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O PRÍNCIPE QUE CAIU DO CÉU


No sítio do Rio das Pedras, que fica lá pras bandas do cafundó do Pirinópolis, morava Pedro Bobó Zarcão, Dona Jandira Zunira Zarcão, e seus dez filhos: Mane Bodocó, Chiquinha Feijão, Amelinha Jiló, Pedro Cipó, Bibiu, Babú, Flozô, Juquinha, Totó Fuinha e Margô, a caçula. A família de Pedro Bobó Zarcão era pequena, mas com ele também moravam as irmãs de Dona Zunira: Zuleide Anzol, e Zuleide Chumbada que de tão grandona e pesada era conhecida pelo apelido de Fofinha.
Os dias no sítio eram deliciosamente monótonos e internináveis. A rotina de arar a terra, semear o milho, alimentar a criação, e madrugar no dia seguinte para conferir se o trabalho do dia anterior havia surtido resultado, às vezes, proporcionava melancolia. Mas era uma melancolia passageira, gostosa de se viver. Tanto era, que por lá também ocorriam momentos de encanto e magia que só quem por lá viveu é que pode contar. E era nesses momentos, que a família aproveitava para acender fogueira nas noites de lua nova para clarear a escuridão.
A família de Pedro Bobó Zarcão adorava as noites de fogueira. Para todos era uma excelente oportunidade para comer milho assado. Para todos, exceto para Zuleide Anzol que já estava com vinte anos e pensava que a estrelinha que brilhava por cima do telhado era mensageira do seu príncipe encantado. Ela tinha seus motivos para assim pensar. Pois bem sabia que nas noites nas quais a estrelinha brilhava no firmamento era prenúncio que o campo amanheceria coberto de papel picado e, em todos eles, seu nome e um coração pintado na asa de um avião.
Zuleide nunca vira a máquina de voar que cortava o céu deixando um rastro de fumaça. E pensava que aquela coisa de outro mundo era um novo tipo de carruagem encantada. A carruagem com a qual seu príncipe vencia as distâncias para corteja-la com cartas de amor naquele cafundó do mundo onde Judas perdeu as botas.

Indiferente aos suspirar de amor da prima, as crianças aproveitavam do breu da noite para brincar de “pique-esconde” e recolher grossas toras de madeira que amontoavam no quintal.
Quando as crianças armavam o esqueleto da fogueira, Zuleide já sabia o que iria se suceder e ficava tristonha. Ficava tão triste que começava a chorar. E para estancar aquela dor, recolhia-se no quarto e passava a noite buscando consolo nas cartas que seu príncipe encantado lhe mandara.
Certa vez, pensando que naquela noite seu príncipe iria aparecer, ela não quis permitir que os sobrinhos acendessem a fogueira. E quando percebeu que eles não lhe deram ouvidos, ficou tão furiosa que apagou a fogo com água do cocho da vaca mocha.
Foi uma atitude boba e infantil a sua. Uma atitude que só lhe rendeu a criticas maldosas e o apelido de encruada. Depois de tamanha encrenca, teve de se contentar em passar a noite no estábulo para fugir da ira das crianças. O pior de tudo, foi constatar que naquela noite seu príncipe não veio lhe visitar. No dia seguinte não encontrou nenhum pedacinho de papel picado preso nos galhos das plantações. Nenhunzinho sequer.
Noutro dia, para se vingarem da prima, os sobrinhos resolveram construir uma fogueira de grandes proporções. Ela seria imensurável. Teria um esqueleto de tamanha proporção que o último graveto quase tocaria no céu. E para tanto, as crianças passaram uma semana juntado madeira e tudo mais que encontravam pela frente.
Quando Zuleide foi colher hortaliças no fundo do quintal e viu o tamanho do amontoado de madeira, pensou: “é... esse vai ser um fogueirão danado de grande! Desta vez, o clarão vai ser tão intenso que vai ofuscar a estrelinha e fazer com que meu príncipe perca o rumo do sitio. Se isso acontecer, adeus matrimônio! Nem Santo Antônio vai conseguir dar um jeito em mim!”
Mal sabia ela, que foi Mané Bodocó, sobrinho metido a construtor, quem inventou de fazer aquela fogueira. Sua proposta era inusitada. Previa o nosso aprendiz de construtor, que se construísse uma fogueira que tocasse o céu, produziria carvão suficiente para passarem vários meses sem precisar trabalhar na carvoaria. A proposta seduziu a todos, e todos se prontificaram em ajudar no que fosse preciso. Por sugestão da Dona Jandira, escolheram Pedro Cipó para responsável por acender o fogo.
A razão da indicação de Pedro Cipó, pela mãe, todos bem sabiam do porquê. E mesmo que não concordassem com a escolha houveram por bem concordar com a justificativa de que ele era o mais hábil em riscar o palito de fósforo. Dizia ela, que Pedro Cipó sonhava em ser bombeiro e, que para ele, só bastava arranhar o palito na caixa para tudo em sua volta virar fogo.
Quando Zuleide tomou conhecimento do que estava preste a acontecer, tentou com toda sorte de maneira mudar a decisão da família, mas não conseguiu. Buscando reforçar seus argumentos, inventou uma história de que o céu iria queimar e cair sobre o sitio destruindo a casa e a vegetação. Mas de nada adiantou, ninguém se deixou levar por seus apelos. Numa atitude inesperada, praguejou que as crianças que brincassem com fogo naquela noite, estariam condenadas a fazer xixi na cama. E mesmo assim, Zuleide não conseguiu mudar a decisão da família.
Coitada da Zuleide. Afinal, além da possibilidade de produzir carvão em quantidade suficiente para o consumo de vários meses, aquela era uma ótima oportunidade para fazer uma festa e comemorar o aniversário do filho que desejava ser bombeiro e vivia incendiando a vegetação ressequida do roçado.
Pedro Cipó ficou envaidecido com a escolha e por saber que receberia um presente de aniversário. Tanto assim, quem nem deu importância ao praguejo da prima. Ora! A partir daquele dia, passaria a ser reconhecido como o maior acendedor de fogueira da região, e ainda por cima, ganhara um bom motivo para justificar o rotineiro molhado no seu colchão. Se bem, que lá no fundo, soubesse que o molhado decorria da sua preguiça de se levantar da cama nas noites frias para fazer seu xixi. E era tudo que importava naquele momento. Ganhara uma festa de aniversário e o direito de ser o único responsável para acender o pavio da fogueira. E a partir daquele dia, ninguém teria motivos para caçoar de sua cama ter de ser trocada todas manhãs.
E foi assim, que naquele mês que prenunciava ter a noite mais escura dos últimos anos, a família se preparou com afinco para os festejos do aniversário. Todos estavam radiantes de felicidade. E a felicidade era maior por saberem que o povo da região estaria presente para prestigiarem aquela festa inesquecível.
No dia do ocorrido, desde cedo, as mulheres iniciaram o trabalho de preparar as guloseimas e os homens de armarem a fogueira. Os convidados não teriam de que reclamar. Comes e bebes haveria com fartura. Os adultos teriam quentão e carne seca assada na brasa. E as crianças, pipoca, milho assado, curau com queijo, bolo de batata doce e batata doce assada na brasa.
Rojões? Claro que haveria rojões! Naquela festa tão concorrida, e regada com a melhor batata doce da região, rojões é o que de certo não faltaria naquela festa.
Pensando em agradar o compadre que a muito não via, Pedro Bobó Zarcão convidou o prefeito, padrinho do aniversariante, bem como, de todos os meninos da família. Mas ele mandou avisar que não poderia comparecer, estava padecendo de gota. E todos sabiam que a danada daquela gota deixava-o acamado por vários dias. No entanto, prometeu enviar por um emissário uma lembrancinha para Pedro Cipó: um par de botas com solado de p’neu velho, a qual, sabia que o afilhado a muito queria possuir.
Na hora marcada para o início da festa, as mulheres ainda estavam ocupadas no trabalho arear panelas. Zuleide cumpriu com esmero a tarefa que lhe foi confiada, e naquele momento, para espantar a tristeza, observava a chegada dos convidados. Ficou indignada com o que viu. E foi por esse motivo que tomou uma decisão que mudaria o rumo da sua vida: Desta vez, pensou ela: “não vou chorar e nem me maldizer da vida. Quando a festa começar, vou dar um passeio pelo campo e só volto quando o dia amanhecer. Afinal, se a fogueira é tão alta, é bem possível que ela possa iluminar o sitio e muito além dele.”
Pensando assim, enfiou na mochila de piquenique cinco fatias de bolo de milho, meia dúzia de batata doce, uma garrafa de café, e aproveitou para incluir a rede velha de que tanto gostava. Já tomara sua decisão. Passaria a noite debaixo do pé de jabuticaba sonhando com seu príncipe encantado. E quem sabe, casar com ele em sonhos.
E foi assim, que no mesmo momento em que a fogueira começou arder, tomou o caminho da serra sem olhar para trás. Lá do longe, donde podia se observar à silhueta da fogueira, viu a fumaça subir e engolir a estrelinha que mal tingia o céu com seu brilho, e pensou: “minha estrelinha vai ser consumida pelo fogo... A luz que guiava os passos do meu príncipe encantado deixara de existir, consumida pelo fogo. Em poucos segundos, minha única esperança de um dia me casar e fugir desse fim de mundo não mais existirá. Ah!, como sou infeliz!”
Pensou em chorar, mas entendeu que o melhor que poderia fazer era cantar. Cantar para espantar o medo que estava tomando conta do seu ser e fazia suas pernas tremer como se fosse uma vara de bambu verde. Amarrou a rede nas galhas no pé de Jabuticaba, e ficou admirando as estrelas que brilhavam no outro quadrante do firmamento. O sono logo chegou. Dormiu. E dormiu tão profundamente que perdeu a noção do tempo e das horas. Quando já eram altas horas da noite escutou um estrondo que parecia que o céu estava desabando por sobre sua cabeça. Afogueada pulou da rede. E viu uma estrela tremular e cair em círculos.
Engoliu uma súplica: - vale-me meu Padrinho Padre Cícero do Juazeiro! E ficou espreitando aonde a estrela iria cair.

Para aumentar seu pesadelo, o objeto que do céu caía começou a zumbir feito uma chaleira de esquentar leite quando solta vapor. O zumbido foi aumentando, aumentando; e só deixou de zumbir quando o objeto tocou a vegetação e produziu um estrondo seco.
Foi então que gritou: - Ai! - e cobriu os olhos para não ver o acontecido.
Sem atinar se aquela alucinação poderia ser um teco-teco ou um gavião noturno, correu e foi espreitar onde a coisa caíra. E caíra justamente na colina próximo de onde se encontrava.
Temendo que pudesse ser sua estrelinha casamenteira, começou a vagar no meio das sombras procurando encontrá-la. Estava triste e apavorada. E mais ficou quando descortinou um vulto cambaleante descendo a colina como se fosse uma coisa do outro mundo.
Ela indagou-se: “será uma assombração ou será a mula sem cabeça?”
Coitada da Zuleide Anzol, que de tão magra e curvada parecia um anzol. O vulto poderia ser a mula sem cabeça, o tal lobisomem, um ET, ou a estrelinha cadente que estava rolando morro abaixo.
Mas que nada! Era Ambrozino Babão que trabalhava no correio aéreo. Zuleide não se recordava dele,. E dele só tinha uma vaga lembrança dos tempos quando eram crianças.
Ambrozimo era filho de Cacau da Cotia e Marilena Precata de Couro, que moravam na fazenda do outro lado do rio. Quando pequeno, ele era franzino e chupado feito roupa amassada. Contudo, tinha olhos vibrantes e sorriso largo que muito chamava a atenção. Ela era uma pintura de homem. Parecia o jeca tatu. Mas era desde pequeno doce e amável para com ela.
Zuleide correu ao encontro daquela coisa que rolava morro abaixo. Naquele momento, não importava quem era ou que coisa ruim pudesse vir a ser, precisava socorrê-lo. Afinal, era uma alma precisando do seu socorro. Encontrou o dito cujo e agasalhou-o no aconchego do seu corpo quente. Serviu-lhe café, bolo de milho e semeou ungüento nas suas feridas. Quando deu por si, já havia entregado a chave do seu coração.
E foi assim, que sem muita conversa, ficou sabendo que Ambrozino correio aéreo era quem lhe mandava as cartas de amor escrito em papel picado; que a estrelinha era o marco espacial para entregar suas cartas de amor; e que o sítio do Rio das Pedras ficava na rota das suas viagens. E para quem era carteiro do ar, tal qual ele, era muito fácil entregar a suas próprias correspondências. Era só abrir a janela do teco-teco e libertar os bilhetinhos de dentro da sacola de couro. O papel rodava, rodava; e para a felicidade de ambos, caía exatamente no quintal da casa do destinatário.
O que levava Ambrozino e Zuleide agirem daquela maneira, até hoje, é motivo de confusão. O que se sabe é que os dois se casaram e tiveram três filhos: Zumira Jabuticaba, Estrelita Cadente, e Cometino de Jesus, que graças ao Menino Jesus, nasceu num certo dia de domingo dentro do ônibus da AVIAÇÃO COMETA.
Antonio Virgilio Andrade
Enviado por Antonio Virgilio Andrade em 02/08/2005
Código do texto: T39708
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Antonio Virgilio Andrade
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