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A VISITA



Chegar a casa, percorrendo as ruas estreitas, de paralelepípedos irregulares, batida incerta no peito, olhos febris. Difícil saber o significado da visita, entender a expectativa da hora, o aperto de mão. Minha mão na do meu pai, caminhando orgulhoso, torcendo os pés frágeis nas pedras incólumes. Tropeçando, olhos pairando nos céus, boca meio aberta, gestos inseguros, hesitantes, braços esticados, indagando inquietos. Segui-o em tudo, até na incerteza. Tinha de fazê-lo para chegar lá. Conhecer de perto o orgulho de ser parente.  Saber como o tal tio nos receberia e ter ao mesmo tempo a convicção do acolhimento festivo, sereno. Muito se falava nele. Meu pai tinha orgulho de sua sabedoria, do seu jeito nobre, da linguagem precisa, do seu amor pelas letras e filosofia. Eu divagava, mão apertada, coração aos saltos. Via as sombras das pernas longas de meu pai no sol da calçada. Os pés grandes, apressados. Se soubesse o quão distante seria o caminho, talvez não me levasse. Mas tudo valia à pena, pra transmitir conceitos saudáveis, conselhos próprios para alguém da minha idade e da minha índole. Bem igualzinha a dele. Talvez, tão ingênua quanto. Mas agora sei que ele estava certo, porque muito daquela experiência alicercei na minha construção pessoal. Só não entendia uma coisa: Por que consideravam o tal tio, um homem triste, solitário? Por que estados da alma banais o atingiam de maneira tão intensa, se era tão profundo o seu conhecimento humano? Falavam da mulher que o abandonara há algum tempo. Era o que se manifestava para o senso comum. Não para mim. Na verdade, não que eu tivesse a perspicácia necessária para inferir tais coisas, mas pelo simples motivo de não considerar importante um fato desta natureza. Não me interessava este mundo peculiar dos adultos.  Mas sim, o mundo extraordinário, do presumível templo, com a mobília clássica, enveredada por livros, mostrando caminhos. Isto estimulava a minha imaginação. Talvez quando o conhecesse, até me decepcionasse um pouco. Não correspondesse ele aquilo tudo que se imaginava ou que meu pai queria demonstrar. Meu pai sim era um desbravador, gostava de despertar em mim sentimentos bons, de justiça, de dever, de honra. Se não tivesse aquele jeito desajeitado de me guiar, eu até justificaria todos os seus propósitos. Não naquele dia, naquele momento. Minhas mãos suavam, o braço esticado, doía. Acompanhá-lo não era fácil. Quando dobrava a esquina, fugia um pouco do sol, escondia-se do calor e furava o céu devagarinho, com o dedo, mostrando a chuva vindoura. Se chovesse, talvez ele parasse e aliviasse a carga. Ou talvez desandasse a correr. Era imprevisível. Obstinado em suas idéias. Quando falava, dizia tudo. Mas duma maneira diferente. Meio truncada, pusilâmine. Concluía sempre com o olhar, desenhava na retina o desfecho da trama. Eu sempre o entendia. Mesmo que inventasse histórias, eu sabia, que no fundo havia um quê de verdade, um objetivo maior para me fazer crescer.
Quando chegássemos, logo que passassem por nós as casas antigas, solares abandonados de famílias falidas, fábricas empoeiradas de jardins solapados por vigilantes, fingindo atividade, praças de rasgos de luz, vez que outra iluminando nossas cabeças, talvez os assuntos ficassem mais claros. De uma forma letrada, acobertada pelos livros, dicionários, enciclopédias, manuais, teses, jornais, revistas. Tudo que se imaginasse. Tudo que fosse sonho, adentrado por nós, daqui a pouco, quem sabe tomando um suco de limão, antes da conversa, para refrescar, logo após o aperto de mão.
 Se fosse por meu pai, já estaríamos lá, pelo menos, pelo seu desejo, não pela sua competência. Rua mal informada, bairro inexistente, referências estranhas. Sempre se enganava em alguma coisa, um detalhe qualquer, o boteco que existira um dia, mas que agora não mais se encontrava, a placa de néon do cinema da esquina, próximo à praça que ficava no último ponto do ônibus e que apagada, não se tinha a certeza de que era a mesma. Um telefone que trocara o prefixo. Faziam parte da epopéia dele estes constrangimentos, estes empecilhos.  Isso dava um certo colorido, um matiz novo, de fuga da rotina. O estabelecimento do viés aventureiro, que no fundo, eu achava que não passava de um subterfúgio para colorir melhor o quadro. Ele era muito esperto, sagaz, inteligente. Só não se comunicava bem. Por certo ouviria muito do tio as suas histórias, seus afetos, seus conhecimentos do mundo, seu jeito de ver as coisas. Talvez semelhantes ao dele. Mas dito daquela maneira prazerosa, precisa, inteligente, convincente, fantástica. Chegaríamos lá, eu quase sem os dedos das mãos, ele, sem os cabelos, de tanto que os alisava para trás, ajeitando o que o vento estragava. Um vento de corrupio nas folhas secas. Logo chegava célere, folhas saltando, subindo em círculos, juntando-se desesperadas, umas nas outras, logo sumia, as folhas se atracando nos muros, nas paredes das casas, congestionadas, sem mais voar. E nós à solta, entre as folhas caídas, caídos também, cansados da viagem.
Pedi para sentar no banco mais próximo, no portal de uma casa, na beira da calçada, no muro da igreja. Ele me olhou, sorriu e largou a minha mão. Se abaixou vários metros, me olhou bem nos olhos, passou a mãos pesada pelos meus cabelos, quase desnucando o que restava de equilíbrio, ajeitando a gola da camisa, puxando o casaco. Levantou-se em seguida. Segurou-me a mão e afirmou eufórico: _Chegamos!
Olhei para o alto e vi a casa cor de cimento, paredes irregulares, frisos que vinham de baixo a alto, num estilo excêntrico. A porta destoava um pouco do conjunto: tão forte e majestosa quanto a dos castelos. Aldrava pesada, que eu avista por baixo. O vento de outono mexendo nos cabelos. Mão forte, batida constante e contínua. Um homem magro e baixo, cabelos brancos, olhos claros. Sorriso tímido, jeito absorto, de quem não conhece a visita. Foi só por um momento. Depois o tema predominante. A vida, sob todos os sentidos, todos os pontos auscultados no coração aflito. Tudo assimilando, meio assustado, surpreendido e admirado. Olhares em volta. Encontrando-se, às vezes. Perguntas sobre idade, estudo, leituras. Atenção redobrada. Livros empilhados, estantes abarrotadas, máquina de escrever, caneta tinteiro. Uma mão pequena, estendida, resvalando descuidada no tampo da mesa, , dedos tamborilando, se aproximando, sugando o que podia de letras, frases, pequenos textos. Batida tímida nas teclas. Olhar enviesado, temeroso. Catar milho.
 Um sorriso. Um suco de limão. Mesuras, satisfação sincera de reencontro. Conversa à solta. O sol ampliava a atmosfera. Abria-se uma nesga de luz, invadindo a sala, entre as persianas, clareando quadros, salientando rios, cachoeiras, janelas abertas, roupas no varal. Negros no algodoal.
Sentava-se a nossa frente. Poltrona macia, afundado, pequeno, as pernas juntas, os sentidos despertos. Ouvidos alertas. Boca quieta. Eu só ouvia. Meu pai falava de vez em quando, dava palpites, iniciava assuntos. Pouco lembravam o passado, só de passagem, lembrando um evento aqui, outro acolá, parceiros de brincadeiras, mesma idade. Tanto tempo separados. Voltar ali, sabendo-se sozinho. Solitário e triste e nada comentar. Era digno não falar. Apenas recobrar as horas passadas, lembrar o tempo sem solidão. Feliz. O refresco acaba, olho para o copo e mordo devagarinho a borda fininha de cristal. Frágil. Como ele, o tio, mas grandioso. Só compreendera muito tempo depois. E na hora, não entendera a despedida triste, aperto de mão demorado, pedido que se cuidasse, tomasse por cabresto o corpo, a mente, o coração, a vida. Ficasse forte, cuidasse de si. Meu pai falava tudo de súbito, temendo ofendê-lo. Não ousava falar na perda.
Caminhar mais lento, calçada à fora, atravessando ruas, paralelepípedos irregulares, eu ao seu lado, seguro, seguindo a nossa história. Silêncio. Sabia que nossa relação seria mais forte. Eu tinha me tornado um pouco adulto, mesmo não me interessando muito pelos acontecimentos tristes. Mas sabia, no fundo, que compartilhávamos um segredo: o de perceber a benevolência, o conhecimento da vida e das coisas, o resgate da inteligência no ato de inclusão do espírito. Partilhar da verdade. Voltar pelas ruas, sentindo o vento já frio nas pernas era realizar um novo caminho, com muito mais certeza de tudo ou pelo menos, a certeza de que não se sabe quase nada. Só uma alegria a mais, no coração.
Gilson Borges Corrêa
Enviado por Gilson Borges Corrêa em 18/11/2006
Código do texto: T294315
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Sobre o autor
Gilson Borges Corrêa
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil
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