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A lenda de Murasaki

Murasaki Shikibu viveu no Japão, no século XI. Foi dama da corte do imperador Ichijö (980-1011 DC). Letrada e filha de eruditos, estudou a fundo as raizes chinesas da escrita japonesa, além dos clássicos dessa outra cultura ancestral.
Autora daquele que é considerado o primeiro livro de contos (monogatari) da cultura humana, o mais famoso de toda a história da literatura japonesa, A Lenda de Genji (Genji Monogatari), que se tornou extremamente popular. Seus escritos originais foram preservados até os dias de hoje em grande parte. Compôs muitíssimos poemas na forma fixa denominada waka, precursora dos haikais.

Devemos considerar os seus textos inseridos na época em que viveu, quando raras eram as mulheres letradas. O Japão vivia em esplendor por esse tempo e a dedicação à cultura na corte e nas familias era muito valorizada. As mulheres se casavam muito cedo e a expressão feminina era sempre carregada de nuances de mistério e cerimonial, uma verdadeira liturgia da delicada feminilidade, bem diferente das manifestações ocidentais modernas. Nessa  atmosfera, a sensualidade e o erotismo tinham uma conotação toda especial, lírica, dissimulada, sensível e de certa forma até carregada de sofisticação, o que não significa pouco intenso.

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Chifuru

"O outono começou com a onda de calor habitual. Guardei as vestes que usava por baixo e passei a usar uma camisa azul esverdeada, o que não me fez sentir menos calor. Mal conseguia me mexer. Eu tomava banho de luar no jardim, à noite, e dormia durante o dia nos quartos escuros do interior da casa. Meu pai me aconselhava a não absorver yin demais do luar - induz à melancolia, avisava ele - mas eu não ligava. Meu pai me lembrou que minha mãe tinha sofrido de crises de melancolia, mas logo parou com as proibições, e assim continuei a me sentar no jardim à noite. Intimamente suspeitei que ele considerasse minha natureza extremamente yang , em primeiro lugar, e achasse que uma dose de essência de luar pudesse me tornar mais feminina.

Durante esse início quente de outono, Chifuru e sua família voltaram à capital e passaram cinco dias conosco. Chifuru era um ano mais velha do que eu. Tínhamos brincado juntas quando crianças antes que seu pai fosse enviado às províncias. Era estranho um encontro depois de tantos anos, mas talvez por isso tenhamos ficado íntimas tão rápidamente. Na ocasião, lembrava-me dela como uma menina rechonchuda, tão ativa e barulhenta quanto eu era tímida. O cabelo era espesso como a crina de um cavalo, e fiapos curtos lhe rodeavam o rosto quando o ar estava úmido. Nesse tempo era alta e bela, mas mesmo aos 18 anos eu podia ver o fantasma da menina ativa que um dia brincou comigo, quando um simples ano era o bastante para sancionar a incontestável autoridade dela em qualquer jogo.

Chifuru tinha um dente a mais na boca. Esse dente se sobrepunha a um incisivo e sobressaía abaixo do lábio superior. Quando ela sorria, eu dizia: - A lua surge das nuvens.

Era a nossa piada infantil sobre o dente extra de Chifuru. Uma vez tive medo de que ela pudesse se zangar, mas ela riu e levantou a manga ampla até o rosto.

- Mamãe me disse que devo sempre esconder a boca. Pelo menos a lua agora está um tanto enevoada - disse ela, se referindo a seus dentes elegantemente escurecidos. Passei a prestar atenção na minha boca branca e tosca.

Ela baixou a manga e me lançou um olhar demorado, como se procurasse a sombra do meu eu de sete anos que um dia tinha obedecido ao comando dos oito anos dela, mesmo debaixo dos lençóis da cama que compartilhávamos à noite. Tínhamos apelidos uma para a outra. Eu a chamava Oborozuki, Lua Enevoada, e ela me chamava Kara-no-ko  porque já naquela época as coisas chinesas me atraiam. Dez anos tinham se passado desde que brincávamos de "ir para a corte" como se fosse uma séria possibilidade para qualquer uma de nós.

Quando vemos uma pessoa todo dia, as mudanças tecidas pela passagem do tempo são quase imperceptíveis. A pessoa parece não mudar, ou talvez nós e ela mudemos juntas e por isso não notamos. Talvez seja por isso que é difícil nos apaixonarmos por uma pessoa que cresceu perto de nós a vida toda. Claro, quando conhecemos pessoas que nos são totalmente estranhas, tudo sobre elas é novo e não temos lembranças que nos permitam relações. Passamos um tempo lançando fios com os quais possamos nos ligar a alguma experiência ou sensibilidade compartilhada, mas, na realidade, é um esforço muito grande. Descobri que era muito mais interessante procurar lampejos da criança que um dia conheci nessa moça exoticamente bela que veio passar um tempo conosco.

Chifuru partilhava comigo o meu quarto. Enquanto empoávamos o rosto com terra branca chinesa, afastei com a escova os cachos laterais do cabelo dela. Lembro-me de que de repente veio uma forte lembrança da Chifuru da minha infância. Tinha sido numa tarde tranqüila durante as longas chuvas de primavera e estávamos sentadas nos tatames aromáticos novos do quarto de minha mãe, penteando o cabelo uma da outra com água de arroz. Uma súbita e penetrante consciência diante da beleza captada na rede invisível que nos ligava, eu e ela, naquele espaço de tempo me  dominou.

Depois, por anos a fio, toda vez que empoava meu rosto com pó chines, eu experimentava um vislumbre fugaz daquele momento.
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Que força originou a triste e deliciosa sensação de beleza que senti de forma tão aguda naquele dia ? Penso que deve ter sido a memória. É por isso que nunca consideraremos belo algo que seja totalmente novo.
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Como Chifuru e eu éramos patéticamente inocentes, com aquele desejo secreto de servir na corte inflamando nossos corações ! Durante os dias que se seguiram, nós duas começamos um jogo que consistia em inventar histórias sobre a vida na corte - fabricávamos fantasias que eram na realidade apenas uma variação do nosso faz-de-conta infantil, mas dessa vez havia um herói sensível que se envolvia eroticamente com toda dama que ele encontrasse.

Revezávamo-nos fingindo sermos ora o príncipe ora a dama. Nenhuma de nós tivera qualquer experiência com homens, mas usamos nossa imaginação e experimentávamos usando o que tínhamos ouvido de nossas amigas.

Fiquei arrasada quando Chifuru teve que partir.
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No final do outono, Chifuru voltou com a família para uma última visita.
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Antes que eles chegassem, meu pai me chamou de lado para falar das circunstâncias da viagem, entretanto, mesmo assim eu não estava preparada para o sofrimento de Chifuru. O rosto dela estava escondido pelo véu que adornava seu chapéu de viagem e que ela não tirou até estarmos a sós. Suas pálpebras estavam inchadas como se ela tivesse chorado durante muito tempo e tivesse parado apenas recentemente.

- Deve ser algum castigo por algum pecado que cometi numa vida anterior - sussurrou ela, as mãos dobrando e redobrando os viéis do chapéu que já tirara. Quando me ofereci para pentear seu cabelo, ela pôs as mãos para trás para desatar o cordão que o prendia num rabo comprido por baixo do casaco. O cordão foi pego mas o nó não se desfez, por isso, ela o puxou sem piedade  e fez com que os olhos se enchessem de lágrimas enquanto exclamava: - Ah, cordão estúpido ! Por que nada jamais funciona direito ?
Peguei sua mão zangada e a encostei em meu rosto. Chifuru desabou de encontro a mim e começou a chorar.
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O ar da noite estava fresco, e as nuvens cruzavam a lua velozmente. As estrelas estavam um tanto apagadas devido ao luar tão claro, e os insetos zumbiam com toda a força no jardim. Nós duas, bem juntinhas, nos sentamos na varanda, falando baixo.
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Enquanto conjecturávamos sobre o seu futuro casamento, me dei conta de que Chifuru era a única pessoa com quem eu podia realmente abrir meu coração.
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Rindo, inventamos uma história sobre o nosso herói imaginário que visita a casa de um governador provincial e seduz a bela e jovem esposa deste.
Antes que o percebêssemos, a lua passou flutuando pelas colinas do oeste e nós duas entramos sorrateiramente e fomos dormir enquanto as vozes dos insetos que cantam à noite esmorecem. Quase dormindo, me perguntei se haveria neles uma premonição da brevidade de suas vidas. No seu lamento estridente, eu ouvia o adeus ao outono, o adeus à lua enevoada, o adeus a Chifuru. Quando ela partiu, escrevi este poema :

"Nakiyowaru magaki no mushi mo tomegataki aki no wakare ya kanashikaru kana"
"Quando o som dos grilos esmorece na sebe, é impossível interromper o adeus ao outono; como devem ficar tristes ..."
Humberto DF
Enviado por Humberto DF em 15/11/2006
Reeditado em 18/12/2006
Código do texto: T291832
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Sobre o autor
Humberto DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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