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FLOR-DE-LIS

     Acontece cada uma nessa minha desfrutável cidade de Atibaia que nem São Tomé acredita! Dessa vez, porém, não me agüentei e tive de conferir o despautério, porque meu espírito relinchava de curiosidade só de pensar que diabos motivara aquela singularidade sem precedentes.
     Li a coisa num sábado de manhã, dia em que as bancas daqui costumam vender essa excelentíssima página de boçalidades triviais, misto de bestialógico político e diarréia literária, que delicadamente chamamos de jornal, por falta de nome mais adequado e menos obtuso. Pois eu me encontrava lendo esse proveitoso periódico que não vou nomear porque estou com preguiça, quando dei com uma pequenina nota na seção dos classificados, que dizia o seguinte:
     “Vendo caixão com pouco uso, somente à vista. Favor ligar apenas os interessados”. E assinava: “tratar com Flor-de-lis”. Em seguida, vinha um número de telefone e uma observação, cuja finalidade certamente seria a de incentivar os possíveis compradores para adquirirem logo o produto: “grátis brinde especial”.
     Ah, Flor-de-lis, você não é uma qualquer! Você é especial, como seu brinde, e vê-se logo que se trata de pessoa fina e espirituosa. Caso contrário, jamais encontraria palavras tão perfeitas para vender seu peixe, digo, seu esquife. Todo seu anúncio é um primor de estilo e eloqüência. Creio que ele deveria figurar em antologias, em anuários de publicidade, pois é simples e poético como uma vaca urinando ao entardecer. Não, Flor-de-lis, a comparação não presta. O seu anúncio tem a sutileza da flatulência silenciosa num elevador lotado.
     As palavras iniciais, “vendo caixão”, já demonstram o seu espírito sagaz. Posto que não seja muito usual tal prática e artigos desse calibre não costumam figurar em nossa interessantíssima seção de classificados, o teor de sua mensagem nos leva a crer que, em momento algum, você se sentiu humilhada por ter de vender um produto de primeira necessidade como este que anuncia. Cumpre lembrar, que lhe cabe o galardão dos justos, pois foi sincera a ponto de escrever a muito honesta frase: “com pouco uso”. Você não quer vender gato por lebre e estriba-se naquele edificante adágio que diz: “cliente satisfeito é a alma do negócio”. Mesmo que o cliente em questão tenha pouca probabilidade de voltar, conforme prova a maioria das estatísticas. Mas a sua sinceridade, Flor-de-lis, muda tudo. Você não está vendendo um caixão qualquer, mas um usado, ou seja, de segunda mão. Já foi amaciado por outro freguês e sabe-se lá em que condições. Mas isso não me espanta. Aliás, depois que li seu anúncio, nada mais me espanta nessa vida. Confesso, porém, que tenho certa curiosidade em saber por que cargas d’água um caixão vem a ser desocupado por seu primeiro inquilino! Não é costume das pessoas normais trocar o féretro dos entes queridos, como se troca um lençol da cama. Nem os mais perturbados têm desses rompantes excêntricos. De qualquer forma, Flor-de-lis, há de se tirar o chapéu para a sua inteligência rutilante. Teve, inclusive, o cuidado de meter no anúncio a mimosa frase “somente à vista”, demonstrando juízo deveras atilado, uma vez que, nesse ramo, não é muito seguro vender à prestação. Porém, o que mais me tocou, foram estas palavras deliciosas “favor ligar apenas os interessados”. Isto sim é um achado literário grandioso e profundo. Escritores vendem a alma por achados literários desse naipe e você os vai parindo com a naturalidade fresca de um arroto dominical após jucunda macarronada. Veja que, de uma só bordunada, esta frase já descarta todas as pessoas sadias, limitando-se apenas a um séqüito estranho de possíveis clientes, onde se encontram os achacadiços de toda espécie, os catarrosos, os podres, os decrépitos, os com os pés na cova, enfim, uma leva macabra e desgostosa de moribundos. Nem por isso, Flor-de-lis, você deixou de mostrar a grandeza de sua alma, quando prometeu a oferenda de um vantajoso brinde, derradeiro conforto para seu candidato a cadáver. Acrescente-se que não se trata de um brinde qualquer, mas especial. Confesso que por um instante, tive receio de que o brinde fosse o próprio defunto, mas logo vi o erro em que eu incorria, pois seu temperamento jamais poderia se coadunar com sarcasmos desse quilate.
     Finalmente, resolvi ligar para o número anunciado.
     Respondeu-me uma voz de moça.
     - Já foi vendido.
     - Que pena! Você poderia me dizer qual era o brinde especial?
     - Um terço, respondeu Flor-de-lis.
     - Um terço! Exclamei levemente desiludido.
     Imagino que ela percebeu a decepção em minha voz e explicou:
     - O terço era da minha sogra. Meu marido queria guardá-lo de recordação e você não imagina o trabalho que nos deu para ficar com ele.
     - Trabalho? Não estou entendendo...
     - Pois é. Foi uma luta para pegar o terço na hora de fechar o caixão!
     Ainda sem compreender, indaguei:
     - Mas não era só tomá-lo das mãos de sua sogra?
     - Ah, sim! Retrucou a moça.
     Antes de desligar o telefone, porém, ela esclareceu:
     - Mas quem disse que a velha queria largar o terço?
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 11/11/2006
Código do texto: T288594
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
46 textos (2946 leituras)
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