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MEU RUMO

Dei alguns passos pela calçada suja, enlameada pela enxurrada, sem imaginar que fugiria dali tão rapidamente. Modo de dizer, meus pés doíam e os passos que davam tinham a medida certa de fugir da poças. Sacos plásticos entulhavam-se nas bocas de lobo. Carros passavam próximos à calçada, aumentando ainda o caos que se alimentava de nós, mendigos, pedintes, marginais, prostitutas, acostumados a fazer da deformação geral, o nosso modo de vida. Mas chegar aquele ponto de ser chamuscado, quase queimado, quando uma mão rápida com cinzeiro se aproximou do banco em que estava e tacou fogo como pôde. A sorte foi a chuva. A sorte foi estar acordado. A sorte foi ter forças ainda para levantar, examinar a cara do bandido e esborrifar nele um cuspe que me vinha da alma. Ele fugiu, dando risada da minha cara. Eu fiquei, ali sentado, ali sozinho, ali maldizendo o que não tinha pra maldizer. O que não tinha que esperar. Quem sabe morrer ali, na rua, queimado, transformado em cinzas não era a saída? Mas ficar assim, humilhado, era pior. Ainda me sentia assim. Ainda tinha brios que desconhecia. Agora estou aqui, com fome, procurando um café pra aquecer o estômago. Mexo nos bolsos, agitado. Parcas moedas tilintam nas mãos. Oh, moço, quer encostar o carro? Puxa pra cá, arreda pra lá. A gente se acerta. Mas é difícil participar da vida dos outros. Eles não querem intimidade. Têm medo da gente. Medo de bandido, como eu. Talvez, um dia, procure uma saída. Talvez saia desta vida, faça a barba, corte o cabelo e procure alguém que ficou pra trás. Lá longe, bem distante, quase no infinito do paraíso. Uma velha mãe escondida na costura. Uma mulher que mudou de vida, para esquecer o marido bêbado. Levou os filhos, levou os móveis, os poucos agasalhos. Levou a vida. Mas só o café não basta. Um trago forte vinha a calhar. Quem sou eu, me pergunto. Lavo os pára-brisas dos carros em busca de alguns trocados. Procuro uma vaga nos estacionamentos. Se não existem, invento. Tenho raiva de fazer isso. É o que me toca. Não tem jeito. Quem sabe, ainda arranho o carro deste cara, que esqueceu de  me dar o que mereço. Aturar a cara emburrada, enfiar um sorriso, tentando argumentar do meu jeito e depois ser jogado pro lado, como quem empurra um traste qualquer, interrompendo o caminho. Quando a noite chega, o frio aumenta. Voltar pro buraco, é tentar conhecer o túmulo antes da morte. Empurrar os pés na laje e fingir que se encosta no baú, aos pés da cama. O frio enrijece os músculos. Os pensamentos ficam mais demorados, mais confusos. A melancolia avança noite adentro, sem convite. Tenho tosse, dor de cabeça. Pés gelados. Ouço barulhos lá fora, risadas, choros, gritos quase uivos ao longe. Alguém que morre, leva porrada ou vai preso. Ainda tenho este canto do túnel pra me agasalhar. Os companheiros não vieram. Certamente estão enfiados nos albergues  para passar a noite. Aquecer a garganta com uma sopa quente, submeter-se ao banho. Sinto que não vou dormir. Uma luz forte invade meu espaço, sem pedir licença. Vozes de homens, ganidos de cães. Um grito mais forte nos meus ouvidos, o cano de uma arma apontada para minha cabeça. O mundo mergulha em desespero, não por mim, não pela minha pele frágil e suja. Mas pela dor tangente na alma dos homens. Um dia os sinos tocarão em regozijo e eu serei, quem sabe, amado por alguém. Aquela velha na costura pode estar lá me esperando, talvez a gente se encontre. Puxam-me os pés, empurram-me o corpo, usam expressões rasteiras. Olhos brilham na noite, como corujas alertas.  Me encaram de perto. Cães farejam. Sentem meus humores. Procuram meus pertences. Examinam meus bolsos. Nada que procuram encontram, mas o que acham lhes basta para completarem o gozo: meu corpo frágil e oprimido. Pelo menos, aqui, têm uma resposta a suas indagações. Um fósforo brilhou próximo aos olhos de um deles. Estremeci, não pelo fulgor dos olhos, mas pelo clamor da chama. Baixei a cabeça e vi cair perto dos coturnos o palito quase cinza. Mas a visão daquela chama ainda abala meu ser, como se os alicerces enferrujados afrouxassem pela força do vento. Vento que agora zune forte, esfriando ainda mais o ambiente. Levaram-me com eles, sem dizer o destino. Tinha de concordar, quieto, calado. Era dia de limpeza. A cidade aguardava um influente evento internacional. Tinha de tomar o meu rumo.
Gilson Borges Corrêa
Enviado por Gilson Borges Corrêa em 30/11/2006
Reeditado em 10/12/2006
Código do texto: T306257
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Gilson Borges Corrêa
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil
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Gilson Borges Corrêa