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Suicídio Anunciado.



Sinto-me tão só nesta tarde ensolarada. Sinto-me como se fosse o único ser a habitar o mundo. Meu caótico estado faz com que eu titubeie. A tristeza em forma de agonia intensifica minha solidão nesta infinda e deplorável tarde.
E, nem ao menos tenho lágrimas para chorar, se as tivesse, certamente formariam um oceano de mágoa, paixão, depressão, angústia, tédio! Em minha mente vêm lembranças do passado aporrinhado, obscuro,distante; levado pelo tempo cruel que apagou em mim o afeto e deixou marcas profundas que, por suas cicatrizes, lembram o anonimato que agora me confina nesta triste paixão. Acabarei enlouquecendo.
Cutuco-me inquieto. Se ao menos tivesse um amigo para dialogar, com certeza me animaria; ou talvez um parente ainda que distante que se lembrasse de mim! Mas, rompi com o mundo, sou sabedor que não tenho ninguém. Minha solidão aumenta, alucino.
Debruço-me sobre a janela e vejo criancinhas a brincar de corda ou amarelinha! Que vontade de brincar com elas! Mas, minhas rugas por si só, demonstram que já estou um pouco crescido para tal diversão. Mesmo assim, a vontade implora um sorriso, e prontamente o cérebro intercepta a prática.
Praguejo com veemência. A paixão aperta no esmorecido peito, não dando trégua para minha recomposição, uma loucura que aporrinha, não desgruda. Com intermitência, martela a mente, corroendo, bloqueando qualquer tipo de reação de ação ou iniciativa. Estou a ponto de explodir. Tudo sonho inócuo, ilusão. A realidade cutuca-me, vem a razão dizendo que não sou mais criança. Nunca tive uma infância feliz, não me recordo de ter tido uma criação florida, só me lembro dos intemporais anos. As lágrimas rolam.
Olho para meu relógio, as horas parecem estacionar. Inutilidade de relógio, parece incentivar minha tristeza. Desafia-me com seu tic-tac zombador. Ignoro a desfeita. Minha cabeça padece, dói. Acho que estou próximo a uma implosão mental.
Esforço-me, tento me lembrar de alguma coisa boa, como que um sonho te vejo dengosa, cheia de rendas e babados, despindo-se para mim, beijando-me e acariciando meu corpo...Mas, em frações de segundos surge uma sombra entre nós, é o “outro” que se chega todo imponente e rouba você de meus braços. Droga! Dás-se um bloqueio em minha mente. Esta não é a lembrança que eu gostaria de ter. Decido não remoer fatos, acendo um cigarro.
Em meio a tantos pensamentos desconexos, mais uma bobagem zune, penso que a cia. Telefônica poderia religar meu telefone, assim eu poderia conversar com alguém, em se procedendo a isto, poderia dividir minha solidão com alguém, também sofrendo de amor.
Bem sei que isso não passa de pirações frustradas de um otário apaixonado. Novamente encaro o relógio. Parece que os ponteiros do desgraçado nem saíram do lugar. Começo a suar. Sinto o triste anunciar de meu fim. Encafifado com esta droga de paixão que me domina, abro uma garrafa de uísque, encho o copo e me ponho a te castigar perante o álcool. Entupo-se de uísque.
Num segundo de lucidez, ouço alguém mexer no portão. Como um relâmpago, corro até a janela na esperança de poder te ver. Sinto que você vem a meu encontro. Meu coração parece disparar levado pelo clima que irradia alegria. Um inefável sentimento me absorve enquanto corro, minha mente se confunde num emaranhado de pensamentos, triturando-me ainda mais. Será que ela vem se reconciliar comigo? Teria ela entendido meu péssimo comportamento nos últimos meses e me brindaria com sua presença neste momento de minha amargura? Chego até a janela, olho com apreensão, meu corpo treme. Olho mais uma vez e a decepção envolve meu coração. Não é minha amada, e sim o diabo do carteiro com uma carta. Abro-a.

“Neste adeus final, te convido
A compartilhar este momento,
Amanhã será o meu casamento”

Não! Aquilo só poderia tratar-se de alguma brincadeira, como poderia ela se casar com outro, se sou eu o seu amor? Catei o espelho, e vi as lágrimas da rejeição banharem a enrugada face. Meu corpo se desfaleceu num infinito de amargura. Corpo e mente cansados de desilusões. Tudo estava perdido!
Decidi que tudo seria passado, e meu relato não está mais no presente. Voltei para o quarto. Encarei o ambiente, cubículo fétido. Eu não tinha mais opção de vida. Perdera o amor, o brilho, os amigos, o prestígio, o dinheiro, a família...Tudo em troca de um amor não correspondido que agora me dava às costas. Não vi outra saída, se não dar cabo da vida. Fui até a cozinha, apanhei o botijão de gás, abri a válvula e deixei o ar se invadido. Se me consideravam um paria da sociedade, a culpa era da própria sociedade que sempre me hostilizou com seus fricotes, caprichos e regras utópicas. Amaldiçoados sejam todos.
As portas e janelas foram trancadas e vedadas. Acendi outro cigarro e engoli mais um copo de uísque. Uma tremedeira foi me dominando, o maldito sentimento agora era revertido ao ódio pela frustração do amor. Não conseguia nem mesmo coordenar meus pensamentos. Querida, porque não aparece neste momento tão crucial? - Pensei eu, vendo o gás se intensificar pelo ambiente, invadindo minhas incautas narinas e causando um nó na garganta. O cheiro mórbido da morte tomou chegada. Sentia-me zonzo, fraco; sem forças para locomoção. Tentei me movimentar minha imunda mão, nada. Não conseguia mover sequer um músculo do corpo. Agucei os tímpanos num esforço descomunal e captei o trovejar de palmas e gritos, provenientes das brincadeiras das crianças que se divertiam.
A desgraça em forma de fumaça foi se apoderando de mim, impregnando o infecto cubículo. Estava imóvel, e senti uma aranha me saudar com um beijo rente ao olho esquerdo. Não sentia mais dor. A podridão da morte me estendia a mão. O sufoco na garganta estava restringindo a ultima passagem de ar. Senti um peso no corpo. Minha desconexa e desfalecida mente novamente vagueou por espaços infindos e obscuros e todo meu corpo quedou num sono profundo. Estava indo de encontro ao inferno, dando um baile na paixão. Aquela desgraça de sentimento agora me largaria. O cheiro agora era torrencial. O gás vinha forte, impiedoso. Minha respiração ofegava. O odor vinha feito nuvem negra. Agora teria sossego. Enfim, após desenfreados tormentos e angústias, andando de lá para cá com a paixão a tiracolo, naquele momento estava me despedindo da maldita existência. A fumaça estava datilografando o ar, escrevendo meu destino. Dei adeus à paixão amaldiçoada que sempre me azucrinou. Estava me despedindo de minha amada com a certeza de que em breve, iríamos dividir a mesma cova. O gás findou por asfixiar minhas narinas, me privando da respiração.
Agora a autofobia já não metia medo. Dei o penúltimo respiro e me despedi definitivamente desta fornalha humana apelidada de mundo. Minha ultima recordação era da maldita aranha que findou por atravessar meu olho esquerdo e sugou o líquido com seus agudos espinhos. Uma aranha enorme, da espécie Golias. Meu último respiro foi abafado. Dei alguns passos e subitamente transpus a parede, incompreendi e retornei ao cubículo, novamente efeito da transposição, ganhei o outro lado da parede.  Inacreditavelmente, eu estava ótimo. O gás havia se dissipado, em seu lugar uma suave brisa acalentava. Talvez eu estivesse num sonho ou pesadelo. Vi um corpo com hematomas arroxeados estendido no chão, inerte. Cheguei mais perto e olhei com assombro. Eu me vi morto. O espírito havia se separado da matéria. E foi assim que eu morri!!!
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 13/07/2005
Reeditado em 22/09/2005
Código do texto: T33803
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Paulo Izael

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