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No silêncio da Noite



Na cabeceira da fazenda doada pelo meu avô, foi construída uma sala de aula.
Meu pai fez a obra e o prefeito da cidade mais próxima doou as carteiras e o quadro.
Não éramos crianças dóceis. Todos muito brancos, sardentos, ruivos na maioria e de olhos azuis como o céu.
Insubordinadas.
Até por que éramos na maioria netos de meu avô, que não era de fácil convivência.
Crianças presas ao que não conheciam, mas com uma imaginação inalcançável.
A sala de aula era simples sem divisões, sem banheiro, era mesmo sem nenhum conforto.
As crianças aprendiam a desenhar seus nomes e a soletrar palavrinhas o ano todo.
Todos no mesmo horário.
Era difícil a concentração, misturavam várias séries no mesmo ambiente.
A professora minha prima, Maria das Graças, que de graça não tinha era nada, não gostava de menina.
Não existia luz elétrica.
Aliás, nunca havia se falado nisso por lá.
Quando pequena ouvia dizer que as porteiras abriam e se fechavam sozinhas à noite.
Até hoje não sabemos o motivo.
Havia uma outra escola que ficava no distrito de Carmo, onde meu pai vivia fazendo financiamentos no Banco do Brasil.
Lá eu estudava Matemática, de que desde pequena gostava muito.
Eu ia cavalgando serra afora entre os pássaros, orquídeas, e grandes mangueiras.
Deveria ter no máximo uns oito anos.
O caminho era muito agradável, uns oito quilômetros de serra, sozinha no meu cavalo.
Mas sempre foi muito agradável passar pelos medos e superá-los a cada dia.
Ficava minha mãe e meu irmão cuidando dos peões que meu pai colocava para trabalhar na lavoura.
Não tínhamos fogão, era uma fornalha movida à lenha.
 Tinham desde pequenos que buscar no mato o combustível. Isso se quisesse que saísse o almoço ou jantar.
Banhos para ir à escola eram de bacia, teria também que aquecer a água.
Eu investia-me em vários mergulhos naquela água pura da fonte.
A cada onda que passava num garrido de felicidade eu mergulhava sorridente na bacia de águas cristalinas.
A água era buscada num poço natural perto do brejo.
Em latas ou baldes quase sempre no ombro ou na cabeça.
Completamente desprovida de conforto, mas desde pequena sempre envolvida em questões literárias com meu avô.
Grandes discussões, na esperança de jamais perder a possibilidade de expressar-me.
Camas eram de madeiras rústicas executadas por um carpinteiro de meu avô.
Os colchões eram de palha de milho, que a família confeccionava no paiol da fazenda, todos reunidos na confecção.
À noite quando se movimentava de um lado pro outro, ouvia um tilintar da palheira acompanhando as curvas que os corpos faziam, rangendo em pensamentos acompanhados de espuma, ficando num sorriso tilintante de colchões que também eram um agradecimento.
Reconhecimento de uma boa hospedaria.
Pelo menos suportável naturalmente.
Eu, numa voz especialmente inteligível, mas simplória de modo que dificilmente precisava inclinar para que eles entendessem o meu desejo de um futuro para a menina de olhos azuis, pernas compridas, magras e cabelos ruivos como a terra.
Na escola nada aprendia com a professora, pois tudo que ensinava ela já sabia.Tinha aprendido com meu avô.
Era um artifício para poder sair dali, como uma ponte, uma travessia para a cidade.
Aprendi a cavalgar com meu pai aos três anos.
Bradava aos curiangos que iria voar a cavalo, nas aquecidas montanhas, como se fosse possível aplacar o mensageiro do futuro na absoluta certeza que iria chegar aqui.
A noite em catalepsia ficava, incrédula, imóvel.
No dia seguinte, não era tão fácil esquecer.
Catalepsia, estado em que vim conhecer melhor já em 2005.
Naquele momento pedia inconscientemente a lamparina, para que alguém levasse uma luz à aquele quarto escuro e me socorresse.
O fato era tão grave para mim que não tinha coragem de dizer, pois pensava que era algo como um castigo. Achava que somente quem tinha pecado veria.
Eu não conseguia me colocar confortável naquela situação. Acostumada com a pureza da alma, como consentir tamanha disparidade?
Rejeitando esta idéia, vivi anos seguidos, sempre ficando neste estado sem saber o que significava.
Vivia em absoluta incoerência do saber, que evidentemente se tratava de uma misteriosa viagem.
 Viagem do poder ver e saber.
Vim, enfim, morar com meus avós na cidade.
Cidade pequena para abraçar meus sonhos, insubordinados demais para uma menina da roça.
Criada no meio de parentes, na cidade alcançou outras coisas além da catalepsia.
Estudou, teve a oportunidade de ler bastante.
Herança de meu avô.
Vida boa.
Meu avô me ensinava a escrever poesias e a desenhar casas.
No entanto, o mais importante, foi surgindo a cada conquista, em oportunidades favoráveis a menina branca como a neve.
Rejeitava indireta, por ser pura de natureza, simples de procedimento e muito fiel à beleza das flores.
Não admitia a cogitação de meias palavras.
Era acostumada com tudo entendido.
Este era meu pior desafio na cidade.
Foi a natureza, o cheiro do campo, da fonte do rio que me ensinou literalmente contra todas as vontades, a seguir em qualquer oportunidade.
Redefinindo pensamentos, identidades e valores que nos separam da vida na dimensão do presente e futuro, sem angustias, sem entender ainda o sentido da violência.
Estou agora desenhando o pensamento para construir novas possibilidades.
Hoje quando me vejo em catalepsia, vem sempre um pássaro transparente me dar apoio.
Suporte no transplante para outra vida.
Numa chegada ou saída para outra dimensão.
Jamais calculável, mas acabando com minhas inquietações, que em novas condições vão surgindo como raios no oceano.
Navegando pelo planeta em condições mentais, estimulando o prazer de poder ser feliz e transformar multidões trocando o meio por fins, tornando real a síntese de poder absoluto e de delírio.
Sonhando acordada.
Assimilando a arte de dar vida a personagem que ao surdo vento falava.
Cheiro de vida em que o amor reina nesta ocasião de resistência e brandura.
Tão rara natureza que entre palhas tão duras se criara, de alma eterna e vários saberes.
Numa só aqui estou festejando o amor, rasgando-me de saudades e acreditando nesta eternidade.
Naturalmente branca e pálida de sol no diálogo do passado, sorridente ao futuro.
Em meus mergulhos pelo eterno mato saudades de minha principal personagem.
MARIA DE FÁTIMA BORGES MAGALHÃES
Enviado por MARIA DE FÁTIMA BORGES MAGALHÃES em 18/11/2006
Código do texto: T295098
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Sobre a autora
MARIA DE FÁTIMA BORGES MAGALHÃES
Belém - Pará - Brasil
106 textos (1880 leituras)
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MARIA DE FÁTIMA BORGES MAGALHÃES