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Imprevisto

Embora em meio ao burburinho formado pelo trânsito e o ir e vir da vida, conseguia ouvir ao longe o tilintar dos copos. A praça sempre receptiva. Devoção religiosa, como quem comunga, as hóstias trocadas por amendoim japonês. De fato, motivo de rusgas com a jovem mulher. Ela que o entendesse, natural que o fizesse, visto que de tal forma ela mesmo o tinha conhecido – reclamar, agora impossível.
 
Ao apontar o nariz na esquina, saudação murcha – algo errado. Nos rostos tão familiares uma expressão diferente. A cabeça já latejava mesmo antes de pensar, perguntar. E perguntar pra quê? Fosse o que houvesse, na teoria preferia não saber, aquela coisa do “o que não se sabe não se sente”, sabe?

Encostou-se ao balcão e de pronto, como sempre, a cerveja estalando deslizou até sua mão. O próprio Zé do bar o olhava diferente. Já não ouvia mais o samba que ecoava alto das caixas de som em direção ao ar pesado da fumaça dos carros. Sempre a mesma sensação, a liberdade e satisfação que só uma cervejinha antes do jantar pode dar. E a certeza – quase que sem dúvida, infalível – da sobremesa, ao chegar em casa, o auge do dia.

A bem saber que, talvez hoje: nem pensar. Dor de cabeça, “aqueles dias”, desculpas não faltam nestes momentos tão inoportunos, pra ele ao menos. Natural que ela o fizesse. Ele que a entendesse. O caso é que começou a coçar cedinho, bem atrás da orelha, quando dela ouviu dizer a respeito de primo distante visitante - Quem sabe quando? Ficou de avisar. O telefonema deixou-o ciente, horas antes de descobrir que mais cedo estaria liberado da repartição, possivelmente a sogra incluída no tour por seu lar.

Chave girando na porta, baixinho, não quer estragar surpresa. Pisa macio o capacho, deixa os sapatos em ciminha do bem e do vindo, respectivamente. No sofá, caídas e amarrotadas, como que tiradas às pressas, jazem roupas de homem, não suas, sabe. Na garganta um nó atado. Queria surpreender e fora surpreendido. Catou peça por peça, metodicamente, juntou os sapatos – bem maiores que os seus – e dispôs o conjunto em uma trouxinha. Junto dela pôs sua angústia e desespero. Ao sair deixou suas chaves e a lição de jamais fazer surpresa ou esperar por sobremesa. A praça a esperar.
 
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 25/08/2005
Código do texto: T45088
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista