz

-Exce... Tenta a parte, em vão, retornar ao assunto.

-Porque depois ficam falando que a justiça é lenta e ineficaz!

-Excelência eu gostaria de...

-Mas os próprios operadores a obstruem, prejudicando a apuração dos fatos e a celeridade.

-É um absurdo!

-Excelência, peço a palavra.Pede o advogado suficientemente amedrontado.

-Por favor!concede o juiz.

-Excelência, não há contradição alguma, sustento o que está nos autos.

-O que?!?!?!?! Está dizendo que não li o processo?Está me melindrando?

-Não senhor, é que eu...

-Olha que te dou voz de prisão, hein!

-É muita falta de respeito com o ser humano!!

 

O temido magistrado insistia em seu monólogo, para perplexidade de todos os presentes.Algo estava acontecendo.Aquilo, definitivamente não era normal.

 

-Pode falar a parte contrária!

-Mas Meritíssimo, não concluí.Diz a outra parte, com lágrima nos olhos.

-Cale-se!!!

-Eu não agüento mais decidir a vida alheia, estou esgotado!! E a minha pobre vida, quem resolve?!?!

-Hein,hein,quem resolve?Digam!!!! Gritava em tom de confissão.

 

Enquanto todos esperavam uma atitude, por assim dizer, magistral, ele demonstrou todo seu desespero e subiu na mesa, sapateando loucamente e girando os braços no melhor estilo Fred Astaire e gritando impropérios a ponto de estremecer a sala...

Todos estarrecidos assistiam sem entender o porquê de tamanho descontrole.Alguns correram, outros desmaiaram e ele continuava...

 

-Vocês são adultos ou criancinhas?Não conseguem resolver um problema sem a ajuda da justiça?!

-Por acaso sabem a quantidade de casos idiotas e insignificantes como este, que temos que julgar diariamente?Sabem?!?!?!

-Não, não sabem!Seus imbecis!!

-Vocês mereciam sabe o quê?

-Não senhor!Respondeu inocentemente a única estagiária que permanecera na sala.

-Alfafa!!!

-Leva isso daqui!!!!!Gritou, chutando pilhas e pilhas de processo.

-O senhor, por favor, se controle!Disse o corajoso membro do ministério público.

-E quem é que está descontrolado, meu filho?!??! Urrava,arrancando os poucos cabelos que ainda tinha.

 

 

Cansado de tanto esforço, olhou em volta, desceu da mesa, sentou no que sobrara da cadeira e pôs-se a chorar copiosamente.Lembrava do momento em que, ao iniciar a audiência, olhou rapidamente pela janela e viu Rodrigo Alberto, seu bofe, aos beijos com Júnior uma mulata f-e-n-o-m-e-n-a-l, estava tudo acabado...

Rachel Souza
Enviado por Rachel Souza em 10/11/2006
Reeditado em 10/11/2006
Código do texto: T287877
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Sobre a autora
Rachel Souza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Rachel Souza