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A CANETA MÁGICA
J.B.Xavier


Era uma vez um menininho muito, muito inteligente chamado Claudinho. Ele era muito sabido. Todos os seus amiguinhos vinham pedir para ele os ajudar a fazer a lição de casa, ou a construir pipas muito bonitas.

Claudinho tinha aprendido a ler muito cedo, bem antes de entrar na escola. Por isso quando ele começou a primeira série, era sempre o primeiro aluno da turma em quase tudo.

A diretora da escola do bairro onde Claudinho estudava resolveu então que ele deveria ir direto para a segunda série, antes mesmo de terminar o ano. Isso deixou Claudinho muito feliz e orgulhoso.

Claudinho sabia que era diferente das outras crianças. Por isso ele não era humilde. Ele queria ser o aluno mais notado em sua classe , no clube que freqüentava, na turminha da rua onde morava e em todos os outros lugares.

Os pais de Claudinho tinham um orgulho enorme do filho, mas tinham também uma pequenina tristeza. Um dia, enquanto jantavam, disse o pai dele para sua mãe:

- Você não acha que o Claudinho está sendo mimado demais? Ele está começando a achar que é o menino mais inteligente do mundo, o mais capaz, o mais...

- Ah! Deixe o Claudinho em paz! - Respondeu a mãe – você não sente orgulho dele?

O pai ia responder quando eles ouviram Claudinho ao telefone, dar uma bronca danada num dos seus amiguinhos. Ele batia o pé, de raiva, enquanto xingava o amiguinho.

- Seu burro! Você não leu nosso trabalho antes de entregar ele para a professora? Vai ver não foi nem você que digitou! Agora tiramos só nota 5! E tudo por sua culpa! Droga! Como você é burro!!

O pai de Claudinho olhou para a mãe e disse:

- Se ele continuar assim, em pouco tempo não vai sobrar nenhum amiguinho... Não se esqueça de que no último aniversário dele fizemos uma força danada para trazer alguns meninos para festa...e a cada mês ele tem menos amigos...

Uma lágrima brilhou nos olhos da mãe de Claudinho...Ela sabia disso tudo, mas o que poderia fazer? Ele parecia ser o filho que todos os pais gostariam de ter...por isso não conseguia nem pensar em ralhar com ele.

O pai levantou-se e disse:

- Vou tentar falar com ele...

Mas, quando o pai tentou dizer ao Claudinho que ele não devia tratar os outros daquela maneira, ele ficou zangado e resmungou:

- Eu devia ter feito o trabalho sozinho! Eu ia tirar dez! O que posso fazer se eles são tão burros?
O pai abraçou Claudinho e disse:

- Vocês formaram uma equipe de trabalho, não formaram? Pois numa equipe ninguém pode querer ser mais importante do que ninguém! Você precisa respeitar os limites dos outros...e depois, ter amigos que gostam de você é mais importante do que tirar sempre dez! De que adianta você tirar sempre dez e não ter com quem comemorar essas vitórias? Você já pensou nisso?

Claudinho ficou quieto, com cara de quem não concordava. O pai passou a mão na sua cabeça e disse, enquanto se afastava:

- Um dia você vai ter que aprender que ter amigos é a coisa mais importante do mundo...espero que não demore muito...

A mãe de Claudinho que estava ainda sentada à mesa, fechou os olhos e em silêncio pediu a Deus que fizesse dele um bom homem, que não permitisse que o orgulho viesse morar em seu coração...

No domingo seguinte, o pai de Claudinho deu de presente a ele um novo jogo de computador. Claudinho ficou jogando até tarde da noite, desobedecendo a mãe.

No dia seguinte ele teve que ser acordado para ir `a escola. Entrou na sala de aula com muito sono ainda, mas logo teve que sair junto com a turma, porque iriam fazer uma pesquisa na biblioteca central da cidade.

Era a primeira vez que ele ia à Biblioteca Central. Era um prédio enorme! As fileiras de livros pareciam não ter fim, e iam do chão ao teto!

A professora que conduzia a turma, levou todo mundo para um canto de um grande salão onde havia várias mesas e cadeiras. Toda a turma sentou e cada um começou a escrever em seus cadernos. De vez em quando um deles levantava-se e ia procurar um livro nas grandes estantes.

Claudinho apoiou os cotovelos na mesa e, com o rosto entre as mãos começou a pensar por onde deveria começar a fazer sua redação. O tema era livre, e cada um podia escolher o assunto que quisesse. Por isso tinham vindo à Biblioteca Central. Ali eles poderiam pesquisar os mais variados assuntos.

Ele então lembrou-se do que seu pai lhe havia dito a respeito de amizades, e escreveu como título em letras bem grandes: O VALOR DA AMIZADE. Depois ficou a olhar para uma estante cheia de lombadas coloridas de livros tão grossos como ele nunca tinha visto antes.

De repente, ele levou o maior susto, quando viu uma letra “A” do tamanho de um caderno sair de dentro de um daqueles livros e pular para uma mesa vazia ao lado da sua. Logo em seguida, o “E”, o ”I” o “O” e o “U” pularam atrás dela e sentaram- se também formando um círculo sobre a mesa. Todas tinham cara de poucos amigos. Pareciam zangadas.

Claudinho ficou espantado, quando viu a letra “A” dizer.

- Esta reunião é inútil! Não vai adiantar para nada! Eu já disse que sou a letra mais importante do alfabeto! Ou algum de vocês não concorda com isso? Eu estou em todo lugar, vocês já perceberam? Estou nos jornais, nas propagandas, nas poesias, nos livros de crianças e de adultos...eu estou também nos frascos nos letreiros, nas placas de rua, nos adesivos...não dá para escrever quase nada sem mim!!! Eu sou a letra mais importante! Ponto final!!

Claudinho, com os olhos arregalados, viu a letra “E” ficar de pé e quase gritando, disse:
- Ah, é ? você se a acha a mais importante? Você acha que não dá para falar sem você? Pois vou mostrar que dá, sim! Vou fazer um texto em que você não apareça nem uma só vezinha!

- Ah, Ah! - Riu a letra “A”, zoando com o “E”. essa eu quero ver! Isso é impossível!

- E pode escolher o tema! – disse o “E” estufando o peito.

O “A” ficou meio preocupado com a certeza do “E”, e para não correr riscos resolveu dar um tema bem difícil. Pensou por alguns momentos e disse:

- Um poema! – Isso! Faça um poema sobre a vida sem a letra “A”! Fale das coisas da vida, de uma maneira geral. Se você conseguir isso, eu admito que não sou a mais importante, mas duvido que consiga!

As outras letras ficaram todas de olho no “E”, porque de fato esse era um desafio e tanto. Fazer um poema sem a letra “A” não era brincadeira...e ainda que falasse sobre a vida... sem o “A”? impossível – pensaram todas. Mas elas sabiam que se o “E” não conseguisse, o “A” ficaria ainda mais convencido.

O “E” limpou a garganta, esticou-se todo e começou a declamar, como se fosse um grande ator, e as demais vogais fossem uma grande platéia

Poema sem “A”

Senti como poucos
O mundo dos doces sonhos,
E os espectros medonhos
Que existem em mil superstições...
Chorei por muitos verões,
Repisei mundos guerreiros,
Revisitei meus velhos museus,
Que, por conter projetos idos,
Vertem gritos de dor
De tempos doloridos...
Deixei que meus sonhos se desfizessem,
Como se pudesse o sol existir
Em flores que em luz fenecem...
Errei por muitos penedos,
Gritei por sobre os montes
Todos os meus medos,
E selei os meus segredos
No fundo do sofrido peito...
Enfim, hoje sei
Que no fim desse tormento
No sopro do vento,
Terei,
Meu momento de sorrir,
Meu momento de sentir,
E refletir,
E rever
Esse meu modo de viver...

Quando o “E” terminou, disse:

- Viu? Você não aparece nem uma vez nesse poema, e eu não fico nem uma linha sequer sem aparecer! Eu sim, sou a letra mais importante do alfabeto! Sem mim não é possível escrever, falar, ou dizer qualquer coisa...

Claudinho estava cada vez mais espantado. Ele não conseguia acreditar no que seus olhos viam.

De repente, a letra “I” levantou-se e disse!

- Silêncio, sua convencida! Eu vou provar que você não é importante coisa nenhuma! Onde já se viu? Quer que eu faça também um poema onde você não aparece?

A letra “E” botou a mão na barriga e deu uma gargalhada.

- Você? Fazer um poema onde eu não apareço? Ouviram isso? Essa é boa!! Está bem! Faça também um poema, como eu fiz!

- Prefere algum assunto em especial? – respondeu o “I” muito seguro de si.

- Fale sobre o amor! – disse o “E”, sorrindo maliciosamente.

Todas as outras letras olhara para o “I” , porque sabiam que se fazer um poema sem “E” já era difícil, imagine então um poema que falasse de amor!

O “I” então, pôs um dos joelhos no chão, diante do “E” abriu os braços, e como se estivesse declamando à sua amada, disse:

Poema sem “E”

Quando amar
Não for mais a minha vida,
Quando o sonhar
Não mais for
A razão última
Da minha caminhada,
Vou buscar
Outros sorrisos,
Noutras plagas...
No caminho da brisa,
No calor noturno,
No raiar do sol,
Nas ondas do mar...
Quando, saudosa
A aflição já não mais habitar
Minha alma,
Quando a calma
Do luar da madrugada
Já não mais
Falar ao coração,
Vou buscar outros risos
Nos paraísos
Ainda por sonhar,
Nos haustos carinhosos
Ainda por aspirar,
No país do amor
Ainda por visitar...

Quando terminou, o “I” inclinou-se como fazem os atores para agradecer à platéia, enquanto o “E” sentava-se em silêncio, chateado.

Claudinho ia dizer qualquer coisa, mas a voz grossa do “O” o interrompeu:

- Ora, ora, ora...! Então o amigo “I” pensa ser a letra mais importante do alfabeto...! Minhas amigas, lamento informá-las de que eu não sou somente a letra mais importante, sou também a mais bonita e a mais sonora! Eu dou o som bonito das frases, e vou provar que o “I” não é necessário para coisa nenhuma!

O “I” olhou para o “O” e disse:

Ah, é? E como é que você pretende fazer isso? Acaso vai fazer também um poema, como eu fiz?
- E por que não? – respondeu o “O”? Há algum tema de sua preferência?
O “I” pensou um pouco e depois disse:

- Fale de alegria! quero ver se você é capaz! Se você conseguir admito: você é a letra mais importante do alfabeto, mas aviso de que não é possível fazer um poema sem mim!

O “O” estufou o peito e acertou o tom da voz. Era uma voz tão grossa que Claudinho pensou estar ouvindo o trombone da banda da escola. Depois, ele sentou-se sobre uma pequenina cadeira, cruzou as pernas, e começou a dedilhar um violão imaginário, como se fosse um romântico menestrel. Ele declamou o poema cantando-o numa linda melodia, bolada na hora:

Poema sem “I”

Em tudo e por tudo
Sou como o vento que sopra,
Como a água que brota
Clara, na natureza,
Sou como a leveza
Da pluma,
Flutuando ao sabor da aragem,
Sou, a um só tempo,
A saudade e a chegada,
O choro e a recompensa,
A falta e a presença,
O descanso e a jornada.
Sou como a folha dançando
Nos ventos das tempestades,
Sou o regato que murmura,
E em suave correr, jura
As juras de eterno amor...
Sou o afeto e o calor,
Sou o perfume da mata,
O espelho de uma fonte,
Sou o verdejante monte
De onde vertem essas águas...
Sou o lamento de mágoas,
O bradar de uma saudade,
Sou também o alvorecer
De uma nova alvorada,
Sou a esperança velada
Desse novo renascer,
À espera do momento
De reencontrar você...

Quando terminou de cantar a linda melodia, a foz grossa do “O” ficou a ecoar pela biblioteca, como se estivessem numa grande caverna.
Claudinho tinha a boca aberta de tanta surpresa de uma vez só. Ele estava encantado com o que via e quanto mais ouvia, mais se convencia de que ninguém era insubstituível...

Quando o som do canto do “O” parou de ecoar pelas paredes, o “U” levantou-se e disse:

- Muito bonito! Parabéns! Mas deixe-me lhe dar uma notícia ruim! Você também não é indispensável. Pode-se muito bem escrever, contar histórias e tudo o mais sem que você esteja presente!

O “O” olhou feio para o “U”. Claudinho pensou que as duas letras fossem brigar, mas o “O”, sentando-se, lançou um olhar de desprezo para o “U” e disse:

- Mil perdões, madame, mas você tem o som mais feio do abecedário! Você só serve para vaiar e para assustar pessoas...

Claudinho ia rir do que o “O” disse, mas antes que pudesse faze-lo, o “U” respondeu:

- Pode ser, mas isso não faz de você alguém indispensável. Quer que eu faça um poema em que você não aparece nenhuma vez, e eu apareço muitas? Quer?

- Se você conseguir... - murmurou o “O” – mas acho que você não consegue...

Claudinho já estava torcendo para o “U” conseguir. Ele não gostou da prepotência do “O”.

O “U” então virou-se de costas para todas as outras vogais e concentrou-se por alguns momentos. Depois disse sorrindo, enquanto olhava para o teto:

Poema sem “O”

Vinha eu,
Em alegrias pela vida,
A caminhar,
Entre alegres gargalhadas
E a cantar,
Até que, numa curva qualquer
De minha estrada
Lá estavas tu,
Linda,
A me esperar...
Mas,
Vi lágrimas brilharem,
Vi esperanças tristes,
Vi um caminhar errante,
E vi uma luz esfuziante
Que teu caminhar,
Deixava para trás...
E vi também a calma
Que nessa luz recendia...
E assim caminhavas,
Flutuavas,
Qual frágil avezinha,
E te ver assim,
Deu-me a certeza
De que eu seria teu,
E tu serias minha...
E desde aquele dia
Em nenhum instante,
Deixei nunca de te venerar...
Desde aquele dia
Mergulhei na mágica sublime de te amar...

- Viu? – disse o “U” quando terminou – e agora, quem restou para ser a letra mais importante do alfabeto?

Todas as outras letras estavam quietas, olhando para baixo, sem ter o que dizer...cada uma delas tinha percebido que não eram indispensáveis.

- E então, desafiou o “U” alguém quer tentar provar que eu não sou a letra mais importante, que sem mim não há como escrever ou falar?

Claudinho, que já estava impaciente também com o convencimento do “U” ia dizer qualquer coisa, quando uma voz muito poderosa soou na biblioteca, vinda não se sabe de onde.

- Estúpidas!

- É a Caneta Mágica! – murmuraram as vogais com muito medo no olhar, enquanto se encolhiam e se abraçavam – Ela parece brava!

A voz falou novamente, num tom mais calmo.

Olhar a noite encantado,
E contar estrelas,
E sorrir ao vê-las
Sorrindo pra mim,
É te ver assim,
Entre elas,
Sempre a protegê-las,
Eis como são minhas noites,
Noites sem fim...
Sorrir para o infinito
E conter o grito
De alegria...
Ver nascer o dia
Ensolarado e meigo...
Sorrir para a brisa
E sonhar
Mil sonhos acalentados,
Tão esperados,
Tão acorrentados,
Tão enamorados,
Tão febris e ternos...
Ir aos infernos
Apagar as chamas
Desse desespero,
Desse exagero
De amor extremo!
Sentir-te o coração
Sem poder tocá-lo,
Nessa agonia
Desse amor-paixão!

Após alguns momentos de silêncio em que as vogais tremiam de medo, disse a voz novamente:

- Eis aí o teu poema sem “U”! Estão convencidas agora de que nenhuma de vocês é indispensável?

As vogais continuaram a tremer , e a voz continuou:
Eu tenho estado na mão dos maiores escritores de todos os tempos. Tenho escrito poemas e romances, histórias de guerras, de morte, de vida, e mensagens de amor. Sou a Caneta Mágica, aquela que os grandes escritores usam para criar coisas maravilhosas.

Porque vocês tentam manchar essa criação com o desejo de serem mais importantes que suas companheiras? Pois já que vocês se sentem tão importantes e inteligentes, eu vou lhes dar um quebra-cabeças para resolver. Se vocês não o resolverem, não haverá mais escritores no mundo, porque eu vou expulsar vocês do dicionário...e o mundo será mais triste, porque não haverá mais livros nem jornais, nem revistas, nem letreiros, nem coisa alguma escrita. O mundo voltará a ficar atrasado e ignorante, porque voltarão todos a serem analfabetos.

E isto dizendo, uma folha branca caiu sobre a mesa, bem próximo das vogais que tremiam de medo. Nela havia uma escrita estranha.

A voz voltou a dizer:

Leiam para mim o que está escrito nesta folha. Se até a minha volta em 5 minutos, vocês não tiverem feito isso, o mundo não mais poderá escrever nada!

Depois ficou somente o silêncio...

Uma a uma as vogais se aproximaram da folha. Tentaram ler o que estava escrito, mas não conseguiram. À medida que o tempo passava mais e mais nervosas ficavam.

Claudinho suava torcendo para as vogais conseguirem resolver o quebra-cabeças. Ele não queria virar um analfabeto. Ele gostava muito de ler.

Então ele resolveu esticar o pescoço e espiar o que estava escrito na folha de papel. Havia um amontoado de letras sem sentido:

“ sp ç n c ss r p r str l s... r n c ss r p r m r... m r n c ss r p r p x s, p x n c ss r p r g v t ... g v t pr c s d c p r v r... nt , g v t t n c ss r q nt s str l s...n ng m d sn c ss r n m nd ...c d m t m s mp rt nc ...”

Ao ver aquela grande confusão, ele pensou que a Caneta Mágica era muito má, por não deixar nenhuma pista de solução. Ele sentia pena das vogais correndo desesperadas por cima do papel, tentando ler o que estava escrito.

Então Claudinho começou a ver palavras se formando e se desmanchando rapidamente, á medida que as vogais corriam pela folha. De repente a palavra “PEIXE” se formou e ele gritou:

-Parem! Não se mexam! Fiquem onde estão!

Então ele começou a trocar as vogais de lugar e outra palavra se formou: ESTRELAS. Ele continuou a trocar as letras de lugar tão rapidamente que elas começaram a ficar tontas. E outras palavras foram aparecendo: GAIVOTA...MAR...

O tempo passou rapidamente e eles puderam escutar a voz da Caneta Mágica se aproximando. O tempo estava se esgotando. Suando muito, e cada vez mais nervoso, Claudinho trocava as letras o mais depressa que podia enquanto a Caneta Mágica se aproximava pelos corredores silenciosos da biblioteca.

O “A” já tinha desmaiado de enjôo, o “I” nem sabia aonde estava, de tão tonto que ficou; o “U” se encantava com a correria. O “E“ e o “O” eram os únicos que ainda tinham forças para se manterem de pé.

Uma parte da mensagem já estava pronta:

“O espaço é necessário para as estrelas...o rio é necessário para o mar...o mar é necessário para o peixes... o peixe é necessário para a gaivota...

Mas ainda faltava muito...Então a Caneta Mágica chegou. Olhando a mensagem inacabada, e as letras todas desmaiadas ou quase, ela olhou feio para Claudinho e disse, numa voz de arrepiar:
- Se vocês tivessem colaborado uns com os outros desde o início, não teriam perdido tanto tempo...agora é tarde! A humanidade será para sempre analfabeta, e nunca mais poderá ler nada, porque eu expulsarei essas letras orgulhosas do alfabeto, e sem elas, nada poderá se entender do que se escreve...

Claudinho voltou a sentar-se, muito assustado, enquanto a Caneta Mágica, muito brava, continuou, apontando o dedo para ele:

- O culpado é você , que poderia ter acabado essa reunião idiota das vogais, mas não fez isso! Por sua culpa, e porque você é ainda mais burro do que elas, o mundo nunca mais poderá escrever nem ler nada!!!

- Não! – gritou Claudinho – eu não quero ser um analfabeto! por favor...!

Quando a Caneta Mágica levantou a mão para expulsar as vogais do alfabeto, Claudinho sentiu alguma coisa sacudir seus ombros. Era sua professora.

- Você está bem? Quem é analfabeto? Ou será que estava cochilando durante a aula?
- Hein? – disse Claudinho ainda meio zonzo, chorando – As vogais foram expulsas! Não vamos poder ler nem escrever mais nada! E a culpa é minha!

- Do que você está falando? – disse a professora. Depois, ao ver o título da redação de Claudinho – O Valor da Amizade – colocou à sua frente um livro bem grandão onde se via um desenho de uma linda gaivota voando num céu muito bonito, sobre o mar.

- Você está atrasado! Leia esse texto e use-o como tema de sua redação!

Embaixo desse desenho, estava escrito:

“O espaço é necessário para a estrelas...o rio é necessário para o mar...o mar é necessário para o peixes, o peixe é necessário para a gaivota...a gaivota precisa do céu para voar... então, a gaivota é tão necessária quanto as estrelas...ninguém é desnecessário no mundo...cada um tem sua importância...”

Claudinho nunca mais esqueceu do sonho que tivera e da lição que aprendera...ou teria sido realidade?

O certo é que desse dia em diante, Claudinho transformou- se no melhor amigo de todos os meninos e meninas da escola, e quando cresceu, ele tornou-se um grande escritor! Até hoje ele guarda num estojo muito bonito a caneta com a qual fez os rascunhos de seu primeiro livro. Sobre a caixa há uma placa dourada com uma gravação: Caneta Mágica.

* * *
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JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 24/07/2005
Reeditado em 24/08/2015
Código do texto: T37224
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Sobre o autor
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