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A VERDADEIRA HISTÓRIA DE LURDINHO

          Quando Lurdinho nasceu, sua mãe ficou desesperada e quase teve um troço.
          - Ai, meu saco, dizia sem se conformar, rolando pelo chão suas banhas e estrias cavernosas, é homem! é homem!, e descabelava os cabelos de sua peruca gordurosa, porque ela tinha ficado mais careca do que queijo Palmira.
          O motivo de tamanha aflição é que a pobre senhora havia se comprometido com sua santa predileta, mais precisamente, Nossa Senhora de Lurdes, num caso de promessa e das peludas. Ao que consta, a dita senhora, que se chamava Onofrina, por alcunha, a perebenta, prometera dar o nome da Virgem à sua criança caso a santa curasse uma pereba cabeluda que tinha lhe nascido bem no meio da cara e que não havia jeito de sarar, nem com as pragas, mandingas e beberagens daquela bruxa catimbauzeira, a tal de Maria Margosa. Que essa Onofrina não é para falar, mas é uma criatura que não vale água de salsicha, sai da missa para se enfiar nos terreiros de catimbós. O fato é que a beronha peluda sumiu da cara da infeliz assim como veio, não se sabe ao certo se por obra da santa, da bruxa ou de outras que tais. Certo mesmo é que os cabelos também se foram nessa brincadeira, mas não se pode exigir tudo nesta vida. O que ficou foi a promessa, a dívida divina, daí que o desditoso menino acabou sendo Lurdinho mesmo e, dessa forma, miseravelmente, a vida já lhe veio estropiada desde o útero.
         Porque não tem jeito. Quem possui um nome cretino destes está fadado a ser um banana na vida, um palerma frouxo sem que ninguém lhe leve a sério, sem que nunca lhe façam quaisquer vontades. E não foi outra cousa que aconteceu com o desventuroso Lurdinho por toda a sua risível existência.
         Quando o menino fez dez anos, dona Onofrina decidiu que daria uma festa arretada para fazer inveja na vizinhança e deixar toda aquela gentalha futriqueira espantada. Como ela era muito boazinha, deixou que Lurdinho escolhesse o prato que mais lhe apetecesse para ser servido nesse repastoso festim:
          - Olha mamãe, o que que eu mais queria era uma bela panelada de tutu!
          Pois digo que chegou o dia do inauditoso repasto e a vizinhança ficou realmente espantada. Não tinha um docinho, um brigadeiro que fosse, nem bolo, muito menos qualquer outra iguaria que lembrasse de longe tutu. Só havia uma canja anêmica e de duas uma: ou a galinha era doente ou a cozinheira estava bêbada, porque vou te contar, já vi ração de porco mais nutritiva e saborosa do que aquela lavagem.
          Mas Lurdinho foi crescendo assim mesmo, um babaquara de pai e mãe, mais de mãe, porque o pai tinha juízo e já havia sumido no mundo há muito tempo. Quando chegou a época do casamento do rapaz, a noiva simplesmente lhe comunicou:
         - Benhê, eu mais sua mãe resolvemos fazer uma festa porreta no dia do nosso casamento para calar a boca da vizinhança, essa gentinha despeitada. Se quiser, você pode escolher o menu.
         - Olha, Abigail (a moça chamava-se Abigail), por mim eu gostaria mesmo era de uma boa panelada de tutu!
         Nem preciso dizer que não houve tutu algum. Parece que dona Onofrina mantinha alguma tara secreta no que diz respeito a galinha lavada, porque nunca se teve notícia de servirem tanta canja numa festa de casamento. Freud, se puder, que explique.
         Depois de muito tempo, já quando Lurdinho ia se aposentar, ele foi eleito operário-padrão na fábrica em que trabalhava. Para comemorar a aposentadoria e a ilustre distinção que haviam lhe conferido, a filha de Lurdinho resolveu dar uma churrascada de arromba, apenas para mostrar à vizinhança que eles estavam podendo. Chamou o pai num canto e disse:
         - Pai, o senhor gostaria de mais alguma coisa além do churrasco?
         - Minha filha, disse Lurdinho lambendo os beiços e esfregando as patas, se não for muito incômodo, eu daria o cavaco por um pratinho que fosse de tutu!
         Lamento dizer que no dia marcado não houve churrascada, muito menos tutu. Parece que tinha baixado o espírito suíno de dona Onofrina, que por essa época já havia empacotado para sossego da vizinhança. Escusa-me comentar qual foi a refeição servida naquela tarde opulenta. Basta dizer que se toma às colheradas e rima com franja.
         E assim se gastou a vida inteira do infortunoso Lurdinho. A derradeira tentativa de consumar aquele desejo visceral de comer tutu que lhe roía a existência foi quando o infeliz caiu doente no hospital. O médico, um sujeito bojudo e clorótico que gostava de apalpar as enfermeiras pelos corredores, chegou-se à beira da cama e lhe comunicou a definitiva notícia como quem conta uma anedota sem graça:
         - É, seu Lurdinho, o senhor não passa de amanhã! Por acaso você não teria um último desejo?
         Fez-se silêncio no quarto e todos puderam ouvir claramente um fiapinho de voz que escapou timidamente do peito do pobre moribundo, apenas um sussurro dolorido:
         - Tutu... tutu...
         - Ah!, disse o médico, tutu não pode, porque lhe aumenta o colesterol.
         Mas o filho de seu Lurdinho, um caboclo sarará que até então estava amoitado no seu canto, levantou-se de supetão da cadeira em que se encontrava e bradou furibundo:
         - Vá merda o diabo do colesterol! Se não trouxerem esse raio de tutu para o véio se empanturrar a vontade, eu furo um hoje aqui! E mostrou uma peixeira azeitada que trazia inocentemente amarrada à cintura.
         Não teve jeito. O argumento do homem possuía a força persuasiva de um sofisma irrefutável que não deixava margens para réplica. O médico chamou uma das enfermeiras que ele costumava apertar e lhe disse:
         - Vá até a cozinha e mandem preparar logo uma panelada de tutu para este paciente antes que ele desencarne.
         Três horas depois, voltava a enfermeira trazendo nos braços uma panela fumegante de tutu, de onde se depreendeu um cheirinho gostoso de comida caseira quando foi retirada a tampa. Os olhos de Lurdinho cravaram-se arregalados na malga de louça em que a enfermeira ia servindo a apetitosa refeição e seus lábios babões, trementes de êxtase, apenas conseguiram pronunciar a palavra amada que lhe alimentara os sonhos desde a mais tenra idade:
         - Tutuuuu!...
         O desejo de toda uma existência ia se realizar, a comunhão de todos os seus ideais convergiam sublimemente para se concretizarem naquela derradeira refeição e a vida, enfim, parecia fazer algum sentido. Mas no supremo instante em que ia dar a primeira colherada, naquele curto hiato de tempo que vai da mão à boca, o malfadado Lurdinho sofreu um infarte fulminante e caiu morto sem sequer estrebuchar. No mais, toda a panelada de tutu desgraçadamente foi jogada no lixo, porque ninguém se arriscou a comer aquilo, visto que todos ali gostavam mesmo era de canja.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 12/11/2006
Código do texto: T289158
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
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José Antonio Martino