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A última que morre

Por detrás das faces róseas, sabia, era fácil notar a honestidade e indiscrição comuns à infância. Daí pra arrancar confissão – era outra história. Bem estranhou ao ver Fernanda, a Nandinha, sair sorrateira com o priminho Fernando. Da cadeira de rodas, em estado semicatatônico, a tudo observava. Os filhos reunidos; aniversário dele, assim, nunca haviam comemorado. Razão talvez, o fato de haver um consenso de que a validade do seu passaporte existencial há muito expirou – os abutres!  Não galgou tantos degraus na escada - desde lá de baixo, só ele tem noção do sofrimento – íngreme dos fatos de vida pra não saber discernir, separar o joio do trigo. As noras as piores. Achava uma dádiva o fato da finada senhora ter dado à luz somente a homens, já que, mole pra gavião não precisaria dar – passar de consumidor a fornecedor, um temor.

Nandinha. Dentre todos netos, a preferida. Por ironia ou crueldade DELE: lembra a avó. Como um retrato bizarro, um Dorian Gray versão feminina, não deixando a memória esvair-se como deveria, o dedo enfiado fundo na ferida, chaga aberta. “O fim chega pra todos”. Máxima mais certa, impossível. O corpo não responde mais, a cabeça funciona bem, talvez a maldição, esperando o ápice desse jogo doentio de cartas marcadas. “Paciente terminal”. Só ELE mesmo, o divino comediante, escárnio das desgraças mundanas, e o próprio em questão, sabem a dureza que é ouvir isso. Aliás, ELE não sabe; ELE não tá nem aí – ê vidinha sem sentido.

O vestidinho azul e o cabelo lisinho, olhos redondos, seu único acalanto. A inocência e a meninice tão em voga, à flor da pele, comovente até pra ele: um cético chato e rabugento. Reconhece. Flor que se cheirasse nunca foi. Mais pra espinho, erva daninha. Assim aprendeu a ser. Mas a netinha... Ah, a netinha... Sua fortuna.

Hoje já não crê mais em dádivas, noras, e filhos, exatamente nessa ordem. E, não sabe bem ao certo o porquê, prefere as menininhas. A sala cheia, família inteira comendo, se divertindo: “Às custas de minha ruína” - pensa. Como esse câncer que corrói a tudo com boca voraz, relações inclusas, sem migalhas deixar. César, o primogênito, é quem empurra sua cadeira em direção ao lugar de honra, a cabeceira da mesa, o lugar de quem acerta as contas – com Deus (ELE) ou o Diabo ou o que for. A cabeça pendendo pro lado direito tenta manter uma conveniente falsa ternura, há muito perdida.

O diagnóstico, a perfurante notícia sem o mínimo tato, e pior, a alternativa de “tratamentos alternativos”. Depois, foram coquetéis químicos e quedas de cabelo, decepções e luto - a esperança, sempre a que morre. A mulher não agüentou. Os filhos, esses então, nem tentaram. Inventário, a necessidade vital de um testamento. O focinho gelado da morte colado no seu rabo. Dissabor de cemitério, gosto de velório, insuportável. No hospital, admirava-se com os corredores tão limpos e brancos, ambiente asséptico. Entre consultas e exames, lia o jornal por inteiro. Converscotes sobre amenidades, juventude, a inesquecível doença sempre a lembrá-lo do motivo real da visita. Ambiente de clube, quase. Um clube de desvalidos. Odiava as conversas depressivas e mantinha-se de olho nas enfermeiras. Ao sinal de queda, sintoma, de um dos integrantes do grupo – aterrorizava-se. O retratinho da neta no bolso, como uma santinha em que pudesse se agarrar, descrente que sempre foi. “A forma mais pura de energia é o amor”, contaminava-se àquele tempo com os tais “tratamentos alternativos” - a esperança, esmagada nas vidraças.

A mesa meticulosamente posta. Buffet e os ardis planejados, de fato, a despedida. Acharam por melhor interná-lo onde pudesse ter o mínimo de qualidade de vida (?!). Francamente. No auge do picadeiro familiar, na corda bamba – sem rede – que se tornou o sonho comprado junto da casa própria, ao dizer “sim”, e “juntos na saúde e na doença”, é claro que não poderia prever. Forçosamente a festividade, ou celebração de alto teor de humor negro, desenrola-se como deveria ser. As noras cacarejando sem parar, os filhos, bananas-abutres, evitam o máximo a transparecer a cobiça estampada a ferro na cara-de-pau. “O que fiz pra merecer isto?!” Gostaria de dar um basta, se pudesse, terminar ali o espetáculo. Foto de família. Reunida toda a corja, de esguelha a procurar por Nandinha. A chuva, última convidada, respinga nele. Alguém fecha a janela. Agora é o barulho de gotas no telhado, o cheiro de terra molhada, uma paz. Nem sinal de Nandinha. O bolo vem vindo, bonito, recheio de coco, seu preferido, a última refeição de um condenado. Impaciente, o fotógrafo tamborila os dedos na vidraça, são dois ruídos: dedos mais gotas. Nandinha finalmente é encontrada atrás da cortina com Fernando, o priminho. Envergonhada, face de rósea a vermelha, não o encara como costuma fazer, curiosa. Ao vê-la, junto de todos reunidos para o retrato, a inocência maculada, nódoa irreversível, a mãe nora que ralha, os ruídos, o cheiro de chuva - entende: a esperança morreu afogada.


   
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 08/08/2005
Código do texto: T41347
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista