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São Francisco Diz Que o Diabo Não Existe

Quando o Brasil estava dominado pela ditadura a censura não permitia que quase nada fosse publicado. Em tudo os militares viam os tentáculos da subversão Bolchevista. Então os artistas para conseguirem passar pela censura, com críticas pesadas sobre o regime, produziam quase tudo disfarçado de uma arte que tinha a única função de entreter.  Fuçando os arquivos que ficaram sob o jugo militar daquele tempo, recentemente disponíveis para a consulta pública, descobri um texto que me parece o fragmento de uma peça escrito por um autor não identificado. E que achei muito interessante. Havia apenas a palavra "CENSURADO", grande, em diagonal, manuscrita com caneta picel vermelha e uma data em caneta esferográfica azul:"8 de dezembro de 1968" Era então vésperas do temido AI-5.

Esta data remete ao tempo em que morávamos em Osaco, meu pai era operário numa metalúrgica de eletrônicos e até então eu não entendia o motivo daquela tensão constante que os adultos viviam. Em frente a televisão eu, minha irmã zeza e mamãe torcíamos juntos para Maria Cristina ficar com Roberto Albuquerque em "A Grande Mentira", novela da 7, da rede globo. Às oito meu pai já havia chegado. Quando o Jornal começava tínhamos que ficar quieto. Tensão. Não podíamos comentar sequer alguma coisa: eu, zeza e mamãe. Eu não via nada de anormal.

O fragmento de peça de teatro de que estava falando, talvez uma cena só, remete metalinguisticamente a outra peça que se passa dentro da história e que está sendo ensaiada no teatro da Usp. Começa assim: Clara está sentada no canto do palco. Chega João Miguel vestido de São Francisco, fazendo carinho num pato de borracha. À medida em que João Miguel vai dizendo a sua fala vai tirando as vestes de São Francisco e se transformando no Diabo.

João Miguel - Dizem por aí que sou São Francisco (fala acariciando o pato). Que sou muito bom com os animais. Então eu aceito e confirmo: sou São Francisco como queiram. Gosto muito de ser chamado assim. Mas eu quero que entendam que eu muito me esforço para manter essa imagem e esse nome. A vida quando parece que é, não é, e quando temos a certeza que não é, aí é que é. As coisas às vezes sendo se transformam na frente dos nosso olhos para o não sendo. E no mesmo instante em que posso afirmar que isso é um pato (aponta para o pato de borracha) pode ser que ele deixe de ser um pato nesse exato momento. Quando digo pato pode ser que eu não esteja necessariamente dizendo animal de penas que vivem em lagos e em algumas cidades é caçado em temporadas pré-determinadas. (dá o pato a Clara) Pode ser que eu esteja querendo dizer outra coisa quando eu digo pato. Ou seja, homem sem penas, sem defesa, caçado em todas temporadas por jogadores compulsivos em cassinos argentinos. (João Miguel começa a tirar a fantasia de São Francisco e se transformar no Diabo) Pode ser que eu esteja irônico. E vocês mesmos pensem por si que eu não sou santo coissíma nenhuma, mas apenas um pato que se transformou num Santo para escapar de ser caçado e que possa ir engordar um honroso general de brigadas. Aquilo que vocês enxergam não é aquilos que vocês vêem. (A essa hora já está completamente transformado em Diabo) E se foi digo que não foi. Mas não pensem que de Santo só vivo a salvar patos, também em minha tarefa tenho a incumbência de salvar almas. E digo: não percam tempo com o Diabo, porque o Diabo não existe. Muita gente se benze quando o nome do cujo é dito. Eu não tenho essas preocupações. Diz um tal português Antero de Figueredo que ele existe. "Que ele é o tanso que apalerma; o carocho que sarna; o enguiço que tolhe; O azango que encanzina; o ozoneiro que engoda; o diacho que azaranza; o nico que nos aborrece; o careca que nos rala; o dianho que nos enreda; o tição negro que enfarrusca; a coisa má que ataranta; o caipira que conspira; Ele é o mafarrico; zé-bodelho; encourado; maldito; não-sei-que-diga; o desencaminhador; malasarte; porco sujo; cão tinhoso; o tisnado, zaparelho, o barzebu que nos corrompe" e adentra a dizer arcaísmos e neologismos para afirma que demônio existe. É uma ladainha que nos cansa. Pois digo, o tal não existe. O Diabo é folclore. Cuido dos animais, mas também cuido das almas. hahahahaahahahahahaah... Estou sempre vigilante. Sou santo e não careço de dormir. Todos vocês me reconhecem. Eu sou São Francisco. Quando seus olhos no espelho, refletem um pequeno brilho de ganância. Lá estou eu. Eu cuido das almas. Quando o ouro do poder os açoita a consciência entre o sim e o não. Lá estou eu. E parem com essa besteira de acusar o Diabo. O Diabo não existe. hahahahahahaahahah...
E o texto termina aí. Eu vi São Francisco se transformando no Diabo. Meu pai foi preso pelo vendedor de pipoca que há alguns dias havia começado a se fixar na minha rua, quando este se transformou medonhamente num personagem mostruoso à minha frente. Entrou chutando a porta de casa e levou meu paizinho. Lembro que enquanto reviravam a minha casa este homem-demônio olhava para mim. Eu tinha 8 anos. Seus olhos eram amarelo-vermelho vivo. Sua boca se transformou numa caverna com dentes enormes, pontiagudos, salientes. Salivava com fome de sangue. No tempo da ditadura muita coisa que diziam na verdade estavam querendo dizer outra coisa.      
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 26/05/2011
Reeditado em 11/08/2011
Código do texto: T2995144

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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