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Cento e vinte e um

CENTO E VINTE E UM

Flores pendiam aos cabelos. Ouviu o lamento dos cães sem compreender porque latiam durante o dia. Queria ter lágrimas, mas não havia nada no leito seco das emoções. Somente gelo. Calor, gelo, olhos, sem sorrir – não seria de bom gosto, para que sorrir se todos sorriem como tolos?
Um pacote chegou. Quem disse isso, não importa, não ia abrir, para quê? Eram o de sempre, mais adeuses, mais olás, mais queres comprares. Vermute. Não, já é demais. Olhos, olhos, todos esperam que abra e com a calma da repulsa, abre por abrir.
Um, não, deixe. Flores. Mais flores. Porque mandam flores devo sorrir... sorri. Lindas, aliviam. O cartão com rabiscos baratos de caneta, desleixo, sinto muito. Ninguém sentia menos do que ela, todos sentem menos eu.
É que ninguém o viu bêbado, nervoso, no cala a boca, vadia, vinho tinto na face, dela, dela é claro. Doces lembranças, meus sentimentos, obrigada, amarelo, formal como o vermute. Maldita bebida, por que lhe deram aquilo, queria licor, mais formal, lembra a mãe quando levava a gente para visita de licor na casa da comadre? Sorriu por sorrir, ela sempre odiou as visitas.
Viveu vidas de ódios, de dores, de convenções, de formas. Devia ter divorciado, foi como santo, nunca saberão quem era, droga, nem pensando no mal chorava a maldita e necessária lágrima! Não podia divorciar, não era direito para boa moça com manchas de vinho pelo corpo.
Mal estar. Fingido, preciso, rápido, sobe as escadas e se tranca no quarto. Se já enterraram, por que não vão? Olha-se no espelho, seu rosto, está contorcido, vago, mole. Olha para as fotos, sorri, lembra dos sonhos que tinha e não se consumaram. Aí sim, enfim, umas lágrimas. Bonitas, discretas, convincentes. Bateu no rosto, nada sentiu, estava habituada àquilo. Pronta, desceu triunfante, atriz, todos e tudo consternados em burbúrios, ela foi chorar no quarto, coitada, tão nova e fiel.
Todos se foram. Um a um, menos um. Aquele não iria, volúpia, desejo pulsava nela. Sabia o alívio e prazer que experimentaria quando todos se fossem e somente os dois permanecessem. Mudaria, viraria sua vida, qualquer coisa era melhor que o, esqueça, está em outro lugar, foi o melhor, foi tarde, bonita cena, viúva sedutora, era a mudança.
A mudança chegou-se de calças pretas e terno escuro, mãos grossas e olhar penetrante. Deus era justo, deixá-los a sós, excitava ao pensar que, lá fora, mais a esperavam, um novo mundo, consumar seus prazeres, limpa de ódios, desejos.
Sentiu o toque discreto das mãos e sorriu, agora sorriu sem formalidade, estendendo os pulsos em cálido e sublime prazer, enfim seria tomada, possuída, sem manchas vinhosas no corpo pálido.
Delicado, ele lhe colocou pulseiras prateadas e, sorrindo, murmurou em uma ordem que lhe era tão doce:
- Vamos?
Este era seu destino.
Algemada, foi conduzida à viatura. Cento e vinte e um. Qualificado. Premeditado.
Os cachorros não latiam mais.
MariaLia
Enviado por MariaLia em 23/11/2006
Código do texto: T299526

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Sobre a autora
MariaLia
São Paulo - São Paulo - Brasil
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