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Saudades

Ainda na rodoviária, amaldiçoava-se por ter aceitado proposta tão distante. Doze horas sacolejando no coletivo e, pior, longe da amada. Apesar de que Julia há muito o vem cozinhando, dizendo que o ama, mas sem deixar o marido. Tem lá suas razões, mas como o diria o poeta, o amor alimenta. Não vê tão simples, mulher cara, cheia das manias e bons modos, assim por mal dizer – fogosa que só. “Marido como esse não se acha meu bem. E fruta roubada é mais gostosa”. Com esse discurso caíam por terra as ameaças de contar tudo ao gordo rico. Homem forte João, anos de trabalho em siderúrgica, soldador experiente, mãos fortes, aspecto másculo, gosta de trabalhar com ferro, gosta mesmo. Em sua cabecinha simplória não entende como Julia pode se entregar aquele gordo - daquela mesma maneira que faz com ele? Julia lasciva, pedaço de morena de acabar casamento. Menos com o dela, que boba nunca foi, adora boa vida: seu defeito – talvez também um sinalzinho na virilha, cheio de cabelos, nada que desagrade João.

Eis que passadas as doze horas de viagem mais um ano de correspondência, Julia adoece. O João apreensivo sem notícias. Pensa em abandonar tudo, ir ver a querida, mas precisa do emprego. Ganha mais, já é chefe de solda, esporadicamente se alivia na zona, nada de traição, sem amor, tudo pago, estritamente negócio. Os dias passam e com eles a angústia não. Passado assim, tão presente, é difícil de esquecer. Um dia, triste e retraído, os amigos de trabalho a estranhar, descuidado e aéreo, acende o maçarico na própria mão. “CARALHO!!!!” Enfermaria. Queimadura semigrave sabe-se lá quantos graus. Melhor que ditado popular, os males vem sim para o bem, agora pode ver Julia.

Compra passagem correndo. Na rodoviária o sentimento inverso da ida, agora na volta, o ciclo se fechando. Quer correr, se pudesse: voar. Algumas curvas sinuosas e paradas estratégicas depois, enfim seu destino. Não pode ir direto para casa da adorada. O que fazer? Corre-corre em agendas telefônicas e, graças, acha o da prima confidente. A derradeira notícia, Julia morta. Primeiro pensamento: negação; depois, atordoado, pergunta se é brincadeira de péssimo gosto. Chora como criança e põe a culpa no gordo, maldito. A prima, confidente e fofoqueira – em todos os casos, porém jamais revelaria o caso da prima em questão -, lhe diz que Julia estava grávida. Uma porrada na cara. Garganta seca. Olhos marejados. No peito uma confusão enorme. O porquê de não ter lhe contado está guardado na caixa grande de pinho, envernizada, com alças douradas, vaidosa até na morte, Julia. O ódio subindo pelo queixo quadrado de boxer, a cara inflamada. Gordo maldito, astuto e egoísta, sempre teve tudo e, não satisfeito, arrumou uma maneira de permanecer no poder, um pedacinho de Julia para sempre – Julinha.

Não voltou para o emprego. Percorreu a via-crúcis dos cornos e rejeitados. Bebeu em todos os bares de que tinha recordação. Virou um trapo, acabado o dinheiro, alguns anos de poupança. Só se levantava para comprar cigarros e bebida, melancolia etílica, seu quadro, ou dor de cotovelo, na posição de amante – treco raro. A barba grande e espessa. Anos gastos, desperdiçados.
Sem mais nem menos, resolveu se recompor. Juntou seus pedaços que estavam caídos por toda parte, sem esquecer o menor que fosse, a cicatriz lembrando-o da estimada, nunca esquecera, esqueceria. Barbeou-se e resolveu procurar emprego, tinha de ser mexendo com ferro, disso não abriria mão. Conseguiu em uma fábrica, indústria jovem, no setor de funilaria. Ia e voltava e bebia – com cautela – e comia e cagava, o pensamento, no travesseiro, às voltas com Julinha, seu sangue derramado e perdido.

Belo dia bateu cartão e foi tomar o café da manhã junto dos outros no refeitório. O buxixo mais alto que o normal. Todos falavam da nova secretária, uma tremenda gostosa, os comentários. Há muito não olhava com os mesmos olhos as mulheres, alguns raros casinhos esparsos e visitas às meninas – só. Ignora, porém se lembra, curioso inveterado. Às onze ela chegou. No horário – pouco faltava para o almoço -, os operários aglomeraram-se para assistir o desfile diário da musa. Resolveu conferir. Moça bonita, alta, bem vestida, os cachos voando sob os grandes ventiladores do saguão. Quando ela mexeu no cabelo, matreira, teve certeza: Julinha. Já se vão anos a observando. Produto seu e da finada. Um dia toma coragem e conta tudo pra ela. O coração um ferro em brasa.



 


Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 08/08/2005
Código do texto: T41348
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista