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BEIJANDO O SENHOR MORTO

Naquele tempo, não havia muito que fazer numa cidade pequena e sem opções de lazer. Talvez por isso é que esperávamos tanto por São João, 7 de Setembro, Páscoa, Natal, São Pedro – que era o Padroeiro de Lagoa Branca.
Valia tudo para nos movimentarmos um pouco, quanto mais gente melhor: a Missa-do-Galo, rezada à meia-noite era um prato cheio para ficarmos até tarde na rua; 12 de Outubro, aniversário do Colégio, Abolição da Escravatura, o Dia do Município... Qualquer data servia, Finados, Tiradentes, Sexta-Feira Santa que, apesar do clima mórbido, tinha a famosa Procissão do Senhor Morto, acontecia à noite e era muito concorrida: um andor com uma estátua de um Jesus morto saía da Igreja, ombreado pelos Beatos, o Padre à frente, rodeado de Coroinhas fazendo fumaça com turíbulos de prata pendurados em correntes e percorria as ruas escuras da cidade. O povo, carregando lanternas de papel com velas dentro, fazia o cortejo, entoando cânticos fúnebres.  A procissão parava  aqui e acolá para rezas, finalmente, voltava para a Igreja onde o andor era colocado no corredor principal, próximo do Altar, para que as pessoas pudessem demonstrar a sua contrição beijando a estátua do Senhor Morto.
A nossa diversão consistia em apreciar os incidentes que aconteciam na penumbra: a filha da Dona Odete caindo num bueiro aberto, sem gravidade, mas, para nós, motivo de boas risadas; o cortejo que parava e os distraídos que atropelavam os da frente... As lanternas que pegavam fogo... Às vezes, rendiam divertimento em dobro, como foi caso do Mauro que ria de ver um piá com a lanterna em chamas e não se dava conta que o lastimado era ele mesmo se vendo no reflexo de uma janela espelhada... A Dona Lourdes que, no pára-atropela-arranca da procissão, agarrou o braço do Seu Abílio, o ferreiro, e o puxava insistentemente, enquanto ele tentava livrar-se dela, olhando para o Seu Sérgio, o verdadeiro marido, que gargalhava de ver a cena. Ela quase morreu de vergonha ao se dar conta e o Seu Sérgio, que não conseguia parar de rir, tomou duas “bolsadas” pelas costas e foi devidamente agarrado por ela e puxado para o dentro cortejo... Depois, contávamos tudo ao Edgar, o único da turma que era Coroinha e sempre perdia a festa.
Nos dias normais nos restava o campinho no final da tarde, ou as rodas de bolitas, ou andar de carrinho-de-lomba, soltar pneu... Já que açude, cavalo e fazenda era coisa dos sábados e domingos.
Um dia, o Edgar chegou no campinho com uma bola nova, e era de capotão, Dinheiro para tanto, todos sabíamos que ele não tinha, só poderia ter sido presente... Ele, seguidamente, aparecia com dinheiro na escola: o Torquato, o Alfaiate, que era Beato e cantava no Coro da Igreja, dava a ele... Todo o mundo cochichava a respeito do homem, o Edgar, que era bem malandro, só dava risada e dizia que ele só queria pegar um pouco no pinto...
- Fala aí, Dêga, donde saiu essa bola?
Era bonita que só, todos queriam ver. O Juscelino deu um cutucão e ela caiu na areia: foi o maior atropelo... O Edgar ria:
- Vamos tirar o par-ou-ímpar para escolher os times...
Ele de um lado, o Nego do outro:
- Par!
- Impar!
Com a mão direita nas costas, os dois juntos:
- Um, dois, três e já!
- Deu ímpar, tu começa, Nego...
Depois do jogo é que lembramos de perguntar da bola:
- Foi o Torquato...
Disse ele com naturalidade e sem vontade de continuar o assunto.
- “Peraí”, Dêga, olha aqui pro Nego e veja se eu tenho cara de trouxa! O homem deve ter ficado agarrado aí um meio dia para render uma bola dessa...
- É mesmo.
Eu disse.
- Conta como foi!
- Ô, gente, bico calado. A mãe me mata! Eu disse que foi por causa de que eu cortei a grama da casa dele e da Alfaiataria...
- Fica gelo! Ninguém aqui fala nada, não é, pessoal?
- Claro!
- Sim!
-Claro...
E, todos numa roda, o Edgar, sentado em cima da bola, começou falando bem baixinho:
- Fazia tempo que ele queria mais, sabe...
- Como assim? Pegar mais tempo?
Perguntou o Paulo e todos com a mesma cara de curiosidade, consentindo com a pergunta, balançavam a cabeça para frente e para trás...
O Edgar, meio sem jeito, só dizia; mais... Mais...Sabe?... Pegar, ver... Mais...
- Mais o quê? Fala, fala logo! Bater uma? É isso?
- Não!... Sabe, eu não queria, mas, ele foi insistindo até chegar na bola...
- Pegar nas bolas?
Ajudou o Mano.
- Não, sua besta! Ontem ele trouxe a bola, mas ele queria que eu o deixasse por na boca... Nós fomos lá naquela salinha que fica ao lado da Sacristia, onde eles guardam os panos e as coisas de enfeite...
- Ta louco! E daí? Você deixou?
- É... Sim... Babou tudo... Eu fiquei com nojo... Tirei e ele não queria mais dar a bola, daí eu disse que ia contar para o Padre... E ele falou: esta bem, é tua, mas, não fala, nem para a tua mãe, ta? Diga que você trabalhou cortando a grama lá em casa e na Alfaiataria...
- “Beca”, gente!
Disse o Dalton, lembrando de uma cena que vira na última Sexta-Feira Santa:
- E ele é um dos primeiros a beijar a estátua na procissão, depois vamos nós!
- Vai você!
Atalhei.
- Eu não beijo porcaria nenhuma! Nem a mãe beija. Eu vi. Ela levanta um pouco o véu, chega bem perto, mas não beija. Me disse para fazer o mesmo. É muita gente babando naquela estátua, os pés chagam a ficar lisos...
Todos resmungaram coisas como eu também não, eu nunca... E coisa e tal, mas, fiquei na dúvida se entre nós não havia os envergonhados de dizer que realmente beijaram a estátua babada pelo Torquato:
- Gente, bem que nós poderíamos aprontar uma para cima da gurizada mais nova e avacalhar com essa “beijação”!
Fiquei rodeado de gente zumbindo ao meu redor como se tivesse batido num vespeiro:
- Calma, calma, eu explico!
Uma idéia nova mal jogada para a turma era um perigo se não fosse bem pensada, o pessoal aprontava mesmo! E aquela era para arrasar:
- Gente, é o seguinte:
- O preço da égua é 120!
- Cala a boca, Adriano! Escuta.
- ... vamos fazendo amizade com a gurizada, quando estiver faltando uns dez dias para a procissão, nós começamos a falar das coisas nojentas que os Beatos fazem e depois vêm beijar a estátua...
Outra coisa que todos sabíamos era que o taxista, que também carregava o andor, gostava de beber cervejas na zona, essa história foi o Bita que contou no churrasco da oficina e todos ouvimos... Ele disse que o homem era um porco: derramava cerveja nos peitos das mulheres e depois bebia lá em baixo... Além disso, colocava o bico da garrafa lá e depois punha na boca... Material para o plano não faltaria! Acrescentaríamos algumas outras coisas nojentas, como dentes podres e perebas na boca de outros beijadores... Uma velha gripada... Criancinhas ranhentas... Isso sem contar que o Padre também beijava a estátua e dele todos tinham nojo porque ele costumava assoar o nariz, em plena missa, num lenço que trazia escondido na manga da batina...  E assim foi.
No dia da procissão, o circo estava armado: ninguém botariam a boca lá nem com “reza braba”. Tinha menino que quase vomitava só de ouvir as nossas histórias durante o recreio, mas, quem se governa em terra de mãe religiosa?
Era com isso que contávamos: havia na Igreja, na lateral esquerda, um púlpito que ficava  a uma altura considerável, para subir até lá, havia uma escada espiralada que semicircundava uma coluna na qual ele estava engastado. Só o vi sendo usado uma vez, quando o Bispo visitou a Paróquia de São Pedro, na “pequena e laboriosa Lagoa Branca” atrás de grana para a Diocese. A entrada da escadinha era guardada apenas por um cordão de veludo verde. Nos enfiaríamos por baixo dele e tomaríamos acento nos  degraus, como costumávamos fazer noutras cerimônias de Igreja cheia; assistiríamos de camarote aquela cerimônia do beijo...
Naquela noite, nem participamos da procissão, ficamos matando tempo na praça para não perdermos o nosso lugar de honra...
Assim que o cortejo chegou às escadarias da Igreja, os sinos batendo o sinal de luto: Téimmmmmmm... Téimmmmmmm... Téimmmmmmm... Os Coroinhas dá-lhe fumaça, abriram-se as portas e nós, “vupt”, para dentro...
Já estávamos no camarote quando o andor foi depositado em cima dos suportes prateados, os mesmos que eram usados em Missa de Corpo Presente para receber o caixão de algum paroquiano que morria.
Téimmmmmmm... Téimmmmmmm... Téimmmmmmm... A Igreja, cheia de ecos, ia recebendo gente de todos os lados, feito uma correição preenchendo as fileiras de bancos: mulheres para a esquerda, homens à direita... O Padre subia lentamente os degraus do altar, seguido pelo renque de Coroinhas e os Beatos ladeavam o andor, formando um semicírculo...
A cada mãe que entrava com uma ou mais crianças de mãos dadas, aguçávamos o olhar para ver se era um dos preparados...
Muitas rezas, cânticos fúnebres e choros depois, era chegada a hora dos “arrependidos pecadores” beijarem os  pés do Senhor Morto: formava-se uma fila dupla igual a da comunhão: homens de um lado, mulheres do outro... Do nosso lado! O lado esquerdo da Igreja era para as mulheres e crianças. A diferença entre as filas era que esta saia porta afora da Igreja, alinhando o povaréu que ficava na calçada sem poder entrar, formava um formigueiro entrando pareado e separando-se depois do beijo, cada fila para o seu lado, saindo pelas portas laterais; pela mão das mulheres é que vinham as crianças, raramente se via um pai carregando uma no colo...
E canto e choro e a fila se arrastando... Nos hiatos silenciosos, apenas o arrastar dos pés da multidão se ouvia. A luz havia sido diminuída, apenas os longos candelabros de cristal pendentes desde o alto da cúpula estavam com as suas lâmpadas ligadas, o que nos privilegiava com a visão da imensa fila dupla que se arrastava pelo corredor central e nós na penumbra. De repente, entrava um, “travado as quatro patas”, arrastado pela mãe que tentava manter o estado de contrição, cabeça coberta pelo véu preto, o braço esquerdo golpeado como quem segurava um bezerro xucro... Escondíamos o rosto atrás da folha dos cânticos, deixando apenas os olhos faiscando do lado de fora... Para piorar o desespero dos meninos, os Beatos bem ali, de cara com eles, refrescando-lhes e a memória das coisas que havíamos falado na escola.
Entre outros, lá estavam os mais famosos: o Padeiro, fofoqueiro e puxa-saco do Padre, fora ele com contou que o pai do Adriano havia vendido 10 vacas de uma só vez para o Frigorífico Altense, ele queria comprar um Televisor, umas coisas para dentro de casa, dar uma bicicleta para o filho e fazer uns agrados à Dona Carmem, mas, caíram em cima dele os emissários do Padre e o Adriano acabou ficando sem a bicicleta. A primeira vez que ouvi a expressão sanguessugas e parasitas sem se referir aos animais em questão, saiu da boca do Adriano. O Dr. Fernando, o advogado, bem-te-ví-de-igreja, diziam que ele havia tirado até o caminhão do Seu Alfredo por conta de dinheiro emprestado; o Torquato, exemplo de pai de família, mulher trabalhadeira, filhos bem educados, fazendo o que fazia; o professor Bernardino Fala-Fina, dado a chiliques quando contrariado, tinha nas mãos gestos de moça; o banana do Zé-da-Tonha; o Vilson Vereador, chamavam a mulher dele de Papa-Anjo; o Bertrand do Posto de Gasolina, unha e carne com o Dr. Fernando, vivia viajando, a mulher dele era uma sombra: só saia de casa para ir à Igreja, quando ela morreu, ninguém sabia se ela era doente ou não, nem ficara claro o porquê da sua morte, diziam que era filha única de um casal de velhos Paulistas, criadores de gado; ao lado dele, estava o Tonho Capão, que era o zelador da casa Canônica e tinha um ovo só, cuidava também da casa das Freiras... E, para arrematar, o Zothar do Táxi, cara quadrada, bigodão de português, a pança de bebedor de cervejas mostrando o umbigo através da camisa justa... Outro que a esposa só servia para cuidar da casa e dos quatro filhos... Gostava mesmo era da companhia das moças da zona...
Quando um dos guris chegava perto dos pés do Senhor Morto é que a coisa engrossava: havia choro, criança sentada no chão, deslizando pelo piso da Igreja; alguns fugiam porque a mãe, concentrada na choradeira, não se dava conta da força da resistência...
Mal escapava um, dois ou três pontos de agitação já se distinguiam na fila... Os pequenos deviam ter feito os seus iluminados, pois havia muitos que nós não tínhamos dado o conhecimento, fazendo bonito na parada... Bonito mesmo de ver era quando a mãe insistia e o guri encostava o beiço na estátua: saía se cuspindo, limpando a boca com a manga da camisa...
Triste foi ver o Guto, um dos pequenos que mais batalhou para reunir os colegas nos recreios da escola; filho da Dona Lídia, uma Beata casca-grossa que só; ele resistia bravamente a aproximação, mas, chegando perto, ela o agarrou pelo cangote e não teve dúvidas, focinhou a cara dele no pé babado do Senhor Morto. Depois de beijado, ela o largou: ele deu dois ou três passos e começou fazer ug! Ug! Ug! Uuug! Colocando u’a mão no estômago e a outra segurando a boca para não vomitar, passou correndo pela escada, procurando a saída...
E já se viam mais alguns, ao longo da fila, sentando no cabresto...
Pena foi o Padre interromper a cerimônia e pedir para as mães que tivessem crianças assustadas, que as deixassem sem beijar o Senhor. Ele, que amava as criancinhas, certamente as compreenderia...
Duvido. Pensei. Ele não devia saber de nada das coisas que aconteciam na Paróquia... Há anos que era assim, a única coisa de diferente naquela noite é que muitos meninos despertos por nós, não beijariam mais a estátua que aqueles Beatos beijavam...
Alias, dois anos depois daquela missa, o Dr Fernando, o Bertrand, o Padeiro, o Professor Bernardino Fala-Fina, o Torquato mais o Zothar e o Padre seriam os protagonistas do Escândalo da Galinhada. Um jantar que o Dr. Fernando deu na sua casa uma vez que a mulher dele estava em Porto Alegre visitando os pais. O caso só ficou conhecido em detalhes porque o Avelino, visinho de fazenda do Seu Romano, contou tudo depois do enterro da Dona Adelina: naquela noite chovia muito e foi ele quem veio de Jipe buscar o Padre Germano para dar a Extrema Unção à coitadinha que morria. Na Casa Canônica, informaram que o Padre estava na casa do Dr. Fernando, num jantar. Já era tarde quando chegaram, bateram palmas, mas ninguém apareceu, continuava chovendo. O Seu Romano e o Avelino entraram pelo portão de serviço até na cozinha e não viram ninguém. Na mesa, uma panela grande com restos de comida, pratos sujos, um pão pela metade e algumas garrafas de vinho vazias. Escutaram umas risadas que vinha da sala de jogos,  nos fundos da casa e, por causa da necessidade, entraram. O velho quase enfartou, saiu batendo as portas, esconjurando tudo, prometendo dar tiro se aquele safado fosse benzer a sua mulher... O que o Avelino viu, era coisa de criança perto do que o Zothar fazia na zona...
Hoje, guardo boas lembranças daquele tempo e, não fosse de tão mau gosto usar cerveja para beber daquele modo e tratar de maneira tão grosseira, sem o menor respeito, aquelas mulheres, absolveria o taxista, Mas, como boas maneiras, boa educação, amor, respeito e bom gosto ou se traz de berço ou se aprende pela boa vontade e convivência, não o perdôo pelo mau exemplo. Vai ver ele não conhecia Champagne ou não contava com a cumplicidade da própria esposa, anulada pelo seu espírito pobre que o fazia pensar que lá ele era mais feliz. Elas, cercadas pela hipocrisia e pelo preconceito, nada mais tinham a ganhar e submetiam-se à vontade dos homens da sociedade, protegidas pela escuridão da noite e pelos desígnios escusos que eles velavam nos seus corações igualmente escuros.
Outra coisa que me lembro daqueles tempos, foi ter descoberto o porquê do meu nome:
- Por que Ezequiel, meu filho? Porque Ezequiel é nome de Anjo, querido. Quando você nasceu e eu o abracei pela primeira vez, tudo o que consegui dizer foi chamá-lo de Anjo. E você é o Anjo mais amado da mamãe...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 12/11/2006
Código do texto: T289715

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