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SOBRENATURAL

Uma das promessas de campanha do candidato que venceu as eleições daquele ano, que aliais foi o que motivou meu voto para ele, foi a revitalização do Recife antigo.

Segundo os registros históricos foi nessa primeira ilha, que faz com a linha de arrecifes o corredor por onde as águas dos rios que banham a capital pernambucana passam em direção ao oceano.

Os mais bairristas até dizem que é naquele ponto onde se juntam as águas dos rios Capibaribe e Beberibe para formarem o Oceano Atlântico. Pode até ser exagero, mas como Pernambucano, eu não posso, não devo e não quero duvidar dessa assertiva.

O bairro que nasceu como vila de pescadores, teve sua importância reconhecida quando nos anos do domínio holandês de 1630 a 54, foram construídos os armazéns para guardar o açúcar, entre os engenhos produtores e as caravelas que transportavam para a Europa.

Na esteira dos armazéns, nos anos do século dezenove, nasceram os sobrados residenciais, as praças, os chafarizes, as igrejas, as cocheiras e as garapeiras onde os animais de tração comiam e dormiam abrigados.

Foi também nessa época que os judeus construíram a sinagoga e foram colocados os primeiros lampiões de iluminação pública.

Ainda hoje estão lá, de pé, todas essas construções, assim como o convento que foi reformado para se tornar alfândega.

Tudo isso seria revitalizado, com destaque para os sobrados onde funcionaram as pensões da vida mundana, alimentada pelo porto até o século passado.

Falavam até em escavações para trazer à luz, pelo menos, as fundações dos fortes que foram construídos desde o início da colonização portuguesa, com Dom Duarte Coelho Pereira e seus seguidores, para a proteção da vila de Olinda então centro administrativo e mais importante povoação da capitania que mais tarde se transformaria no Estado de Pernambuco, cujo nome na língua tupi faz referência aos recifes por significar – onde o mar se quebra.

Aliais existe uma fortíssima ligação de Pernambuco e sua capital Recife com esse enorme paredão rochoso, reto, no sentido Norte/Sul como indicando que, a partir daquele ponto nasce Pernambuco.

Celeiro de homens notáveis, entre eles o escritor F. A. Pereira da Costa que escreveu o conto “A Emparedada da Rua Nova” e é sobre essa história, publicada em fascículos semanais no jornal Diário de Pernambuco, que se gaba em ser o jornal mais antigo em circulação na América Latina, que vou contar esse caso inusitado.

Eu pertencia a um grupo de jovens e sonhadores estudantes universitários que vivia quebrando a cabeça a fim de manter nosso grupo de teatro.

Éramos seis, sendo quatro homens e duas mulheres. Desses, apenas eu não fazia parte do recém-instalado curso de artes cênicas da Universidade Federal, mas como era, e ainda sou amigo de Catorze não podia ficar de fora.

Permitam que eu faça uma pausa para explicar esse nome bizarro do colega, Teodoro Pereira da Costa XIV.
Ele era o primeiro homem nascido na décima quarta geração do judeu que, para escapar dos rigores da inquisição, adotou o cristianismo e fez-se batizar com o nome cristão de Teodoro.
Seu sobrenome judeu foi substituído pelo nome da árvore Pereira e por ter optado viver na orla marítima recebeu o complemento “da Costa”. Se tivesse optado pelo interior, seria “da Silva” ou simplesmente “Selva”.
Este senhor vindo para o Brasil colocou no primogênito o nome Teodoro Pereira da Costa Filho, que batizou o filho como Teodoro Pereira da Costa Neto, que batizou o primeiro filho como Teodoro Pereira da Costa Júnior, que para não fugir à tradição, colocou no seu filho o mesmo nome seguido do número cinco grafado em algarismo romano “V”.
Esse costume até ao meu colega que alardeava que não colocaria aquele nome no filho que por acaso viesse a ter, mas eu tenho cá as minhas dúvidas.

Voltando ao fio da história, Catorze era parente desse escritor F. A., e numa noite em que estávamos reunidos ele disse que iria transformar o conto do parente ilustre em diálogos teatrais para podermos levar à cena.

Tinha outro colega, Gilson alguma coisa, não lembro mais o sobrenome dele, que foi cabo eleitoral do prefeito recém-empossado e quando aconteceu o loteamento dos cargos comissionados, Gilson ficou na Secretaria de Viação e Obra a quem estava afeto o trabalho de revitalização do Recife antigo.

Fala com um, fala com outro conseguimos o primeiro andar de um dos sobradões da Rua Pedro Álvares Cabral, uma ruazinha sem muita importância que fica entre as avenidas Rio Branco e Marquês de Olinda e que só se tornou conhecida porque era nela que havia o restaurante The British Towns Club, aonde os ingleses que trabalhavam na The Western Telegraph Co. iam comer o roast beef, sem cor e sem sabor, acompanhado por batata cozida no vapor e generosas doses de whisky, puro, sem gelo.

Nosso salão possuía janelas para a Avenida Marquês de Olinda por onde entrava a brisa agradável que mantinha o ambiente sempre fresco, mesmo nas noites quentes do verão recifense. Nossa ideia era fazer um teatro de arena, daqueles em que atores e público se misturam para dar mais autenticidade à atuação.

Devido, principalmente, à onipresente falta de dinheiro, resolvemos que apenas limparíamos as paredes, janelas e portas para manter o aspecto de antiguidade do ambiente.
O piso assoalhado, feito de tabuas grandes e largas precisavam ser lixadas e enceradas para tornar o local habitável, sem aquelas manchas deprimentes.

Passamos mais de uma semana raspando os muitos anos de sujo acumulado.

Para nossa felicidade ficamos no primeiro pavimento onde só a poeira, teias de aranha e sujeira dos pombos eram os inconvenientes.

O pessoal que ficou no segundo andar teve que arcar com os reparos no telhado porque as goteiras e o grosso da sujeira dos pombos tornavam o local inabitável para qualquer ser humano, mas como para tudo existe uma saída, eles fizeram convênio com uma fábrica de cerveja que além do dinheiro necessário para a reforma ainda emprestou, pelo regime de comodato, as mesas, cadeiras e geladeiras a fim de garantir a exclusividade.

Fizemos uma boa parceria com eles que nos emprestavam as cadeiras para nossa plateia e nós, ao fim dos espetáculos, levávamos os espectadores para o bar deles, onde se comia uma deliciosa comida de boteco acompanhada de maravilhosos coquetéis de frutas sem álcool, licores artesanais e se tomava a cerveja mais gelada do Recife Antigo.

Sem muita dificuldade, Doralice e Catorze fizeram a dramatização da Emparedada e depois de feitas as cópias, nos reunimos para a primeira leitura.

Por ter a voz mais grave dos participantes, eu fiquei com o papel do pai;
Doralice: viveria a mocinha que foi emparedada;
Sofia: seria a empregada;
Catorze: o galã, móvel de toda trama;
Quincas: o vizinho e Nélio, por ser gordo e mais fácil para se caracterizar de mulher, viveria a mãe.

Vale a pena fazer outro parêntese nessa narrativa para explicar que o verdadeiro nome de Nélio é Cornélio, resultado de uma infeliz promessa feita pela mãe dele, para que ambos não morressem, na hora do parto.

Mas qualquer um que o chamasse pelo nome completo, estaria adquirindo, para o resto da vida, um inimigo feroz.

Depois da primeira semana de ensaios, concordamos todos, que a peça seria um verdadeiro sucesso de público e de crítica.

Para aqueles que desconhecem a história original eu devo dizer que se trata de uma severa crítica aos costumes da época, quanto à liberdade individual, ao preconceito e ao apego às convenções sociais.

Num resumo, bem resumido, é a história de uma moça, filha de portugueses comerciantes e influentes na sociedade local, que se apaixona por um rapaz, mulato, pobre, (sem eira nem beira, como se dizia então) e que quando o pai, alertado por um vizinho fica sabendo do romance, persegue o rapaz até a morte, mata a filha por sabê-la grávida e, esconde o corpo da jovem numa parede por trás do fogão de lenha e diz para toda sociedade que a moça foi mandada para Portugal, local para onde, pouco tempo depois, vai com a mulher definitivamente. Anos depois, durante a reforma do prédio, é localizado o corpo da jovem que, por ficar num ambiente sempre aquecido pelo fogão, mumificou e todos tomam conhecimento do assassinato e da gravidez.

Enquanto cuidávamos dos ensaios e do figurino, coisas muito estranhas, inexplicáveis mesmo, começaram a acontecer.

Doralice que viveria a emparedada, em todos os ensaios, sentia náuseas e mal estar como se estivesse com problemas digestivos.

Muitas vezes brincávamos dizendo que ela estava grávida.

Catorze passava a maior parte do tempo em casa, trancado no quarto se sentindo ameaçado, perseguido e, muitas vezes me pediu para acompanhá-lo até a sua casa, porque tinha a certeza de que estava sendo seguido por alguém, por um assaltante talvez...

Nélio sentia uma aflição constante, como se algo de muito ruim estivesse para acontecer com um parente ou seu conhecido.
Chegou mesmo a tomar ansiolítico para poder dormir.

Eu tive pesadelos terríveis, sendo perseguido ou perseguindo alguém por ruas estreitas, descalças, cheias de lama, com algo na mão que parecia um taco de baseball e acordava em pânico, molhado de suor frio, quando batia com esse pau na cabeça da pessoa a quem eu estava perseguindo e quando revirava o cadáver, era o rosto de Doralice...

Em todos os grupos de amigos há os que são: o mais estudioso, o mais gaiato, o moralista, o que deseja e até briga pela liderança, o que exige que sua opinião prevaleça sobre as demais, o cético, o religioso.

Quincas se encaixava nas categorias dos estudiosos e religiosos, embora ele fizesse questão de frisar, sempre que se tocava no assunto que ele não era religioso e sim um estudioso da doutrina de Kardec, que se intitula como ciência e filosofia.

E foi justamente por isso que numa determinada noite em que estávamos ensaiando com ele assistindo que Quincas disse:

- Se vocês concordarem eu vou trazer o pessoal do centro para fazer uma limpeza nesse casarão porque, eu acho que tem muitas entidades por aqui, necessitando de ajuda e esclarecimento espiritual.

Nessa noite interrompemos o ensaio e, cada um disse o que estava sentindo desde que os ensaios haviam começado e, mesmo não concordando com as convicções de Quincas, concordamos com a ideia dele em trazer os médiuns.

Na semana seguinte, já estávamos ensaiando quando Quincas chegou com mais cinco pessoas. Pedimos emprestadas as mesas dos colegas do segundo pavimento, juntamos as quatro e nos sentamos em volta depois de cobertas com uma toalha branca que Quincas havia trazido dentro da mochila. Em frente de cada um de nós, foi colocado um copo descartável contendo água de beber.

O mais velho do grupo, com aquela cara de embaixador aposentado (daquele pessoal que sabe de tudo) mandou que déssemos as mãos e rezou o “pai nosso”.
Antes que ele chegasse ao fim, a mulher que estava sentada junto a mim fez um som esquisito, como se estivesse engasgada e disse em tom de ameaça:

- Eu não quero que vocês relembrem essa história.

- Que história, meu irmão? (perguntou o “embaixador”)

- Isso que eles estão mexendo. Tem muito sofrimento nisso. Muito ódio.

- Mas quem está com ódio? Meu irmão.

- Todos, todos (disse quase gritando)

- Quem é você, meu irmão?

- Aquele português miserável matou a filha, matou meu filho, matou meu amor...

- Meu irmão, isso já passou. Você agora está noutro plano. Deve perdoar e esquecer. É para seu próprio bem. Lembre-se das palavras do divino mestre “devemos amar nossos inimigos e perdoar as ofensas que nos fazem”

- Não. Eu não posso perdoar, eu não quero perdoar. (E com os olhos arregalados para nós, os atores) Se vocês não pararem com isso eu vou acabar com cada um, suas vidas vão se tornar no inferno em que eu vivo...

Nisso, outro médium, com a voz pausada das pessoas bem resolvidas, disse:

- Que a paz de nosso senhor Jesus Cristo esteja sempre conosco. (os outros responderam em coro)

- Que assim seja...

O “embaixador” disse:

- Irmãos, vamos vibrar para que o irmão de luz que nos está assistindo possa guiar esse espírito perturbado.

- Como é que se vibra? (perguntei entre dentes para Doralice que estava sentada junto a mim) ela levantou os ombros me dando a entender que, como eu, não tinha a mínima ideia do que deveríamos fazer.

Esse embate de ameaças e palavras mansas durou mais de hora até que um feixe de luz passou rapidamente por sobre a mesa e tudo terminou deixando uma sensação de paz generalizada.

Depois do novo pai nosso, bebemos a água, os médiuns foram embora e naquela mesma noite decidimos que não mais encenaríamos a história da Emparedada da Rua Nova.

Quanto ao nosso teatro de arena, durou até quando Gilson foi mandado embora porque, o lugar que ele ocupava na Secretaria de Viação e Obras, teve que ser entregue a uma pessoa indicada pelo vereador, como condição para o apoio que o prefeito precisava...

Coisas da política “sobrenatural”.

Em todos os sentidos...






Alberto Vasconcelos
Enviado por Alberto Vasconcelos em 24/06/2012
Reeditado em 24/06/2012
Código do texto: T3741485
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Sobre o autor
Alberto Vasconcelos
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