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A Emparedada da Rua Nova


        Recife, tempo antigo. Era noite de carnaval e as ruas estavam repletas de alegria. As camélias, debruçavam-se na janela como mulheres vistosas que dão de ombros e sorriem nos dando as costas. Da calçada, do lado oposto da rua, podia-se ver a sacada da casa branca e a sombra de uma moça com um véu de noiva na cabeça entre as cortinas. Era quase madrugada, a escuridão na rua nova era fantasmagórica, mas ao longe ouviam-se cantorias. As casas adormeciam com um peso grave e um vento úmido de mar soprava naquelas cortinas e traziam do porto os murmúrios dos bêbados.
O vento soprava também os negros cabelos da moça, e a moça cantarolava uma musiquinha tão triste que era de acalentar os fantasmas. Mais uma vez se repetira aquela data: 14 de fevereiro. Foi quando morreu Clara, sua irmã. Sua repentina partida cortara ao meio o coração do pai e bruscamente levou a lucidez da mãe. Eles haviam sonhado para a morta, um arsenal de felicidade de tanta beleza e formosura... mas tudo virou um perfume de saudade.
Pairava no ar durante anos, um cheiro de coisas dormidas e cansadas. O velho lamentava tanto tudo aquilo e vivia resmungando sozinho os lamentos. Ao lado da mesa, na cadeira de balanço, Rosa, a mãe, olhava de jeito perdido os ponteiros do relógio que caminhavam à deriva. Dona Maria Rosa perdera o foco do olhar, seu peito era porto final, nada a reanimava.
Eugênia, nome de sinhá, nome de camélia triste, nome de mulher antiga, forte, era a filha mais velha. Sua presença estava mais despercebida do que já era antes de partir Clara. A moça era mais um fantasma entre fantasmas e andava sorrateira pelos cantos da casa a murmurar músicas de igreja. Dentro de si, expandia-se com rumores de escuridão uma semente, ela tinha no mais profundo segredo um ato impensado encoberto que a flor do amor inconstante lhe dera: uma chance para rir da vida, alguém seu, profundamente seu crescia em seu ventre, em silêncio. Tinha também um antigo noivado que era coisa partida em suas costas, ela era desde então algo partido ao meio.
Sentada diante do espelho, encarava o próprio olhar numa esperança certeira, acariciava com o véu seu rosto pequenino e preparava-se no momento mais premonitório de sua vida: iria fugir. Vestida de noiva, iria fugir. Numa noite de carnaval ninguém a levaria a sério, se a vissem daquele jeito na certa iriam rir. Aprontou uma pequena mala e esperou alta noite cair.
Quando alta noite caiu trazendo a madrugada, ela vestiu-se lentamente com cuidados de gueixa e desceu as escadas igual gato matreiro, igual mulher que vai escondida brincar o carnaval, toda de branco, suave, uma mão repousava no ventre, a outra segurava a mala, os olhos iam pra todo lado, os ouvidos também, a respiração ofegava de medo, se o pai descobrisse era morte certa. Mas a felicidade tocou levemente seu coração quando ouviu ao longe vozes que cantavam: “Quando se vai um amor... desses que a gente quer bem, a gente espera seu moço, até que um dia ele vem.”
Num átimo de segundo porém, a felicidade se foi na fragilidade da brisa. O vento de mar trouxe também maus presságios e a fez tropeçar nas escadas. Foi ali que em um segundo o destino fez morada. O pai desceu enfurecido pensando estar sendo invadida a casa por vândalos, e vendo a filha naquele estado ridículo e a mala pronta nas mãos desmanchou-se a espancá-la sem termos. Foi quando de repente ela soltou o grito de morte:

Papai não! Eu estou grávida!

Ao ouvir tamanha desgraça, o coronel Mariano foi tomado por uma força gélida que paralisou por instantes suas mãos e seu olhar, foi quando sua expressão ferina tornou-se selvagem de vez e veio-lhe pela garganta um asco de fera. Subiu-lhe à cabeça uma sensação de vergonha repleta de imagens furtivas com grandes rostos rindo dele que bailavam com ironia diante de sua mente num lapso de segundos. Não havia diante daquilo mais nada para ele, glória alguma, e seu passado de severas conquistas era tudo que tinha de ser preservado. Sua honra. Seus grilhões.
Foi assim que num último golpe, acertou a filha em cheio na cabeça e ela desmaiou.

Infeliz! Desta casa você não sai! Quer ver? Pois você vai ver. Agora você vai ver.

Dos fundos podia-se ouvir murmúrios de mãe que pareciam rezar um terço:



Não. Não faça José... não faça. Não faça José, não faça não.

Saiu como um touro em busca de um machado e o encravou contra a parede do porão diversas vezes. A escuridão reinava de madrugada. Uma vizinha ouvira tudo mas assustada não interviu. A cada machadada sua ira aumentava, estava decidido a acabar com todas as suas desgraças.
Preparou os tijolos, o cimento, preparou tudo. Com força de bicho carregou Eugênia e encravou ela na parede, estava ali, era uma lua de madrugada muito branca, era uma pintura delicada, era um quadro vivo. O buraco era menos fundo que um túmulo, parecia mais uma moldura. José Mariano postou-se determinado a levantar os tijolos e a jogar com força o cimento. Dos fundos ouviam-se murmúrios de mãe:

Não José...faça não, faça não.

E íam subindo os tijolos como sobe a maré no meio da noite, uma maré silenciosa de oceano profundo e cheiro forte de sargaço. Uma maré que se levanta pelas mãos de um Deus impiedoso a apagar aos poucos uma visão de lua cheia. Foram aos poucos sumindo os pezinhos, o ventre ainda vivo, umas mãos de veludo tão cuidadosas de fiar e tecer tantas esperas. Íam também os cabelos de escuridão, um rosto que virado de lado parecia o de uma virgem que dormia e no pescoço um relicário com a foto de um homem moreno e desconhecido dentro. Tinha uma dedicatória atrás: “com amor eterno”.
Sua forma sumia na renda, sumia na pedra e no cetim, sumia nos bordados e folhas secas de jasmins, mergulhada pela ascensão de uma maré de pedras, ela sumia inconsciente, a lua, ía-se com o amanhecer do dia, a emparedada. Quando acordasse já estaria mergulhada naquele mar para morrer afogada. Ninguém a salvaria.
Quando veio a manhã, os blocos posicionados cantavam marchinhas de amor e tinham estandartes coloridos. Passavam na Rua Nova com grande festança, mas foi o Bloco das Flores que baixou sem perceber o estandarte diante da casa branca, e ali assentou-se  por horas a cantar.



Mila Mariz
Enviado por Mila Mariz em 17/05/2012
Código do texto: T3673437

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Sobre a autora
Mila Mariz
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 35 anos
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Mila Mariz



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