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Noite em fúria

A noite já era alta. Tudo parecia dormir na grande casa. O escuro do quarto foi interrompido pelos fortes relâmpagos que se mostravam enfurecidos na grande vidraça onde a chuva forte estourava, como que quisesse invadir o velho quarto apossando-se de Ana.
Sozinha em casa, deitada em sua cama com as cobertas tapando-lhe meio rosto, ela rezava para que a tempestade se acalmasse, tamanho o pavor que sentia. Aliás, medo esse que a acompanhava desde criança pois lembrava  perfeitamente das  noites de tempestades quando dormia com a mãe na grande cama de casal que seu pai ocupara enquanto vivo.
Hoje sua mãe já não estava mais na grande casa. Estava ali, ela e seus “fantasmas”,  sozinha. Medos e pensamentos misturavam-se em sua mente,  quando foi desperta  pelo barulho de passos vindos da escada velha de madeira.  Num sobressalto, viu-se em pé ao lado de sua cama. Olhou fixo na porta esperando que ela se abrisse.
Mãos frias e úmidas, coração saltando forte no peito, viu a grande maçaneta da porta girar lentamente. O tempo parecia parar e o chão de madeira sumia aos seus pés.  Aflita,  já não respirava mais.
Em passos lentos, aproximou-se da porta. Com mãos trêmulas, segurou a velha maçaneta que parara de girar. Tirou forças não se sabe de onde,  e abriu a  a porta .. Deparou-se com um grande vazio. Tudo escuro no largo corredor que mais parecia fazer parte de um museu. Seguindo seus instintos, buscou   explicações para o barulho que ouvira, e foi até o corredor chegando à velha escada. Nada encontrou, somente o grande vazio que se perdia na escuridão da noite.
A tempestade continuava forte. De volta ao seu quarto, agora totalmente desperta, sentou-se na velha escrivaninha e começou a escrever sem saber ao certo o que ou para quem. Percebeu  então que iniciara uma carta de despedida. Nela explicava o motivo de sua morte. Num salto, largou a caneta afastando-se da escrivaninha. O barulho da cadeira caindo no velho assoalho de madeira ecoava pela casa. Não! Decididamente não podia mais continuar ali! Aquela casa mexia com seus sentidos, tirava-lhe o equilíbrio que lutara tanto por manter.
Em meio ao desespero, fez  as malas. Algumas poucas trocas de roupas mal colocadas numa bolsa de viagem e pronto. Estava pronta para partir! Desceu rapidamente pelas escadas abrindo a porta da frente que dava para a varanda quando se deparou  com um homem alto, traços rústicos que lhe  lançava um olhar distante.  Instintivamente Ana fechou-lhe a porta e voltou correndo para seu quarto. Trancou a porta escorando com a pesada cadeira que derrubara momentos antes. Foi até janela,  e viu que a distância do telhado até a árvore a sua frente não era grande e resolveu  sair por ali mesmo.
A chuva fria tocava-lhe o corpo como lâminas afiadas. Ana saltou para o telhado e seguiu rumo à grande e frondosa árvore à sua frente. Num salto, agarrou-se a um galho e por ele chegou  ao tronco. Ficou ali escondida,  onde podia ver o homem que arrombara a porta de seu quarto e entrara com passos largos.
Sabendo que não poderia ficar naquela árvore a vida toda, decidiu descer enquanto o homem ainda estava na casa, assim ganharia tempo na fuga. Desceu apressada, sem olhar para trás e  seguiu correndo em meio à estrada de terra que com a forte chuva, virara lama. Ana escorregou várias vezes, tamanha a dificuldade de se manter em pé.  O desespero tomara conta de todos os seus sentidos. O frio, a chuva, a lama, a escuridão... O mundo parecia querer tirar-lhe a vida. Ana correu sem saber para onde; sem parar! Precisava salvar-se! Precisava livrar-se daquele homem.  Onde estaria o tal homem? Era um assassino, um assaltante?
Sua casa era afastada da cidade. Não existia nenhuma outra casa por perto. Desesperada e só, Ana  correu em meio à escuridão e à chuva que fazia a lama crescer ainda mais sob seus pés...
Naquele momento Ana pensou que não suportaria mais tanto pavor . Estava  quase  desistinto, quando num só estrondo as luzes à sua frente se acenderam transformando a noite em quase dia, tamanha era a potência,  e um grito forte ao longe se ouviu: “Corta! Perfeito!! Por hoje é só pessoal. Todos estão dispensados!  Amanhã continuaremos a filmagem"
E Ana finalmente dormiu.
Aisha
Enviado por Aisha em 13/07/2005
Reeditado em 15/07/2005
Código do texto: T33935
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Sobre a autora
Aisha
Jundiaí - São Paulo - Brasil, 50 anos
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Aisha