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A Velha dos Gatos

       Neste mundo há quem ainda se lembre de mim. Ai, há sim...

       Chamavam-me, na época, a velha dos gatos. Porquê? Ora, porque vivia rodeada de gatos. Pretos. Todos os meus gatos eram pretos e de olhos amarelados, como os meus. Não vos posso dizer quantos gatos viviam comigo. Uns vinham e outros iam; uns ficavam, outros vadiavam.

       Dividíamos as espinhas. As da sardinha em lata, e as que me ficavam entaladas na garganta, que só escarrando é que saíam. Ensanguentadas, mas saíam.

       Ah! velha porque os estafermos de calções e pernas esguias que viviam nas redondezas achavam que eu era velha, e deitaram-me na pia baptismal sem me perguntarem o que eu pensava; baptizaram-me sem a presença de um padre. Blasfemos! Estafermos! Digo-vos que de certo modo agradeci. O padre Isaías vivia bêbado que nem um cacho de uvas moscatel, e terminava sempre o sermão da noite dizendo às velhas beatas (essas sim, eram velhas) que deviam era ir para casa remendar meias. O padre é que se remendou mal, depois de ter atropelado e matado uma catraia quando acabou de dar a última missa. A culpa foi dela, senhor guarda, que não olhou ao atravessar a rua, defendia-se o padre ao mesmo tempo que fazia o sinal da cruz, mal e porcamente. Benza-te Deus, Isaías, que à miúda ninguém benzeu só porque era tarde e andava na rua.

       Um dia ouvi da boca de uma fedelha - coitada! pensava que eu era mouca, dura de orelha - que eu estava a dever anos à cova. Pois que saiba a menina, se ainda não foi pagar a sua dívida, que estou mesmo. Estes oitenta e três anos já me pesam; os ossos enferrujados, os cabelos desfiados, os pés já se arrojam, e os gatos... esses continuam por aqui. Sim, senhor! Vivinhos da Silva. Às vezes pergunto-me quem é que nunca viveu com um gato preto aninhado no colo! Conheço até gente que os acaricia! Os meus ninguém acariciava. De vez em quando enxotava-os para a rua, mas eles retornavam ao pontapé. O conforto da casa não era lá grande coisa, mas os bandidos retornavam. Eram filhos do cio alheio, e eu que lhes desse de comer.

       O meu primeiro gato foi oferta do meu esposo, que Deus lá o tenha em descanso. Chegou-me com o Tareco na mão esquerda e um bolo na outra mão. Trinta velas tinha ele. O bolo, porque o esposo já contava com quarenta e três. Lembro-me que lhe disse que o bichano era da cor do ébano, ou do azeviche, ou da bruxaria. Que belo presente! Eu que, sempre, detestei gatos. Até os pardos! Quero é vê-los longe de mim. Mas veio o Tareco, e um ano mais tarde outro, e outro, até que começaram a chegar todos os meses. Um a um. E iamos lá fazer o quê? Pois que viessem, e que ficassem, e que morressem esfomeados. Mas, sempre, havia alguma alma caridosa que lhes dava algo. Lembro-me da Dona Natalina, a que vivia no segundo andar, lá no prédio da Dona Visitação. A infeliz, sempre os levava ao colo e dava-lhes os restos dela. Pobre mulher! Começou a ser mais espertinha quando um dia matou uma ninhada deles. Meteu-os num saco de batatas, um de lona que pediu ao Zé da mercearia, e afogou-os. Mas, mal sabia ela que os desgraçados voltam sempre. Não têm perna comprida, mas têm nove vidas...

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 16/02/2005
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T4517

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
87 textos (6701 leituras)
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Cristina Pires