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Searas

 

Lá do alto da Torre do Relógio, espreguiçaram-se, ainda enremeladas, cinco sonoras badaladas por toda a cidade adormecida.

Os galos, vistosos e pampeiros, seguiam os acordes das badaladas num cócórricó desafinado.

A aurora chegou à porta e adentrou sem cerimónia no quarto caiado de branco. Caminhou silenciosamente em direcção à cama e entranhou, sem escrúpulos, nos lençóis encardidos e passajados pelo tempo, acariciando aquele corpo franzino.

As cortinas, de braços caídos, curvaram-se e deixaram entrar o reflexo das searas de oiro, lembrando-lhe que a meia-lua enferrujada a esperava em cima da cadeira de costureira.

Poucos eram os móveis que davam vida ao cubículo que a cada final de dia a acolhia num silêncio mórbido, quase brutal.

No meio do quarto, uma mesa, herança da sua avó materna, abraçava duas cadeiras de assentos de corda áspera, e em cima, em guisa de napperon, um lenço de linho cobria, parcamente, as rugas que o tempo impregnou na madeira ressequida.

Na parede em frente à porta, apoiava-se uma velha arca que continha, ainda, o seu almo enxoval e, embrulhada numa colcha de retalhos, a vaga esperança de que um dia o seu corpo, um pouco murcho pela faina, reflorescesse e cativasse os desejos de um moçoilo da sua terra... ou mesmo de um homem um pouco maduro que a soubesse respeitar sem que os calos das suas mãos rugosas, ao lhe acariciarem os sentimentos, lhe deixassem sulcos na sua alma tiritante.

A outra parede, à esquerda da porta, acolhia o leito de Ana. O leito que, dia após dia, ciciava-lhe, entre sonhos, as misérias da vida.

Escassas eram as horas em que nele se deitava. Os ponteiros do relógio corriam apressados, quase que em silêncio, em busca da paz... que não se avizinhava.

Num dos cantos do quarto, um bojudo candeeiro alumiava o fogão de lenha e a chaleira já pronta com a água para o café.

No outro canto, num apoio de ferro forjado, um jarro e um alguidar de porcelana esperavam-na.

Enfim, levantou-se. Lavou-se, engoliu de um sorvo o café quente, e enfiou as pesadas saias negras empoeiradas pelo dia anterior. Na cabeça, um lenço acastanhado com cornucópias, impunha ordem nos seus rebeldes cachos loiros.

Calçou as suas botas caneleiras ao mesmo tempo em que pensava levar, enrolada num farrapo qualquer, a sua escudela. –Mas para quê, pensou. Ninguém dividirá o seu parco farnel.

Pensou, também, em levar à tiracolo um cantil com água fresca. Quantas vezes as mãos abrasadas pelo sol do Alentejo, ao contacto com o cântaro de barro, transformavam-no em água barrenta.

Caminhou em direcção à porta e fechou-a de um gesto delicado. A madeira rangeu e disse baixinho: “Mais um dia!... Mais um dia de labuta, por um fatacaz de pão bolorento e sem permuta!”

Correu pela rua da Ladeira parando, como de costume, diante das chaminés de escuta. Ah! Se elas pudessem escutar os desejos que a povoavam, noite e dia ! Se elas pudessem, ao menos, perscrutar a sua alma irrequieta e ouvir as suas preces, de certeza que alguém viria à sua porta cantar
 
Debaixo da laranjeira
Eu vi-te a saia rodada.
Mas que linda rapariga
Para ser minha amada!

Para ser minha amada
Para ser o meu amor,
Debaixo da laranjeira
Eu pedi-te uma flor.

Abanou a cabeça como para afugentar encantados pensamentos, e caminhou de passos apressados por entre as ruelas empedradas de Serpa, até avistar a Ti Maria, uma mulher de uns 50 anos, que a esperava na soleira da porta.

-  Oh rapariga, põe uma cara mais alegre! Arre, dessa maneira até a minha avó casava mais depressa.

Sorriu e, de um gesto alegre, empunhou-lhe o braço seguindo rua abaixo.
O Sr. Francisco, o ferreiro da terra, já martelava as ferraduras.
O Sr. Manuel, assobiava uma velha canção enquanto abria as portas da padaria.

Não é a acefa que custa,
nem o calor do Verão...
É a erva “unha-gata”
E o cardo “beija-na-mão”!

Um cheirinho de pão alentejano e de pão com chouriço, flutuava desenvergonhadamente ao som desta quadrinha, olvidando-se das gotas de suor e sangue, que as foices deixavam nos grãos e nas mãos ao final de cada tarde, enquanto a malta ceifava o trigo nos vastos campos.

Entrou e pediu um papo-seco. O dinheiro da jornada anterior não chegava para mais. Nem para passar pela taberna da Dona Eulália e comprar um decilitro de vinho para ajudarem a descer, goela abaixo, o papo-seco...seco!

Ana não se queixava da sua vida. O seu olhar somente se enegrecia quando regressava a casa acompanhada pelos últimos raios de sol, e pela poeira dos caminhos pedregosos que os seus pés cansados sulcavam ainda mais a cada passo dado. E a cada passo, uma modinha trauteava na sua mente.

Anda cá se queres água
Que os meus olhos te a darão.
Ela é pouca, mas clara,
Nascida do coração.

Ela é pouca, mas clara,
Nascida do coração...

E a cada passo, entre os cantares da malta, a sua alma partia ao ritmo ondulante do trigo e daqueles bravos cantares. Os versos sibilados, eram amputados a cada movimento da foice e partiam por entre os bagos, amassados por outras tantas mãos calejadas, terminando em esfarelos, migalhas...as mesmas que encontrava à mesa das suas noites solitárias, e que engolia acompanhadas pela água que dos seus olhos brotavam. Água clara, nascida do coração...


20/11/2003
Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 18/07/2005
Código do texto: T35351

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires