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Um convite para Jandira

A cidade de Itamira nasceu às margens dessa rodovia, mas não cresceu, na verdade, a sensação que se tem é a de que esse lugar está desaparecendo aos poucos. Foi aqui, nesse ponto distante de tudo e esquecido por todos, acho que até mesmo por Deus, que nasceu Jandira, filha única de seu Olavo. O nascimento de Jandira foi marcado por dois sentimentos completamente diferentes, a alegria pela sua chegada e a tristeza pela morte de sua mãe, dona Iolanda. Quem amamentou a menina recém chegada nesse mundo foi Etelvina, que também havia dado à luz uma menina, poucos dias antes e, felizmente, tinha leite de sobra. Depois disso foi criada só pelo pai mesmo, que nunca se casou novamente e, apesar de todas as dificuldades sempre procurou fazer de tudo por Jandira, que crescia bela, assim como era sua mãe. Todo dia, logo que chegava da escola, ia direto pro armazém de seu pai, um lugar não muito grande, escuro, de tábua corrida no chão e algumas prateleiras de madeira pressas nas paredes descascadas, que exibiam os tijolos. O estabelecimento ficava bem na beira da estrada. Não raro, podia-se ver Jandira sentada numa das portas do armazém observando atentamente os carros que por aqui passavam indo ou vindo de algum lugar para outro lugar. Aqui é sempre assim, tirando os moradores, todos que chegam estão apenas de passagem. Ninguém fica e tudo passa. E, foi vendo tudo passar que a vida de Jandira foi seguindo, sempre na beira da estrada. Em determinado momento, não sei precisar exatamente quando, a menina, que a essa altura já era uma moça, passou a andar com uma caderneta na mão, anotando o nome das cidades que lia nas placas dos carros, ônibus e caminhões que paravam para comprar alguma coisa no armazém. Certa vez, perguntei pra Jandira porque ela fazia todas aquelas anotações, ela então, disse que um dia iria conhecer todos aqueles lugares que estavam anotados na caderneta. Revelou-me mais, disse que sentia a todo instante a estrada a convidando para seguir adiante. Por isso, não foi nenhuma surpresa pra mim, quando dali a um ano, seu Olavo entrou lá no armazém gritando que a filha dele tinha desaparecido. Era uma manhã chuvosa, no início de algum verão, o sol já estava forte apesar de ser ainda muito cedo. Depois de alguns minutos e dois copos de água com  açúcar, o pobre pai contou que achou um bilhete deixado pela filha na sua mesa de cabeceira, nele, Jandira pedia perdão ao pai por ir embora sem se despedir, mas tinha que ser assim, afinal, ele nunca a deixaria partir. Escreveu também que algum dia voltaria, mas não era para ele esperar por ela tão cedo, pois, precisava conhecer muitos lugares antes de voltar. Aos prantos, seu Olavo leu todo o restante da carta. Desde então, o infeliz passava os dias sentado no exato lugar onde a filha ficava observando a estrada, sempre na esperança de que Jandira fosse descer de algum ônibus ou que viesse de carona com algum caminhoneiro conhecido. E, foi justamente através de um caminhoneiro, que seu Olavo recebeu a primeira notícia sobre Jandira depois de muitos meses de espera. O homem desceu da boléia e foi direto pro balcão do armazém tomar uma cerveja. Chamava-se Tobias e fazia tempo que não passava por aqui. Seu Olavo, mais uma vez, começou seu ritual quase que diário, contando para o caminhoneiro tudo o que havia acontecido. Mostrou a foto mais recente que tinha de Jandira e depois disso perguntou se o tal Tobias não a tinha visto por essas estradas. O homem engoliu seco, engasgou, coçou a barba por fazer e virou na boca, de um gole só, toda a cerveja que estava no copo. Todos que estavam no estabelecimento ficaram olhando pro homem, que percebendo isso, olhou atentamente cada um de nós. Acho que Tobias se imaginou num programa de perguntas e respostas, na sua frente o apresentador faz a última pergunta do programa. A platéia fica em total silêncio, um silêncio que chega a ser ensurdecedor, ele pressente que sua resposta pode mudar o ruma da vida de alguém, e, nesse caso, não é a sua. Para desespero de seu Olavo, o homem optou pela resposta verdadeira. Tobias havia visto Jandira, sim. Não só viu como conversou também. O caminhoneiro disse que a moça já havia contado toda aquela história durante a carona que ele lhe deu, do Rio de Janeiro até o porto de Vitória, no Espírito Santo. Sempre achei que existem verdades que nunca devem ser ditas, mas, Tobias não era da mesma opinião e foi até o fim, não deixando escapar nenhum detalhe de sua conversa com Jandira. Segundo o caminhoneiro, a moça disse que estava fazendo a viagem porque soube através de algumas “meninas” que dois navios da marinha americana iriam atracar no porto de Vitória e, como é sabido de todos, os gringos pagam melhor e em dólar, por uma boa noite de amor. A partir desse dia as portas do armazém  nunca mais voltaram a abrir. Seu Olavo não sai mais de casa e, sinceramente, acho que não espera mais pela volta de sua filha. Enquanto isso, a estrada continua no seu lugar, indo e vindo, convidando a todos para seguirem viagem ao seu lado, descobrir os segredos de suas curvas e conhecer os muitos horizontes que existem por de trás delas. E Itamira? Bem, Itamira continua aqui, parada e esquecida.


Elano Ribeiro Baptista
Novembro de 2006.
Elano Ribeiro
Enviado por Elano Ribeiro em 14/11/2006
Reeditado em 18/12/2006
Código do texto: T291405
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Sobre o autor
Elano Ribeiro
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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