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SOPHIA

Enfim o momento esperado. Ela! Descia lentamente os degraus da escadaria. Chamou a atenção de todos até então envolvidos em suas conversas. Lentamente. Como que para prolongar ainda mais a ansiedade dos seus convidados. Prendi a respiração. Talvez tão linda como nunca! Objeto do desejo e inveja de todos. Imaginei que devesse ficar lá mesmo, no alto da escada, como que para delimitar o espaço de uma deusa e seus devotos.

Finalmente ela sorriu. Parecia contente com a extensão de sua festa. Todos brindavam à sua inteligência e sensibilidade, novamente transferidas à páginas de um livro.
Entre todas as mulheres, vestia-se com mais simplicidade, mas o brilho das jóias das outras era ofuscado pela beleza do seu leve bronzeado.

Ela avistou-me. E como já esperava, demonstrou que eu não existia. Olhou-me sem enxergar, embora eu soubesse que minha presença a incomodava. Eu! O único profundo conhecedor da sua alma, o único conhecedor do seu segredo.
Mantive-me à distância. Observei seu riso delicioso, suas poses para os flashes, sua atenção para com todos e sua indiferença a minha existência. Travei uma batalha comigo mesmo a fim de ficar afastado.Sempre longas suas festas e ela não demonstrava sinal sequer de cansaço ou tédio.
 
Aguardei até os minutos finais e acovardado saí juntamente com os últimos convidados. Madrugada adentro dei início a uma caminhada sem direção. Mãos nos bolsos e raiva de mim mesmo. Não conseguira ser profissional e fazer meu trabalho. Quem era ela afinal? Alguém de quem eu deveria obter algumas palavras para minha coluna. Deveria voltar? Prostar-me a seus pés como seus outros súditos? Implorar seu perdão? Seria ela tão generosa a ponto de perdoar-me? A frieza de seu olhar dizia-me que não. Ora senhora, devia dizer-lhe boas verdades. Sabia que era detestado unicamente porque conhecia sua fraqueza.

Dei meia volta. Dirigi-me à casa dela, disposto a falar-lhe. Apressado, nervoso, o suor me vinha à testa. Estaria ela ainda naquele estonteante vestido azul? Ou enfiada em uma puríssima seda branca?
Para minha surpresa, o segurança não me deteve a entrava, era meu antigo conhecido de tantas madrugadas.

Meu coração aos pulos. Não deixaria que ela me humilhasse. Já o tinha feito bastante. Subi as escadas que agora pouco tinham sido o palco dela, cuja cena bambeou-me as pernas. Ofegante, tive ímpeto de voltar. Inseguro, quase não tinha forças. A porta de seu quarto. Outrora paraíso, poderia ser agora meu inferno. Fiquei um tempo ali parado, pensando no que eu nunca esqueceria; o tumulto que causara em sua vida aparentemente tão perfeita.

Então outro momento que também não esqueceria. Esse, depois que abri a porta e por questão de segundos a impedi de cortar o pulso. E logo em seguida desabar nos meus braços em um choro convulsivo. Não era mais a musa que todos idolatravam a momentos atrás. Era somente uma menina de coração partido, despida de suas vestes de deusa, tão mortal quanto todos nós. Essa sim, a mulher que eu amava. Essa a mulher que eu nunca teria abandonado.
Regina Gonçalves
Enviado por Regina Gonçalves em 21/11/2006
Reeditado em 22/11/2006
Código do texto: T297343

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Sobre a autora
Regina Gonçalves
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 33 anos
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Regina Gonçalves