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As aparência enganam

Todos os fregueses, entre discussões de política, futebol e casamentos fracassados, sorvem seu cafézinho rotineiro. Uns, média e pão francês na manteiga. A televisão de catorze – ou quatorze? – exibe o bom e velho jornal de todos os dias, tendencioso, e nada de anormal acontece: estupros, assaltos, corrupção, roubos, corrupção, prostituição, degradação, filho mata pai, pai mata filho, o fim está próximo, corrupção. Vez ou outra, uma exposição de algum fulano artista, distante, quase intocável, ao menos para a maioria dos habitues.

- Ô Gérson! Tira desse jornal de viado, bota no cidade alerta!

O salão cheio. A maior parte de vendedores de companhias de bebidas, com seus uniformes de várias cores, cada um de uma cor, significando, representando, a empresa para a qual trabalham. Um padrão engenhoso usado para indicar uma hierarquia também. Tipo: supervisor, vendedor, gerente, por aí. Alguns aposentados solitários, senhoras beatas a caminho da missa, pedreiros, gente vindo de noites tumultuadas – mais nas manhãs de sábado, início de mês, como hoje -, toda a sorte de pessoas. Uma jovem, vestida em trapos, tenta empurrar para Gérson uma oferta imperdível, quer vender uns discos antigos, pra ver se consegue continuar cheirando mais algumas horas. Normal. Tudo normal. O pão com bromato, denúncia anônima a saúde pública, pêlos púbicos encontrados no recheio do sonho, que, aliás, é uma das poucas coisas a se agarrar nesse bairro.

Um homem atravessa o salão, trôpego, como que bêbado, derrubando copos, pisando em ovos, pisando fundo sem breque. Tromba, cai e suja de café a camisa de seda do Nestor bicheiro, bicheiro não, escreve jogo de bicho, bicheiro é banqueiro, dono de escola de samba, traficante e dono de bingo. Nestor é gente honrada, malandro, vive na disciplina.

- Porra! Tá doidão caralho?! – fala Nestor já dando um bico no estômago do vagabundo.

O velho – é um senhor, sessentão, aparenta – espuma pelos cantos, pelos poros, e tenta se levantar. Os fregueses, no salão, tentam se afastar, em vão, já que a padaria não é assim tão grande. Falatório, gritaria, uns a caçoar, uma zona. E aí que o velho se põe a vomitar, e aí que Gérson dá um basta:

- BOTA ESSE FILHADAPUTA LÁ NA CALÇADA! Porra... o que eu tenho de agüentar...

Gérson comprou a padaria com a indenização de seu último emprego de carteira assinada, balconista, quase gerente, homem de confiança de uma farmácia no Engenho Novo. De lá pra cá, já são doze anos de balcão vendendo pão, com bromato, que é pra render, sonegando impostos, pra defender o seu, três filhos e escola particular, tudo o que eles merecem, claro. Gérson é boa gente, dos nossos.

Encostado ao meio-fio, o velho vomita sem parar. Não são restos de seu jantar o que ele expele, mas uma solução ácida, esbranquiçada e de mau cheiro. Deixam ele lá. Uns quinze minutos mais ou menos, e o quadro é o mesmo. Gérson sabe que isso atrapalha as vendas, por isso ele não vende bebidas alcoólicas, trauma de infância, pai bêbado batia na mãe. Então, vai lá, melhor, manda o funcionário jogar água no velho – precisa manter imagem, bom pro comércio. O velho lá caído, todo encharcado. O pãozinho quentinho. Doces, croissants, biscoitos finos, tortas e massas em geral. As pessoas, pra entrar na padaria, pulam o velho, algumas reclamam, outras comentam o fato ou fofocas. O jornal segue com “asno-tícias”. Uma senhora, sensibilizada com a cena, decide ligar para os bombeiros, pra ver se mandam uma ambulância e tiram aquele homem dali, ninguém gosta de assistir desgraças, assim, ao vivo.

Quarenta minutos depois chega a ambulância.

- Porra, até que enfim hein, esse filhadaputa tá acabando com meu movimento! – reclama Gérson.
- Mermão, são muitos casos pra se atender...
- Sei, sei.

Os paramédicos fazem o que tem de fazer e decidem retirá-lo dali. Os fregueses e o público, que a essa altura se formou em volta do velho, acima do velho, nas janelas das casas, dos ônibus, dos carros: vibra. E o dia está liberado a prosseguir.

- Adoro esse Datena...

Mais tarde, sirenes ligadas, em direção ao hospital, o velho morre. Na emergência constatam: não agüentou esperar tanto por socorro. Úlcera perfurada, o diagnóstico.




























   



















Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 08/08/2005
Código do texto: T41350
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista