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CANDIDATO DO ANO

                                  O CANDIDATO DO ANO

        Depois que  meu cunhado resolveu candidatar-se a vereador,  Susana, minha mulher, não é mais a mesma. Passa o dia todo percorrendo as periferias com santinhos nas mãos  promovendo "churrasquinhos" aqui e ali,  tentando convencer todo mundo que  seu irmão é a salvação daquele povo. O pior é  que  muitas vezes sou eu quem paga a conta. Sempre evitei compactuar com os devaneios da minha mulher mantendo-me longe dessas miseráveis "reuniões caça-votos" mas, dessa vez, não consegui encontrar um bom álibi  e acabei sendo vítima da sua chantagem emocional.
       O relógio marcava 21h30, impaciente, não via a hora de me mandar. Susana sempre foi metida a besta, agora  tem dado uma de quem se importa com o povo. O seu discurso a favor do irmão me comoveria se eu não os conhecesse bem. Meu cunhado, por sua vez, é  um playboy beberrão que não liga prá ninguém.  Já foi preso duas vezes por não dar pensão aos filhos. Envolveu-se na política  com a única meta de esticar  o seu orçamento mensal. É o  estereótipo perfeito para um "bom" político de carreira.
        Já era tarde e o bendito ainda não havia dado as caras. Em minha reflexão pessoal tentei entender como deixei  Susana me convencer a tomar parte naquele engodo.
       As pessoas do lugar eram simples. Uma casinha de madeira no coração da periferia denunciava a precária situação daquela numerosa família. Senti uma certa indignação pois  sabia que minha mulher em outra situação, nem olharia para a  cara daquelas pessoas. Estávamos no quintal pois a casa não comportava  todos. Havia um grande número de pessoas que julguei serem parentes e vizinhos do anfitrião que vieram com o único propósito de fazer uma "boquinha", eu só queria ir embora.
      Susana começou a me aporrinhar como se eu fosse o culpado pela irresponsabilidade do irmão. Notei que ela não agüentava mais dar desculpas pelo atraso do ordinário. A cerveja já havia acabado, a carne era minguada  e o  povo ia aumentando. Era uma comédia ver as  amigas peruas da minha mulher, cada uma com um celular, tentando encontrar o infeliz.
      A coisa foi ficando tensa, quando, na rua em frente a casa em que estávamos,  aglomerou-se um grande contingente de arruaceiros bêbados que gritavam reivindicando carne e cerveja.  Minha mulher  entrou em pânico. Nos meus vinte anos de casamento, nunca vi  Susana praguejar tanto o nome do amado irmão. A coisa começava a ficar interessante.
     Já eram 22h15 e nem sinal do famigerado. Fui saindo à francesa  e entrei no meu carro que estava estacionado no lado de fora. De longe, observava todo o movimento.     Não demorou muito e Susana veio em meu encalço indignada por  tê-la deixado sozinha e, como se não bastasse, me pediu dinheiro para comprar mais cerveja. Eu me sinto responsável pela moleza no trato com a minha mulher, mas prefiro "pagar" para não ter que ouvir. Dei o dinheiro barganhando  minha permanência no carro. Mesmo contrariada concordou.      Quando ainda estávamos no carro, meu cunhado deu o ar da graça. Com uma garrafa de whisky em uma das mãos, acompanhado de uma "senhorita" em trajes não muito ortodoxos, causou  um "frisson" geral na galera que estava do lado de fora. O sujeito estava caindo de bêbado. Minha mulher, pôs as mãos no rosto e suspirou profundo. Eu, com uma expressão "preocupada" no semblante, ria como uma hiena em meus pensamentos. Devido ao fato, Susana fez com que eu voltasse ao tal "churrasquinho"; até achei a idéia interessante, pois queria ver o desfecho da situação.
      Quando deu início ao "solene" discurso, percebi que as pessoas comentavam entre si:  "este homem esta bêbado"; "acho que eu conheço aquela uma que esta com ele"; "nossa! esse é o irmão da dona Susana?"; Não consegui me conter e soltei uma gargalhada. Susana me deu um beliscão e parei de imediato.
       Admito que o sujeito tem coragem, pois mesmo bêbado resolveu discursar. Como não conseguia ficar em pé, pegou uma cadeira e colocou em cima de uma mesa, improvisada como palanque, e sentou-se. Minha mulher começou a tremer  de nervosa. Eu,  tremia, mas por vontade de rir. Iniciou-se então o esperado discurso:
         "Povo da favela" - dessa vez até eu fiquei assustado -  "muitos de vocês  aqui não tem ( hic!) recursos,  para sequer embriagar-se direito. (hic!), Em meu mandato, (hic!)  as pessoas de classe mais baixa, como vocês (hic!), terão acesso ao CARTÃO BEBÃO, é um projeto da minha autoria (hic!) que viabiliza a você, amigo favelado, a ter o seu direito garantido de  tomar a sua CACHACINHA, no final do expediente,  porque, (hic!)  ninguém é de ferro! Além do CARTÃO BEBÃO, vou sugerir ao  nosso estimado  sr. Presidente da República, que também gosta de um METANOL (hic!), que acrescente  uma garrafa da MARDITA nas cestas básicas do povo brasileiro, (hic!) pois como disse o próprio JESUIS, nem só de pão viverá o homem. (hic!)  E tenho dito."
     Terminado o discurso, um silêncio mórbido pairava no ar que só foi interrompido pelo desesperado choro da minha mulher. As pessoas se entreolhavam  não entendendo absolutamente nada. Eu não tinha mais vontade de rir, estava preocupado em sair vivo dali.   Meu cunhado, ainda sentado na cadeira em cima da mesa, pegou a garrafa que estava ao seu lado, virou a grandes goles o que havia sobrado do whisky e caiu para trás. Um homem, também embriagado,   que ouvia atentamente o discurso, começou a pular aos berros dizendo: "Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!"

                                                                                   

       
marcos barreto
Enviado por marcos barreto em 30/01/2005
Reeditado em 23/08/2009
Código do texto: T2988
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Sobre o autor
marcos barreto
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
15 textos (2566 leituras)
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marcos barreto