o achado
O ACHADO
Hoje senti muitas saudades do meu avô. Temos um triste defeito, entre outros, de somente agradecer as pessoas quando elas já estão bem longe, tão longe que não conseguimos alcançá-las. Meu avô, era um sábio, um santo, um herói e eu bem pertinho dele não sabia. Agora, quero venerá-lo, agradecer e lhe beijar, mas já se foi!. Por quê desta visão retardada, deste reconhecimento tardio?
Recordei do tempo que íamos bem cedinho para uma grande casa comercial executar os serviços de solda. Os instrumentos eram medievais, fogareiro de ferro onde se colocavam carvões feitos na fogão , solda manipulada em casa mesmo, estanho e breu. Vovô soldava de 20 a trinta latas de banha de porco, de querosene ou gasolina por semana na Casa Braga. Enquanto ele acendia os carvões eu ia raspando o lugar a ser soldado com um toco de um velho facão. Tinha que raspar muito bem para que a solda aderisse satisfatoriamente. Serviço duro , demorado e perigoso quando se tratava de soldar latas de gasolina. Eu ia raspando as latas, abanando as brasas e meu avô soldando. A medida que as latas iam sendo soldadas , as latas eram colocadas de cabeça para baixo afim de se verificar se tinha alguma vazando. Os serviços tinham que ser bem feito. Trabalhávamos o dia inteiro para ganhar míseros tostões, que mal dava para comprar um quilo de carne de segunda.
Vez em quando meu avô reparava que eu me sentia encabulado , carregando pelas ruas apetrechos de solda velhos e de péssima aparência, pois já me achava rapazinho e cursando o ginasial, com colegas de alta estirpe e de boa situação econômica. Nestas oras me dizia com doçura e sabedoria” Filho o trabalho não envergonha o homem, pelo contrário, enobrece” e assim íamos sempre trabalhando para o sustento de sete netos, inclusive eu.
Certa vez encontrei à beira do meio-fio uma nota de dez mil réis. Meus olhos brilharam o coração acelerou. Era muito dinheiro! . Meu primeiro pensamento foi direto no vovô. Pensei: com esta quantia meu pobre avô vai descansar uns tempos, vai se livrar do trabalho duro de solda, comprar um óculos novo, porque o dele já está vencido e quebrado, comprar bastante carne e outras coisas que falta em casa, enfim vai folgar um pouco...
Corri ofegante e encontrei vovô conversando com outro senhor na porta de nossa casa.
Aguardei por horas o fim da conversa, porque no meu tempo, criança não interrompia a fala dos mais velhos. Quando em fim o senhor que estava com meu avô se retirou, eu me aproximei e estendi a mão dando ao vovô o dinheiro , dizendo: Achei esta nota e é para o senhor comprar as coisas que necessita. Ele recebeu, olhou para mim com ternura e perguntou: Achou onde?- Respondi, no meio fio , em frente ao bar dos Paraibanos. Para minha surpresa ele não colocou o dinheiro no bolso, devolveu-me dizendo: Volte correndo e coloque no mesmo lugar que achou, ouviu bem?. Um nó amargo cresceu na minha garganta, mas obedeci, no trajeto ia resmungando decepcionado. Chegando ao local onde achara o dinheiro abaixei-me para recolocá-lo no exato lugar onde outrora estivera, acontece que já a estas horas , lá em pé se encontrava um abastado médico, Dr. Aroldo, homem de procedimento questionável e cara sempre carrancuda. – Que faz aí menino? Perguntou-me. –Vim colocar este dinheiro que aqui achei- É meu seu moleque, abaixou-se , pegou a nota e colocou no bolso.
Uma revolta tomou conta do meu ser ainda em formação. Sabia, tinha certeza que o dinheiro não era dele. Não era justo aquilo, ele tão rico e meu vô tão pobre! Voltei voando em direção a minha casa e no intuito de contar tudo ao meu avô . Queria ver a sua reação quando soubesse que o espertalhão do Doutor se apoderara do que não era seu. Queria que meu avô aprendesse que a vida hoje é dos sabidos, queria desabafar , queria que me fosse dado o apoio e o valor por ter achado bem tão valioso.
Quando cheguei em casa, lá estava ele a porta da rua me esperando. Fui chegando e dizendo : Vovô , fiz o que o senhor me mandou, coloquei o dinheiro no mesmo lugar que havia achado, mas o Dr.Aroldo pegou o dinheiro e guardou para ele, e tenho certeza que não lhe pertence. E ele bem sereno respondeu: Muito bem meu filho, cumpriu sua obrigação, fizemos a nossa parte O PROBLEMA AGORA É COM ELE..., vamos dormir cedo que amanhã tem uma vinte latas para soldarmos...
“tudo que tenho de errado hoje, culpo a mim mesmo e de bom agradeço os ensinamentos que tive de meu AVÔ....
Laerte rocha.
Laerte Rocha
Enviado por Laerte Rocha em 27/06/2012
Reeditado em 27/06/2012
Código do texto: T3746845
Copyright © 2012. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.